Viagem

Fragmentos dos 1460 dias ao seu lado

por: Jaque_Barbosa

Gosto de fechar os olhos e rever nossa história antes de dormir. Faço isso quase toda noite, em vez de contar carneirinhos. Gosto de construir toda a linha do tempo, desde antes de você.

Engraçado pensar que eu vivi tantos anos sem te conhecer e fico tentando inutilmente imaginar se já não teríamos nos cruzado por alguma esquina dessa cidade caótica – quem sabe algum dia a gente se cruzou mesmo, no meio de tantos outros, enquanto eu descia e você subia a Consolação. Ou em alguma festa de um amigo em comum. Ou mesmo naquela estreia do filme do Almodóvar. Mas acabo sempre achando que não. Não deixaria um homem como você passar por mim e escapar ileso. Ou deixaria, pois com uma cruzada de olhares ficaria difícil adivinhar que você teria tudo aquilo pelo qual eu me apaixonaria.

E me apaixonei. Não uma ou duas vezes. Tenho vivido um estranho processo de me re-apaixonar. Acontece sempre que fico te olhando trabalhar concentrado em alguma ideia. Ou quando ri de mim e me chama de narizinho. Ou quando chega na cama quando já estou dormindo e, pacientemente, luta contra meu mau-humor, me trazendo pra perto de você, apesar dos meus gemidos ranzinzas.

E nesse processo de construção da nossa história lembro de coisas engraçadas, como aquele dia em Buenos Aires que, com menos de um mês de namoro, você já não aguentava mais eu te acordar antes das 9 da manhã e soltou um: “Você vai ter que arrumar um namorado que curta acordar cedo“. E saiu pra tomar banho. E eu fiquei na cama, tentando digerir aquelas palavras e, principalmente, tentando entender como alguém que existia na minha vida há menos de 1 mês, podia importar tanto. E você voltou, enxugou o princípio de lágrima que eu me esforçava pra não deixar cair, me deu um beijo no nariz e pediu desculpas. E desse dia em diante, eu prometi que encontraria uma forma te acordar de um jeito mais gostoso – adotei beijos matinais como despertador. Você nunca mais reclamou.

E teve aquela vez em que fomos viajar pra montanha e chegamos em uma serrinha deserta onde não dava pra enxergar meio metro a frente por causa da neblina. A gente só sabia que em um dos lados tinha um precipício. E eu enfiei o rosto pra fora do carro, quase congelando e fiquei te falando pra qual lado eram as curvas. Achei que íamos morrer aquele dia, mas terminamos dormindo grudados, com lareira acesa e felizes por estarmos seguros no quentinho.

E aquela vez em que voltávamos de uma viagem e uma brasa do cigarro voou pro banco de trás. A hora em que a gente foi perceber, o fogo já queimava umas roupas que estavam jogadas no banco. Encostamos o carro e você tentando apagar o fogo, queimou a mão. Eu fui dirigindo pra casa, estranhamente desejando que eu tivesse me machucado em vez de você.

E teve também as longas conversas que me fizeram escolher outro caminho na vida, depois de enxergar que estava desperdiçando meu tempo e minha energia com algo que já não mais me fazia vibrar. E forma como você, sempre paciente, me ajudava nas crises existenciais, me fazendo perceber que a vida é curta e linda, e que temos que ter pressa porque ela passa rápido demais.

E teve aquela vez em que no meio de uma super festa em um sítio, eu queimei a largada e dei PT total. E você ficou do meu lado, limpou meu vômito, me deu banho e ainda depois dormiu de conchinha comigo, pra ter certeza que eu ficaria boa. Você poderia ter voltado pra festa enquanto eu dormia meu sono profundo de bêbada, mas não arredou o pé até que tivesse certeza que eu estava bem de novo.

A nossa linha do tempo está recheada de muitas outras histórias como essas – volta e meia surge uma nova na memória e eu a revivo, detalhe por detalhe, pra ter certeza que não vou desperdiçar esses mini-presentes da vida. Hoje, analisando esses 1460 dias juntos, tento entender a razão de tanta compatibilidade e de tanta leveza e só consigo imaginar que  nos completamos tanto porque somos dois inteiros e não duas metades em busca de uma tampa pra panela. E que é sempre tão bom estar com você porque temos plena consciência de que nada é eterno e que se quisermos que dure, precisamos cuidar todos os dias. E porque você consegue despertar o que há de melhor em mim e eu consigo despertar o que há de melhor em você, sem a pretensão de sermos donos um do outro – queremos, em vez disso, sermos eternos parceiros, enquanto a eternidade subjetiva da vida permitir. Dessa forma, nos orgulhamos de viver sem tabus, a beleza de um amor que não é dor.

por Jaque Barbosa

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Achou estranho esse texto aqui no Hypeness? CALMA, você não está no site errado. Como amanhã, 31 de agosto, é o Dia do Blog, fomos convidados para escrever um post sobre uma de nossas maiores paixões, mesmo que ela não estivesse envolvida com o temas que abordamos normalmente no blog. Aproveitei a brecha para fazer uma declaração para meu sócio e namorado Eme Viegas, que é uma das paixões dos meus dias.

Se você tem um blog, aproveite também a data para escrever sobre alguma paixão que te move. Estamos curiosos para conhecer as paixões pessoais de diferentes blogueiros.

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