Matéria Especial Hypeness

Sem Winnie Mandela, o mundo e as mulheres negras perdem mais uma rainha da luta antirracista

por: Kauê Vieira

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O século 20 foi um período marcado por uma série de conflitos raciais. Em um mundo que ainda se recuperava de mais de 400 anos de escravização, homens e mulheres negras lutavam pela garantia de seus direitos civis.

No Estados Unidos, Angela Davis, Malcolm X, Martin Luther King e Rosa Parks formavam a comissão de frente exigindo a participação efetiva de negros norte-americanos nas decisões acerca dos rumos do país. Entre as décadas de 1920 e 1960, os afrodescendentes ainda eram vistos como inferiores ao brancos. A perseguição vinha de todos os lados, tanto da sociedade civil, quanto do governo federal, que escorado em leis racistas restringiam o acesso de negros aos direitos básicos.

O período nefasto se escorava na Lei Jim Crow, leis locais e estaduais promulgadas nos estados do sul do Estados Unidos, que institucionalizaram a segregação racial. Entre as medidas mais agressivas estavam as que exigiam que escolas e locais públicos, como trens e ônibus tivessem instalações separadas para negros e brancos.

A Lei Jim Crow legitimou a segregação racial nos EUA por décadas

Mesmo considerada ilegal pela Suprema Corte em 1954, a Lei Jim Crow seguiu vigente em muitos lugares, tendo sido revogada de forma definitiva apenas em 1965, a partir do que ficou conhecido como Civil Rights Act (Ato Pelos Direitos Civis).

Na África do Sul o cenário era o mesmo. Vítima de sucessivas invasões de europeus, o país se tornou palco de uma disputa entre colonizadores britânicos e holandeses, que buscavam a soberania para desfrutar das descobertas de diamantes e ouro nos anos de 1867 e 1886, respectivamente.

Institucionalizado no país sul-africano em 1948, o apartheid tornou a oficial a segregação entre negros e brancos até 1994. Com primeiros registros em 1917, em discurso de Jan Smuts, oficializado primeiro-ministro em 1919, o apartheid minou o desenvolvimento da comunidade negra, proibindo o trânsito em casas de banho ou lojas de roupas e o casamento entre raças, representado pela Lei dos Casamentos Mistos, de 1991.

Vigente por quase um século, a segregação racial na África do Sul foi combatida com força por lideranças negras, que assim como nos Estados Unidos e no Brasil, onde a luta foi encabeçada por figuras como Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento, exigiam a garantia da liberdade.

Ao pensar no combate ao Apartheid dois nomes saltam aos olhos, Nelson Mandela e Desmond Tutu. A lista é completa com a presença de Winnie Mandela, que morreu nesta segunda-feira (2), aos 81 anos.

Para analisar a biografia desta militante sul-africana antes de tudo é preciso se despir do machismo, que por décadas restringiu sua visibilidade ao fato de ter sido casada com Neslon Mandela entre 1958 e 1990.

Enfermeira de formação, Winnie Madikizela Mandela nasceu em Bizana, em 1936. Em 1953, se mudou para Joanesburgo onde foi aceita na Jan Hofmeyr School of Social Work, onde se formou dois anos depois, mesma data em que recusa uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Winnie optou por trabalhar em um hospital para negros na capital da África do Sul.

Winnie Mandela foi um ícone da luta pelos direitos dos negros na África do Sul

Nesta época que se envolveu com política e o Congresso Nacional Africano. O interesse se concretizou com uma pesquisa sobre a mortalidade infantil no subúrbio de Alexandra.

Com mais de 40 anos de militância, Winnie era uma mulher determinada em alcançar a igualdade social. Conhecida por encarar de frente as inúmeras batidas policiais, a ativista se tornou a primeira mulher negra a trabalhar com serviço social na África do Sul.

Talvez um dos períodos mais desafiadores da vida de Winnie, a condenação de Nelson Mandela à prisão perpétua em 1964 por conspiração obrigou a jovem sul-africana a viver na clandestinidade por 27 anos.

