Matéria Especial Hypeness

Como filmes e séries de suspense e crimes são feitas, segundo um diretor

por: Vitor Paiva

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Poucos estilos cinematográficos são tão bem definidos e reconhecíveis quanto os filmes policiais. Ainda que a era do cinema em preto e branco tenha ficado no passado, não é por acaso que ainda hoje diretores recorram à estética noir dos grandes suspenses para contar uma história de crime hoje. A elegância, aliada ao clima soturno e misterioso que costuma rondar os filmes policiais, são elementos determinantes para o devido clima que prende o espectador até o fim do filme, para descobrir quem era, afinal, o criminoso procurado.


Exemplo da estética noir no cinema

Sombras, espelhos, ângulos inusitados, desespero, assassinatos, moralidades ambíguas, alienação, traições, num contexto em que todos são suspeitos e tudo pode acontecer: pode parecer simples, mas é claro que não basta conhecer a estética para realizar um grande filme de investigação – e é isso que a obra do grande diretor italiano Stefano Sollima nos mostra.

Tendo dirigido diversos filmes e principalmente séries do estilo em sua carreira – como o filme Suburra, de 2015, e a série Romanzo Criminale, de 2008 – em 2012 Sollima começou o trabalho que iria redimensionar sua relação com o gênero e seu próprio reconhecimento profissional, e colocá-lo como um dos mais interessantes diretores atuais do gênero, acendendo o interesse inclusive de Hollywood: a série Gomorra.


Solima em ação

Baseada no livro de mesmo nome de Roberto Saviano (e tendo antes sido adaptado para os cinemas), a série traz uma abordagem diferenciada para o universo da máfia italiana e dos crimes: ao invés de simplesmente mostrar a história dos chefões, Gomorra mostra o crime em todos os seus escalões, das ruas ao topo da pirâmide com os mais poderosos gângsters. A série foi distribuída em mais de 150 países, sendo eleita uma das melhores do ano de 2016.


Cena da série Gomorra

Não só para Gomorra como para todo seu trabalho, Sollima parece adicionar às tradicionais premissas do estilo uma brutalidade que contrasta com o romantismo que o universo de suspense dos filmes noir costuma trazer. Um exemplo concreto, em que Sollima atualiza o gênero para os dias atuais – e que ele coloca em prática em Gomorra – é o ponto de vista. Muitos dos filmes de gangsteres conduzem a narrativa do ponto de vista da lei. Na série, porém, somente o que se tem é o ponto de vista da máfia. Para tal, é preciso, segundo o diretor, se despir de julgamentos morais para contar a história, chegando a um resultado muitas vezes mais difícil de se assistir – com heróis e bandidos menos definidos, sem grandes salvações ou finais felizes de fato.


Cena da série Gomorra

Outra decisão determinante, segundo Sollima, para o sucesso da série foi a aproximação máxima com a verdade. Filmada de fato em Nápoles, o diretor reconhece o trabalho como algo entre um filme de arte e um documentário encenado sobre uma organização criminal – sem deixar de lado, no entanto, a ação e o suspense que um bom filme policial deve sempre ter. Assim, as bases estilísticas dos filmes do gênero estão sempre presentes em seu trabalho, mas a abertura para outras influências enriquecerem ainda mais os policiais que realiza parece ser determinante para que o estilo possa se atualizar e permanecer contundente e rico.


Cena da série Gomorra

Para se ter uma noção do extenso campo de possibilidades que os policiais, nas mãos de um diretor talentoso como Sollima, podem ter está nas influências – e uma das influências que Sollima já apontou como importante para seu trabalho, e que ilustra esse campo vasto, é o filme Blow-Up, do gênio do cinema italiano Michelangelo Antonioni. Apesar de acontecer de fato ao redor de um crime, Blow-Up é um filme um tanto experimental, cheio de enfoques psicológicos e metafóricos não usuais, que se aproxima do suspense com fortes pitadas de realismo fantástico – não por acaso: o filme é baseado em um conto do autor argentino Júlio Cortazar. Carregar tal influência é também mostrar o quanto os filmes policiais podem ir longe sem abandonar o próprio estilo.


Cena do filme Blow-up, de Antonioni

E essa influência foi trazida por Sollima para a feitura de um de seus trabalhos mais instigantes, por justamente trazer seu talento em filmes policiais para um universo novo: a direção da nova campanha de Campari.


Sollima dirigindo a campanha de Campari

Para tal, Sollima se valeu de um formato diferente em campanhas publicitárias, criando um filme de 10 minutos com de fato uma história de suspense, a fim de revelar o produto. O filme, intitulado “The Legend of Red Hand” (A lenda do Mão Vermelha) é estrelado pela atriz Zoë Saldana, e conta as desventuras de uma jornalista (vivida por Saldana), que quer descobrir a identidade de um lendário bartender, célebre por ser capaz de produzir o drink perfeito – que provoca sensações ímpares e inesquecíveis em quem o prova. O tal bartender é conhecido por somente preparar o drink vestindo luvas vermelhas – daí a alcunha de “Mãos vermelhas” citada no título.


Cena da campanha de Campari sendo filmada

“Contar uma história assim requer linguagem, ritmo e atmosfera completamente diferentes de uma campanha publicitária normal. Eu sabia que poderia fazê-lo sem trair minha filosofia”, diz Sollima. “Sempre que conto história às pessoas, eu sempre posiciono o psicológico no coração de tudo – e dez minutos é tempo suficiente para fazer isso”. Segundo o diretor, a parte mais delicada era definir uma história que refletisse o universo de Campari, com o senso de intriga e sedução que envolvem a marca, e incorporar tais elementos através de uma história rica em suspense e mistério.


A atriz Zoë Saldana na campanha de Campari

Por ser uma bebida italiana tão característica, o olhar de Sollima sobre Campari era natural e cheio de potencial. “Campari é sinônimo de estilo e paixão italiana no mundo todo. Como um italiano, eu cresci com isso como um elemento que fazia parte da vida. Campari é parte do que significa ser italiano”, ele diz. Ao juntar a publicidade ao redor de uma bebida tão singular com um estilo também peculiar mas afeito a adaptações diversas, o talento de Sollima permitiu que os suspense policial pudesse servir de veículo não só para o espírito de Campari e a peculiaridade de seu estilo e sabor, como também para mostrar como os filmes de crime podem ser amplos e contemporâneos, mesmo se tratando de um gênero tão tradicional.


Cartaz da campanha de Campari 

Quer ver como as táticas do diretor funcionam na prática? Então corre para a página especial.

© fotos: divulgação/reprodução/Campari


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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