Matéria Especial Hypeness

Como a Cientologia luta contra a psicologia para manipular e abusar de famosos e pessoas comuns

por: Vitor Paiva

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Muitas vezes vista como somente uma excentricidade religiosa de celebridades norte-americanas, a Cientologia ganhou popularidade e cartaz nos últimos anos ao redor do mundo, principalmente a partir de seu mais reconhecido seguidor, Tom Cruise, e as bizarras histórias e especulações derivadas de tal religião em sua vida.

Acontece que a Cientologia é muito mais do que somente uma exótica tendência espiritual que vem ganhando força em Hollywood – trata-se de uma seita perturbadora, que ataca e massacra o livre arbítrio de seus seguidores, manipulando e colocando em risco saúdes mentais, sexuais e físicas.

Criada originalmente como uma pseudo-ciência com intuitos de auto-ajuda pelo escritor americano L. Ron Hubbard, em 1952, a Cientologia foi pensada através de um sistema com objetivos terapêuticos, e não religiosos. Usando platitudes místicas e espalhando conceitos como “imortalidade”, “natureza verdadeira” e  “alma”, o método desenvolvido por Hubbard em meados dos anos 1960 já estava proibido em diversos países, acusado de charlatanismo, especialmente pela igreja usar o que foi considerado como “hipnose de comando”, na qual o hipnotizador controla o hipnotizado de forma autoritária. Os ensinamentos “profundos” da cientologia só são revelados aos seguidores, é claro, mediante o pagamento de uma enorme quantia em dinheiro.

Seja como for, o poder e o dinheiro por trás da instituição parecem crescer desde os anos 1990 até hoje – e é denunciar os abusos e corrupções por trás de tal grupo a missão da série Escravos da Cientologia, que volta em nova temporada no Canal A&E.


O criador da cientologia, L. Ron Hubbard

E as acusações se acumulam: a atriz Leah Remini, que por décadas dedicou-se à igreja até perceber o mal, e não só se desligar como passar a liderar uma campanha de denúncia contra a Cientologia, conta em detalhes as práticas da organização.

Segundo Remini, qualquer tipo de questionamento era proibido; a corrupção moral e financeira corria solta, e todos os membros que se desligassem da igreja tinham de ser “apagados” da memória e da vida dos remanescentes, além de serem publicamente difamados. Para poder estar sequer presente no casamento de Tom Cruise, Remini teve de doar 1 milhão de dólares à igreja, e ainda convencer celebridades importantes a irem à festa.

Não é por acaso que um dos mais ferrenhos inimigos da cientologia é a psicanálise. Tom Cruise já se opôs em um quase surto de agressividade à psicanálise em um talk show americano, e para os cientologistas a psicanálise está por trás de todos os piores acontecimentos recentes e males da humanidade: do holocausto ao racismo, passando pelo atentado do World Trade Center até a morte de George Washington, primeiro presidente dos EUA.


Tom Cruise na famigerada entrevista com Matt Lauer

Hubbard, o falso psicólogo

Ironicamente, não só Hubbard procurou a psicologia em sua juventude, como se dizia um psicólogo, até que ele foi diagnosticado como um paranoico esquizofrênico, e a partir de então a psicologia passou a ser vista por ele como a fonte de todos os males da humanidade. Teorias conspiratórias infantis apontam as conclusões da seita para a razão por trás dos males que a psicologia nos traz. Ainda que tal oposição seja risível, o poder e o dinheiro que hoje a Cientologia desfruta nos EUA permite que ela patrocine um tanto secretamente um museu multimilionário que “explica” todas essas conspirações, singelamente batizado de “Psiquiatria: uma indústria da morte” (a Vice fez uma matéria detalhada sobre isso).


A fachada do tal “Museu da Psiquiatria”, financiado secretamente pela cientologia

Não há, naturalmente, nada de real ou concreto nas bizarras acusações levantadas pela Cientologia – a não ser a própria posição original do fundador da igreja, e a impossibilidade de qualquer questionamento das doutrinas de Hubbard dentro da instituição. Como a (boa) psicologia visa justamente a afirmação dos desejos e a liberdade dos pacientes, é natural que existe tal oposição. Feito qualquer seita xiita, a Cientologia vê tudo que não são os seus dogmas como motivo não só dos males do mundo, e oferece a si mesma como a única solução. Parafraseando Sigmund Freud, a verdade é que quando a Cientologia fala da Psicologia, ela diz mais sobre a Cientologia do que sobre a Psicologia.


Interior do museu

Pois, afinal, o que há por trás de tais dogmas não é misterioso nem profundo: nada além de manipulação em nome de poder e dinheiro. A história de uma seguidora australiana chamada Alice ilustra o mal em potencial que o charlatanismo de tais organizações pode provocar na vida das pessoas: seguidora da Cientologia, Alice um dia teve uma crise nervosa, entrou em depressão e precisava de tratamento. No lugar de leva-la a uma pessoa ou um lugar adequado, a igreja decidiu por seguir as orientações de Hubbard: levou-a para uma fazenda contra sua vontade, e a deixou isolada em um quarto, sem poder falar com ninguém. A família denunciou na época o ocorrido, a igreja negou, Alice voltou para casa e, mais tarde, ela mesma negou que tivesse sido submetida a tal método. Em outra matéria para a Vice, porém, um antigo seguidor da igreja confirmou a história anonimamente.

Os números e o tamanho da Cientologia são controversos. Enquanto a própria igreja alega possuir mais de 8 milhões e seguidores pelo mundo, com 3,5 milhões só nos EUA, uma fonte independente de pesquisa afirmou que são, em verdade, 55 mil seguidores no país.

Vencedora do prêmio Emmy em 2017 de Melhor série informativa/especial, Escravos da Cientologia volta para a sua segunda temporada. Quem comanda a série é a própria Leah Remini, que deixou a religião em 2013, e traz novos depoimentos de ex-membros e, com isso, novas denúncias. Quem se junta à Leah na série é Mike Rinder, ex-diretor da Igreja na Austrália, trazendo novas histórias de abuso, extorsão, sofrimento e assédio vividas por quem deixou a Cientologia.


Mike Rinder, ex-diretor da Igreja na Austrália

“Após a primeira temporada, recebemos uma quantidade tremenda de apoio, para nós e todos os valentes participantes que contaram suas histórias. A partir disso, Mike e eu nos reunimos com advogados e autoridades, e esperamos que algo seja feito e que finalmente tenhamos justiça”, diz Leah Remini.

Naturalmente que a igreja propriamente nega todas as acusações, afirma que o que move Leah é o ressentimento por não ter conseguido seguir os altos níveis morais e éticos da instituição, e proibiu qualquer membro de participar da série. Tais contra-acusações também serão tratadas nessa nova temporada, que estreou no último dia 6 de dezembro. A série é exibida no canal A&E, às quartas, 20h50.

© fotos: divulgação/reprodução/A&E


Vitor Paiva

Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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