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Uma carta para mim mesma 10 anos atrás – por Cris Guerra

por: Jaque_Barbosa

O Hypeness continua inspirando pessoas e gerando importantes reflexões pra vida com seu mais recente quadro, Uma carta para mim mesmo 10 anos atrás. Convidados de todas as áreas escrevem uma carta para suas versões com menos 10 anos e refletem sobre as escolhas que fizeram, o resultado dessas escolhas e o que foram aprendendo no caminho.

Convidada de hoje: Cris Guerra

Profissão: publicitária por formação, escritora e colunista de moda por obra do destino.

Cris por Cris: Não sei se escrevi o Para Francisco ou se uma curva no caminho é que escreveu a grande virada da minha vida, tornando-me capaz do que eu nunca imaginava: um filho, dois livros, o primeiro blog de looks diários do Brasil, uma cronista, uma colunista de moda, uma palestrante e até uma modelo quarentona, com carão e tudo. Você encontra mais sobre mim no crisguerra.com.br

Olá, Cris,

Sou eu, você. Ou melhor: sou você, eu. Quem diria que depois de tantos anos escrevendo para si mesma nos seus diários, você finalmente receberia uma resposta. Sim, de si mesma, só que dez anos à frente, para lhe dar alguns conselhos. Se eu fosse você – aliás, eu sou – leria com atenção.

Nesse momento, você está se preparando para uma viagem em que pretende realizar três sonhos: conhecer Paris, engravidar e salvar seu casamento. Não é preciso ser vidente para saber que Paris não é Aparecida do Norte e, portanto, não faz milagres. Duas de suas três tentativas falharão, mas você voltará da Europa apaixonada – por Paris, não pelo seu marido. E voltará gestando a certeza de que quer se separar. Adianto que essa será uma boa decisão.

E se você acha que esse movimento será emocionante, ainda não viu nada. O melhor está por vir – e o pior também, mas acredite: muitas vezes o melhor e o pior vêm juntos. Para vir ao mundo você pediu com muita emoção, então agora não adianta reclamar. Pronto, paramos por aqui. Não vou contar mais nada do que vai acontecer nos próximos dez anos. Até porque se eu contar, pode ser que não aconteça. Só andei um pouco adiante para ver melhor as coisas e, se me permite, deixar-lhe esses conselhos:

1. Tenho uma péssima notícia: a vida não pode ser controlada. A boa notícia é que quando você entende isso, relaxa e vive muito melhor.

2. Aprenda a dosar suas expectativas, pois elas tornam tudo mais sofrido. A ausência de expectativas é um mundo de possibilidades.

3. Assista a uma palestra de Clovis de Barros Filho. Ele vai dar um segundo passo depois do André Comte-Sponville para que você se interesse por filosofia. Acredite, ele é tão genial, que você nem vai perceber que a palestra dura mais de uma hora.

4. Saiba: senso de humor é um grande salva-vidas. Alguns fatos podem passar de tragédia a comédia graças a um bocado de distanciamento.

5. Cultive as gargalhadas. Elas podem ser tão boas quanto sexo – com a vantagem de você poder praticá-las com qualquer um. Em vez de ficar perseguindo a felicidade, curta as alegrias simples de cada dia. Pinte paredes. Faça trabalhos manuais, saia pra observar as vacas. Pare de pensar e deixe-se sentir. Incrível como isso vai fazer seu pensamento voar mais longe.

6. Cuidado com a internet. Ela parece ótima, mas pode ser um perigo para distrair você dos seus objetivos e fazer de uma pessoa organizada um caos em forma de gente. Aprenda desde já a usar o método Pomodoro. Ele foi inventado quando você tinha 10 anos e nunca foi tão necessário quanto agora.

7. Mude sua relação com o dinheiro. Você não vai morrer amanhã – você, não (desculpe-me, mas o seu senso de humor vai ficar cada vez mais afiado com o tempo). Saber usufruir do dinheiro é bom, mas guardar outro tanto também é uma forma de liberdade.

