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Artistas trans e discussões de gênero abrem olhos e corações na SP-Arte

por: Gabriela Rassy

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Abrindo o calendários dos grandes eventos de arte de São Paulo, a SP-Arte – Festival Internacional de Arte de São Paulo, mais uma vez importantes galerias do mundo todo para mostrar seus trabalhos pelos corredores do Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera. Esta, que já é a 14ª edição, traz pela 4ª vez seguida conversas entre público e artistas, discutindo temas urgentes da sociedade. O evento acontece de 12 a 15 de abril e já começa com um debate que se faz cada vez mais necessário: a arte na vanguarda da diversidade de gêneros.

O ano de 2017 foi duro neste âmbito. A arte se viu repreendida por movimentos conservadores que saíram dos recantos obscuros das redes sociais para as galerias e museus. Do alto do século 20, vimos movimentos de reputação duvidosa e membros da tradicional família brasileira brigando pela censura de performances e exposições. Como nossa memória teima em encurtar, vale lembrar que a performance La Bête, encenada pelo artista Wagner Schwartz no MAM, se viu na pauta negativa desses grupos e a mostra Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira foi cancelada no Santander Cultural de Porto Alegre. Não fosse as manifestações da classe artística e das pessoas de mente e coração abertos, parecia que estávamos de volta em 1964. Águas passadas, porém recentes.

Portanto o debate da sexualidade e da identidade de gênero são sim uma pauta a ser trabalhada. Chegamos ao talk então que abre a SP-Arte com louvor. Cada ação conta. O debate parte da edição de abril da revista Select, que teve suas páginas dedicadas inteiramente ao tema. Conduzido pela crítica de arte e editora da publicação, Paula Alzugaray, a mesa convidou Ariel Nobre e Rosa Luz, dois jovens artistas e ativistas trans, para contar suas experiências e mostrar seus trabalhos.

"E se a arte fosse travesti", de Rosa Luz

“E se a arte fosse travesti”, de Rosa Luz

Rosa Luz vem de Gama, cidade satélite da periferia de Brasília. Ela, que se apresenta com um rap potente, mostra uma maturidade pr’além de seus 22 anos. Seu trabalho gira em torno de sua identidade e da identificação com seu gênero. Performances e fotografias dão o caminho que cruzou até chegar no ponto da aceitação própria. “É complicado ser travesti e artista numa sociedade cisgênero que não entende a sua identidade. A minha pesquisa está conectada com essas questões. A gente não vê as travestis na padaria, dando aula, e nas artes visuais não seria diferente”, diz Rosa.

No telão, ela mostra seu trabalho em uma sequência de imagens que vão desde o reconhecimento de seu próprio corpo até o questionamento do lugar da mulher na sociedade. “Entrei na universidade quando tinha 17 anos e o autoretrato foi substancial nesse processo de me reconhecer enquanto pessoa trans, por que eu transicionei nesse processo da universidade, quando entrei em contato com esse termo pela primeira vez. A fotografia teve um papel muito importante para eu conseguir entender a minha identidade de gênero”, conta enquanto passa por uma série de poses em diversos lugares.

A artista fez uma série chamadas “Self portrait of anyone” (Autoretrato de ninguém). Abaixo ela escrevia: você conhece essa pessoa? “Eu postava vários retratos nesse não-lugar. Não me identificava com meu corpo, então fazia os autoretratos de alguém que não era eu, mas que me representava”. Para ela, muito do preconceito que pessoas trans passam hoje, vem desde a época da colonização. “Existem relatos que em algumas regiões da América do Sul e do Norte existiam mais de seis tipos de gêneros que as pessoas expressavam”, diz. Foi pela fotografia que ela se viu bonita pela primeira vez, que ela deixou as máscaras sociais cairem e que passou a respeitar sua identidade. Rosa passou a usar ainda a performance como forma de expressão, junto com um coletivo de Brasília, usando o trabalho artístico de dragqueen como reafirmação de seu gênero.

Quando foi contemplada com uma bolsa de estudos para fazer residência artística em Londres, em 2015, intensificou este processo, misturando o trabalho com a fotografia. O resultado foi a série “The Silent Path”, resultado na pesquisa na qual ela ficou 15 dias em silêncio, vestida de noiva. Seu corpo já ia além da fala. O vestido, símbolo do sonho da estabilidade, foi ressignificado e colocado no dia a dia. Hoje, com o canal Barraco da Rosa no YouTube, ela apresenta ainda sua palavra através do rap, faz performances e debate temas relacionados a identidade de gênero.

Ariel Nobre é mais do que tudo ativista. Sua arte e expressão são ativas e impõe o lugar não dado à pessoa trans. Esta experiência se traduz no sentido de tomar realmente o lugar da fala. “Foi uma experiencia de me colocar no lugar de sujeito, que conjuga os verbos. Por que desde então, eu vi que de uma forma geral colocam o trans no espaço de objeto, de ser falado. Minha luta é não só ser documentado, mas documentarista. Não só ser entrevistado, mas ser jornalista, não só ser estudado, mas ter acesso a educação. Esse processo de produção fica muito sobre nós, mas nem sempre nos deixam falar”, explica.

Dentro deste debate, ele apresenta dois trabalhos significativos dessa transição. Na série fotográfica Via Crusis, feita em 2015, em Brasília, Ariel é fotografado por Tarcísio Paniago para contar de uma forma bastante urbana sua trajetória enquanto pessoa trans. O julgamento, as quedas, as condenações, os próprios questionamentos, a morte e a ressureição aparecem ali e o libertam da condição do medo e da dúvida. Tinha 27 anos quando viveu toda a mudança.

"Via Crusis", de Ariel Nobre e Tarcísio Paniago

“Via Crusis”, de Ariel Nobre e Tarcísio Paniago

Chega então o que define como “o trabalho de sua vida”: preciso dizer que te amo. A frase escrita a exaustão em lugares, tecidos, papeis e pessoas parte da superação do suicídio. “A questão do suicídio na minha vida não tem a ver com a expectativa, de criar essa confusão, de como se descobrir. É uma coisa muito mais prática: agora eu sou uma pessoa trans, branca, tenho uma penca de privilégios. Em nenhum momento passou por ‘não tenho perspectiva de vida, de trabalho’. Eu sou Ariel”. O poder de escolha era a questão, então, antes de mais nada, ele parou para escrever. “Comecei a escrever e desde então estou escrevendo ‘preciso dizer que te amo’. Eu precisava escrever. Ficou muito maior do que eu”. Para ele, o suicídio tem uma face política.

São poucos os dados, já que não existe um censo sobre isso no Brasil, mas ainda esses poucos estudos mostram que a maior parte das pessoas que põe fim à própria vida são trans. Uma pesquisa da Faculdade de psicologia Maurício de Nassau mostra que cerca de 66% dos homens trans brasileiros já pensaram em suicídio. Assim, para quem ainda acha que é apenas um assunto em alta, esperemos que seja só o começo. E que a arte seja sim, também e cada vez mais, trans. Olhar o outro e deixar o outro ter seu lugar de olhar é arte e, mais, é evolução.

Fotos: Ariel Nobre e Tarcísio Paniago| Rosa Luz


Gabriela Rassy

Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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