Foi Winnie que manteve acesa a chama dos que batiam de frente contra o regime racista branco que tomava conta do país. No período em que conciliava a criação das filhas com a luta antirracista, Winnie Mandela foi alvo de uma série de intimidações, mantida isolada no distrito de Orlando, em Soweto, teve sua casa alvo de dois ataques a bomba.

“Nunca tivemos uma vida familiar (…) não podíamos tirar Nelson de seu povo. A luta contra o apartheid, pela Nação, vinha primeiro”, escreveu em suas memórias.

Aliás, 491 dias: prisioneira número 1323/69 é um importante registro do período em que Winnie Mandela esteve presa em Pretória durante os anos de 1969 e 1970. O encarceramento se deu em função de seu ativismo anti-Apartheid.

Apesar das incessantes tentativas de silenciamento, Winnie Mandela seguiu na luta, se colocando com uma figura de liderança importante, sobretudo para as mulheres negras. Em 1976, durante as revoltas juvenis, foi responsável pela criação da Federação das Mulheres Negras e da Associação dos Pais Negros, filiadas ao Movimento da Consciência Negra, caracterizada por rejeitar valores brancos, adotando uma visão positiva da cultura negra.  A mobilização causou sua detenção em 1977.

Winnie foi figura importante no governo de Nelson Mandela

Ao mesmo tempo em que Nelson Mandela conquistava sua liberdade, a união entre Madiba e Mama, como ficaram conhecidos chegou ao fim. Entretanto, a presença de Winnie na vida do presidente eleito da África do Sul foi importante, destaque para o cargo de Ministra das Artes, Cultura, Ciência e Tecnologia em 1994.

Admirada por todos os sul-africanos, a trajetória de Winnie Mandela se transformou justamente na década de 1990, tempo que enfrentou polêmicas resultando no banimento do CNA (Congresso Nacional Africano). Porém, Winnie deu a volta por cima e foi eleita presidenta da Liga das Mulheres do próprio CNA, onde ficou até 2003. Por fim, em 2009 foi eleita para o Comitê Executivo Nacional do CNA em sua 52ª Conferência.

Uma das últimas aparições destacadas da Mama Winnie Mandela foi em cerimônia em homenagem ao ex-marido, Nelson Mandela. O ato, que contou com a presença de 100 líderes mundiais, entre eles o ex-presidente dos EUA Barack Obama, aconteceu no estádio Soccer City, em Joanesburgo, em 2013.  


“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”

Frase célebre de Angela Davis, que descreve com certeira precisão a relevância das mulheres negras para o desenvolvimento da humanidade. Com Winnie não foi diferente. Vítima de uma sociedade racista e machista, a líder sul-africana não esmoreceu e passou por cima de todos os obstáculos, se destacando como uma das figuras mais célebres da humanidade.

Contudo, é preciso pontuar que o rótulo de lutadora, comumente direcionado para mulheres negras, por muitas vezes pode ser prejudicial. Aqui pra nós, qual ser humano tem força para lutar o tempo todo?

“Eu posso dizer que as jovens de hoje em dia, ainda vivem muitas coisas ruins, muitos desafios, vivem de um jeito diferente também. Inclusive, essa possibilidade. A possibilidade de encontrar uma brecha. A brecha de encontrar um caminho melhor do que o jeito como a minha bisavó viveu. Assim como eu fiz. Mas ainda assim continua muito difícil. Cada qual tem o seu fardo para carregar,” diz a diretora da Anistia Internacional Jurema Werneck ao Huffpost Brasil.

Que o legado e a memória de Winnie Mandela sirvam para inspirar e auxiliar a trajetória de mulheres e homens negros mundo afora. Por fim, ficamos com a manifestação da socióloga Vilma Reis, ouvidora-geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia.

Ela se despede numa Segunda-feira e vai bem pelo papel que cumpriu com grandeza na História mundial, nosso agradecimento a Winnie Mandela!!!”

Fotos: Reprodução


Kauê Vieira

Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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