8. Não abandone hábitos que você cultiva com carinho em favor de amor algum. O cinema que você frequenta sozinha toda semana. A música que te acompanha nos afazeres de casa. Deixar de fazer o que você gosta é atribuir ao outro a responsabilidade pela sua felicidade – e a receita para uma vida triste a dois.

9. Aliás, chega de se entregar a ponto de sentir falta de si mesma. Aprecie sua própria companhia e descubra o quanto ela pode ser divertida. O resto é consequência.

10. Não alimente a ideia machista de um príncipe provedor. Você não tem perfil para depender de ninguém além de si mesma. E se eu contar que você vai querer trabalhar até o seu último minuto de vida, simplesmente porque vai passar a sentir muito mais prazer com o trabalho? Só não vou dizer que trabalho será esse, pois eu mesma ainda não sei nomeá-lo.

11. Pare de tomar refrigerante. Você vai ver que não faz a menor falta. Dê uma chance ao repolho roxo – ele é como algumas peças de roupas, só precisa de melhores companhias pra mostrar o devido valor. E mexa esse corpinho, querida. Magras também têm que queimar gordurinhas, ou acabam parecendo um b minúsculo. Tudo bem, abra uma exceção quando conhecer o picolé de limão siciliano da Diletto. Está entre as melhores coisas da vida, lado a lado com Paris, Veneza e a sensação de arrancar o sutiã de meia-taça logo que você chega em casa depois de um dia de trabalho.

12. Sabe aquela frase que diz que “mineiro só é solidário no câncer”? Você está a caminho de compreendê-la. Não é exatamente nos momentos tristes que se revela um grande amigo. Amigos de verdade são os que mal podem esperar pelo seu momento de glória.

13. Você bem que tenta, mas ser tradicional não é para você. A surpresa boa é que é perfeitamente possível se satisfazer num formato de vida menos convencional. Pra falar a verdade, tem muito mais gente querendo ser como você, mas sem coragem de viver de acordo com os próprios desejos.

14. Busque o conhecimento, mas não o deixe trazer a soberba. Somos sempre muito mais ignorantes de coisas do que sabedores de outras. Aprender algo novo todo dia não deixa os olhos perderem o viço – é um jeito de ficar sempre jovem.

15. Acalme essa sua mania de arrumação e dê um jeito de ser feliz em plena bagunça. É gostoso.

16. Não se deixe levar pela lente que embaça o passado a ponto de fazer com que ele pareça perfeito. Não é. Prefira sempre o tempo presente – é o que temos para hoje!

17. Ah, e sabe essa história de que você ama ser redatora publicitária e não se acha com talento para escrever? Balela. Talvez esse tempo todo escrevendo tenha ensinado você a chegar perto das pessoas. Aproveite.

18. Pare de julgar as pessoas só porque elas cometem pecados diferentes dos seus (sim, eu roubei essa citação – de autor desconhecido – da internet, mas é por uma boa causa).

19. Por outro lado, também não precisa achar que todas as pessoas são legais. Nem todo mundo merece sua transparência. Cultive o silêncio.

20. Aliás, tem coisa melhor que o silêncio da madrugada? Aproveite para escrever. E quando ligar o som, fique de olho num cara chamado Devendra Banhart.

21. Importantíssimo: continue fazendo as coisas sem se preocupar com o que os outros vão pensar. Sua grande arma é a espontaneidade: tome posse dela. Muita gente gostaria de ser livre assim.

22. Por favor, não se esqueça de respirar. A vida também tem que ter vírgulas.

E sobre o seu futuro, pode ficar tranquila. Como na sua história é tudo sempre diferente, um menino vai parir uma nova mulher e, juntos, vocês vão fazer nascer o pai-companheiro mais legal do mundo. Não entendeu? Ok, simplesmente desfrute.

Te espero lá adiante, muitíssimo bem acompanhada.

Três beijos,

Cris.

faixa-carta

 Crédito das imagens: Gustavo Perillo (foto 2004) e Edson Brow (foto 2014).

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Jaque_Barbosa
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