Matéria Especial Hypeness

Música e luta no adeus ao grande trompetista sul-africano Hugh Masekela

por: Vitor Paiva

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A história das lutas contra regimes totalitários é a história de cada homem e cada mulher que tenha sofrido as dores e horrores de ser perseguido, torturado, exilado, ceifado, morto. Tendo sido um dos mais longos e mais absurdos sistemas autoritários do século 20, o apartheid, que na África do Sul discriminou, rebaixou e violentou a maioria negra da população por 43 anos, entre 1948 e 1991, em favor da minoria branca, tornou-se forçosamente o capítulo mais duro da vida das milhões de pessoas desconhecidas do grande público que viveram e ainda vivem no país.


Hugh Masekela ao piano

Algumas pessoas, em nome da causa mas também por seu imenso e raro talento, destacaram-se por emprestar não só a qualidade de seu trabalho mas sua própria vida para uma luta – e uma dessas pessoas que traçaram contra o horror e na direção de uma possível luz a história da África do Sul foi o genial trompetista Hugh Masekela, que veio a falecer na última terça-feira, dia 23.

Considerado o pai do Jazz sul-africano (junto da cantora Miriam Makeba a própria face da música do país) e um dos mais inventivos e singulares trompetistas do mundo, Masekela ficou especialmente conhecido por suas composições contra o regime de apartheid, como “Soweto Blues” e “Bring Him Back Home”. Ele tinha 78 anos.

Quando Masekela tinha 2 anos o regime de exclusão e perseguição foi instaurado em seu país. Toda a vida jovem e adulta, portanto, do músico, se deu dentro do terrível contexto do apartheid. Como os pais de Hugh tinham de trabalhar intensamente para superar a pobreza e os efeitos do regime, o músico foi basicamente criado por sua avó, que administrava um bar ilegal para mineiros. Foi nesse bar que ele começou a cantar e tocar piano. Um dia, depois de assistir um filme americano sobre jazz, Hugh apaixonou-se pelo trompete – e o amor foi recíproco e para a vida toda.


O jovem Hugh Masekela

“Pai, se você me conseguir um trompete eu nunca mais incomodo ninguém”, ele teria prometido, diante de seu histórico de enfrentar autoridades e professores na escola. O pai lhe conseguiu o instrumento, mas Hugh não cumpriria sua parte no acordo – incomodar as terríveis autoridades de seu país seria uma grande parte de seu trabalho e legado.

Depois de crescer tocando em bandas diversas, com o enrijecimento do regime, nos anos 1950 e 1960 sua música passou a refletir intensamente a experiência de viver como negro em um país segregado, em que essa parcela da população era vista e oficialmente tratada como inferior, sem direitos, sem poder ir e vir, sempre sujeita a humilhações, violências e morte. Além de retratar a agonia e a dor de seu país (juntamente, é claro, das alegrias e belezas que o faziam também amar e lutar pela África do Sul), a música de Hugh exigiu mudanças profundas pela vida de todos – e por isso, sua música tanto tocou a quem vivia no país – e no mundo – as mesmas dores, e se popularizou.

No início da década de 1960, seu nome já era conhecido na África do Sul, não só pela música mas por suas atividades anti-apartheid – e Masekela era cada vez mais visado e perseguido. O país não era seguro para ninguém de pele negra, e menos ainda para ele. Com a ajuda de amigos e admiradores de todo o mundo, Masekela foi admitido em uma escola de música em Londres e outra em Nova Iorque, e assim conseguiu deixar o país.

Por quatro anos estudou trompete clássico, na Manhattan School Of Music, e foi nesse período que sua carreira internacional de fato teve início, quando o músico aproximou-se de grandes nomes do jazz e da música pop. Masekela chegou inclusive a lançar alguns hits de sua autoria nos EUA, como o grande sucesso instrumental “Grazing In The Grass”, que incrivelmente chegou ao topo das paradas americanas. Masekela se apresentou no festival de Monterey, em 1967, no mesmo ano que artistas como Janis Joplin e The Who. O músico só voltaria para a África do Sul com o fim do apartheid, no início dos anos 1990.


Masekela no festival de Monterey, em 1967

Além de lançar 40 discos próprios, Hugh Masekela viria a trabalhar com verdadeiras lendas do Jazz e da música internacional, como Louis Armstrong, Harry Belafonte, Miles Davis, Paul Simon e com a grande cantora sul-africana Miriam Makeba. Conhecida como Mama Africa e já nos anos 1960 uma artista reconhecida internacionalmente – tendo sido também uma forte porta-voz da luta contra o apartheid em todo o mundo – Miriam também foi, por dois anos, mulher de Hugh. Os dois se separaram porém permaneceram amigos e parceiros musicais por toda a vida.


Miriam e Hugh

Foi através desses nomes e da influencia direta de estar entre grandes do Jazz, que Hugh entendeu que precisava mesclar o estilo com as influências musicais singulares que trazia de seu país. Quando lançou seu primeiro disco, Trumpet Africaine, em 1962, esse híbrido já estava construído, e o reconhecimento lhe encontrou naturalmente.

Masekela é considerado um dos grandes arquitetos do Afro Jazz, fazendo parte, junto do nigeriano Fela Kuti e da própria Mama Africa Miriam Makeba, do seleto grupo dos mais importantes e reconhecidos músicos do continente africano. Em 1977 ele lançaria “Soweto Blues”, outro hit internacional e ícone da luta sul-africana, e em 1986 um dos hinos pela libertação do líder Nelson Mandela, “Bring Him Back Home”.


Miriam Makeba, o guitarrista Ray Phiri (ao fundo) Paul Simon e Hugh Masekela

Também em 1986 ele sairia em turnê internacional com Paul Simon, quando do lançamento do disco Graceland, que trazia justamente músicos e ritmos sul-africanos para a música americana de Simon. Essa turnê se envolveu em intensa controvérsia, por conta do boicote então realizado contra a África do Sul pelo fim do apartheid, e se tornaria também um forte momento na luta contra o regime, que encontraria seu fim em 1991 – quando Hugh poderia enfim voltar pra casa.

“Minha grande obsessão foi mostrar ao mundo quem os africanos realmente são”, ele dizia. O diagnóstico de câncer na próstata, em 2008, jamais o impediu de seguir tocando – ele se apresentou na abertura da Copa do Mundo da África do Sul, em 2010 – e Hugh não deixou os palcos até o fim de sua vida. Diante da notícia de seu falecimento, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, declarou que a nação iria velar um homem que “manteve viva a tocha da liberdade”.

Além de apontar a imensa perda para a música, a força de sua luta contra o regime racial também foi apontada pelo presidente. “Sua contribuição na libertação de nosso povo jamais será esquecida”, afirmou Zuma.

Todo a África do Sul e o mundo da música veio a público lamentar a morte de um dos mais nobres e inventivos músicos que conhecemos, mas talvez a mais bonita e simbólica definição da perda do trompetista Hugh Masekela tenha vindo do ministro das artes e culturas sul-africano, Nathi Mthethwa, que enxergou na vida de Masekela a grandeza de uma imensa árvore local. “A nação perde um músico único”, ele escreveu. “Hoje um baobá caiu”.

© fotos: divulgação/acervo Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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