Roteiro Hypeness

Exposição Jamaica, Jamaica! mostra cultura do país além de Bob Marley e do reggae

por: Gabriela Rassy

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Bob Marley, reggae e sistemas de som. Praias lindas, cachoeiras e maconha liberada. Cada um com sua referência, mas a Jamaica vai muito além do imaginário comum – aliás, pasme, nem a maconha é legalizada. Fazendo um passeio cronológico pela história política, social e cultural da ilha, a mostra Jamaica, Jamaica! chega ao Sesc 24 de Maio diretamente de Paris, onde teve sua primeira aparição. Concebida pelo Cité de La Musique – Philharmonie de Paris, com curadoria de Sébastien Carayol, a exposição chega a São Paulo mais completa, percorrendo também a trajetória da cultura jamaicana pelo Brasil.

Ainda que estendida como uma nação que tem sua própria cultura de raiz – e é também -, vale preciso lembrar que a Jamaica é uma grande mistura. “O jamaicano é africano, inglês e norte-americano na sua formação cultural, mas o paralelo interessante é que, por ser esse mix, ele também fundou uma cultura de remix e de mixagem em estúdio. O Brasil, a América Latina têm também a cultura mesclada, crioula, mas a Jamaica criou a primeira cultura popular eletrificada, usando a tecnologia contemporânea da época como grande trunfo de distribuição e propagação dessas ideias”, explica Miguel Salvatore, produtor cultural convidado pela curadoria para organizar um ciclo de atividades complementares à mostra e fundador, junto com Yellow P, do Dubversão Sistema de Som.

1962. Gregory Isaacs em frente à loja African Museum, em Kingston, Jamaica

1962. Gregory Isaacs em frente à loja African Museum, em Kingston, Jamaica

O reggae chegou com força no mundo todo não foi à toa, até por ser uma música que faz esta conexão sociopolítica de época. “Tem caráter religioso forte na história toda, além do caráter tecnológico da indústria fonográfica. Eles estavam usando a tecnologia de ponta da época, que tinha só um paralelo nas rádios européias, se pensamos no experimentalismo. A prensa de disco, distribuição, as artes gráficas. É um mix interessante para pensar a cultura moderna contemporânea. É uma cultura de raiz, mas eletrificada. E isso não tem muito paralelo na América Latina, só quando mais para frente chegaram as guitarras amplificadas, na Tropicália”, conta Salvatore.

As prensas de disco jamaicanas

As prensas de disco jamaicanas

A mostra começa pela história que, como a nossa, se viu colonizada por europeus. Aquela tal descoberta das Américas por Cristóvão Colombo chegou à Jamaica que teve, também como nós, seus índios praticamente dizimados. Povos escravizados da África foram levados para lá até que, em 1655, os ingleses tomaram a ilha, fazendo com que alguns grupos reagissem e fossem para as montanhas viver em comunidades independentes. Após anos de guerrilha contra os colonizadores, os rebeldes Maroons ganharam uma duvidosa liberdade, em meados de 1800, ao custo das campanhas evangelizadoras. Nascem assim os cultos afro-protestantes com afirmação da identidade negra, apesar da proibição de usarem suas músicas e tradições.

Os documentos, músicas e fotos da exposição passam também pelo final dos anos 50, quando o país caribenho ainda era colônia e não raramente as pessoas se reuniam para ouvir rádio juntas já que tinham poucos aparelhos por ali. A capital Kingston foi vendo essa cena se multiplicar, dando origem às discotecas e aos sound systems portáteis que começavam a pipocar. A independência veio só em 1962, mas aqueceu a cena de rua. O país que antes ouvia ritmos locais, como o calypso e o mento, alem do soul e R&B norte-americano, acompanha o surgimento do primeiro grande estouro musical jamaicano, o ska, representado pela banda Skatalites. Na mostra, instrumentos da banda e fotos da época compõe um dos ambientes, regado ainda aos sons da época.

Fones de ouvido são mais do que necessários para visitar Jamaica, Jamaica! Além das referências de todos esses estilos em capas de discos, fotos, revistas e flyers de festas, a mostra é recheada de degustações sonoras de diversas épocas. Até uma espécie de vitrola digital permite ouvir alguns dos sucessos de Bob Marley, que claro, está bem representado em um dos oito ambientes da mostra.

A exposição vem funcionando até como sala de estudo dos amantes das vertentes do reggae. Em uma das salas, as caixas do Leggo Violence Sistema de Som dão a oportunidade para quem quiser ter seu momento de selecta – os DJ da cena reggae – e aprender sobre os aparelhos. Lá, os visitantes podem operar o sistema de som, mexendo na equalização das caixas. Em um dos corredores, o sistema de som original King Tubbys, o pioneiro do Dub, que começou a criar músicas exclusivas tocadas também por outros sistemas de som.

Público pode aprender a controlar o sistema de som

Público pode aprender a controlar o sistema de som

Boa parte do acervo é dedicado à presença da cultura jamaicana no Brasil, começando pelo Maranhão. O estado foi o primeiro a adotar os sistemas de som, por ali chamados de radiolas, em suas festas e até hoje tem no reggae uma grande referência musical. No começo do ano, a capital São Luís viu o Museu do Reggae ser inagurado, contando a trajetória do estilo no Brasil. Na exposição vemos a chegada do reggae na Bahia, na década de 70, se misturando aos batuques e ao samba, até sair a versão do clássico de Bob Marley No Woman No Cry lançada por Gilberto Gil no álbum Realce, em 1979.

1992. Comemoração de 40 anos de Carne Seca, um dos primeiros seletores de reggae das radiolas maranhenses

1992. Comemoração de 40 anos de Carne Seca, um dos primeiros seletores de reggae das radiolas maranhenses

A cultura sound system permanece forte até hoje na Bahia, bem representada e ganhando novos ares com o sucesso de bandas como o Baiana System. Em São Paulo, o ponta pé inicial foi dado pelo Dubversão Sistema de Som, há 16 anos ativo na cena. Os bailes da cidade ainda ganham destaque na mostra, como o Terremoto e o coletivo Feminine Hi-Fi, este formado só por mulheres.

A cantora Laylah, uma das representantes e MC do Feminine Hi-Fi

A cantora Laylah, uma das representantes e MC do Feminine Hi-Fi

A partir do final de maio, o Sesc deve soltar uma programação que tem a ver com a exposição que vai desde bate-papo com personagens internacionais, jamaicanos que representam a cultura, conversa sobre a história da cultura jamaicana no Brasil e fora, apresentação de cases de sistemas de som de São Paulo, além de apresentações musicais, oficina de confecção de sistema de som e elétrica, construção de sirene. Jamaica, Jamaica! fica em cartaz até o dia 26 de agosto de 2018, com visitação de terça a sábado, das 9h às 21h, e aos domingo, das 9h às 18h. A entrada é gratuita.

Foto de destaque, Gregory Isaacs e prensas de disco: Beth Lesser
Foto Trovão Azul: Neguinho Jamaica/Coleção José Ribamar Gomes da Silva
Foto Laylah: Miguel Salvatore
Foto exposição: Gabriela Rassy


Gabriela Rassy

Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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