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Pai cria diário para registrar momentos emocionantes em família que seus filhos poderão ver no futuro

por: Vicente Carvalho

Sempre que uma criança vem ao mundo, junto dela nasce uma mãe e um pai, que tem anseios, dúvidas e muito amor pra dar. A experiência é realmente transformadora (não sou pai, mas pretendo ser) e cada um lida com isso de forma diferente. O escritor e pai Pedro Fonseca resolveu relatar sua experiência e aprendizado paterno em um diário, e deixar os textos e imagens disponíveis para seus filhos lerem quando maiores, tudo isso num blog chamado Do Seu Pai.

Na descrição do blog, Pedro diz: “Pensei em escrever um livro de histórias infantis. O livro é o blog. As histórias são reais. E os infantis são seus filhos. Um blog de pai para filhos. Com todo o amor que ele tem, por dentro e por fora“.

Ele começou a escrever em Janeiro de 2013 e desde então vem retratando de forma sensível as pequenas descobertas de seus, até então, dois filhos: João e Irene, e que há pouco tempo ganharam mais um membro na família: Teresa. Pedro ainda reafirma em quase todos os textos o seu grande amor por Lua, sua esposa, e devo confessar que algumas lágrimas rolaram enquanto lia seus textos, que são uma mistura de poesia e trivialidade, que resultam numa leitura imersiva e apaixonante no cotidiano dessa iluminada família. Separei algumas imagens e (tentei) resumir alguns textos que mais me emocionaram.

Tire uns minutos e contemple, pois os relatos são apreciáveis por qualquer pessoa que tenha ou almeja ter filhos, ou simplesmente sabe contemplar um pai amoroso:

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Irene,

ainda vou repetir isso muitas vezes. Sim, seu pai repete as coisas. Repete coisas. Repete tudo. Repete. Vê? Usa a desculpa de ser estilo literário. Um dia você vai rir disso. Enfim, voltando ao assunto que ainda vou repetir muitas vezes. É bom dizer logo, a primeiríssima vez, e registrar aqui nesse nosso bate-papo unilateral (por enquanto, eu sei, porque você vai falar logo, logo).

(…) O fato é que a maneira de acordar diz muito sobre o caráter da pessoa.

Amanhã você completa 6 meses e eu posso te garantir. Em cada um dos seus dias de vida, você acordou sempre assim, sorrindo. Todos os dias. Todos. Eu disse todos. Eu sei, estou repetindo – mas não por estilo ou insistência. Mas por se tratar de um recado importante. Acordar sorrindo, sim, filha, comprova o bom caratismo, o bom pracismo e, principalmente, o estado de espírito real da gente. Amanhã você irá acordar assim, do mesmo jeitinho. E eu vou te encher de beijos, como sempre faço. Repetidamente.

Do seu pai,
Pedro.

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João,

ontem você fez a coisa mais importante da semana –acho– bem ali, embaixo de um carro. A gente jogava bola – (…) você, Tomé, Dodó e eu, ali, jogando, brincando, uma alegria.

Eis que a bola correu sem controle depois de um pontapé meio canelado da nossa lateral direita mais linda da zona oeste, Dodó. E a bola saiu em disparada até esconder-se, presa entre o chão de concreto e o fundo de metal do carro de Pio, distante de nós. Fiquei olhando sem me dar conta do que estava prestes a presenciar. Você agachou, olhou onde estava a bola e veio o lance mágico do dia, filho.

Você deitou no chão, esticou a perna, criando uma alavanca, tirou a bola com classe e voltamos a jogar. A vida resume-se a isso, filho. Quando algo prende a bola, a gente precisa correr atrás, usar as alavancas, devolvê-la para o jogo rapidamente e continuar como se nada tivesse acontecido. Será assim nos seus relacionamentos, nos seus trabalhos, com os seus amigos, com a gente, sua família. Bola sempre para a frente.

– Toca, toca, estou livre aqui na esquerda.

​Do seu pai,
Pedro

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Irene,

desculpa, mas o assunto é chato.
Trabalho.

Trabalho, filha, é algo que os adultos fazem para conseguir bens materiais e, por vezes – e numa proporção infinitamente menor–, alcançar bens espirituais.

​Tem gente que trabalha pouco e sofre com isso. Tem gente que trabalha demais e sofre com isso. Tenho uma história boa sobre o assunto.

Trabalhava numa agência de publicidade daquelas bem grandes, cheias de gente andando com pressa, vozes altas ecoando pelos corredores, obras de arte fajutas nas paredes, sapatos caros andando sobre tapetes baratos, olhares desesperados de quem já não sabia que dia da semana era aquele. Uma tristeza sem fim.

Observando as outras pessoas do trabalho, dia após dia, cheguei à conclusão de que muitos deles haviam errado de sala: entraram na agência, pensando que era uma emergência. Ou um centro cirúrgico e que estavam salvando vidas, noite e dia.

Sua mãe e eu fizemos uma opção de vida: trabalhar o mais perto possível de vocês. Mais que geograficamente, emocionalmente. A gente acredita que dá muito mais trabalho consertar do que cuidar (isso você entenderá no futuro). Pelo fato da gente amar cuidar de vocês, fica tudo mais fácil. O máximo de tempo que conseguimos ficar por perto, melhor para nós todos. Vocês vão saber que podem contar com a gente. É uma proximidade que transpassa a física. É para tudo, a qualquer hora, é plena.

É para a vida inteira. E para as inteirezas de uma vida tão fracionada.

O nosso trabalho existe para conseguir poucos bens materiais e, na maior parte das vezes, garantir nosso bem-estar espiritual maior, que é tê-los por perto. 

Agora dá licença que o papai precisa sair do blog e trabalhar – mas antes eu vou aí no pé da sua mãe fazer uma foto e te dar um beijo.

Espero não atrapalhar o trabalho dela.

Do seu pai,
Pedro.

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João,

​você acordou no meio da noite, caminhou lentamente até a sala, cumprimentou as pessoas que estavam terminando o jantar, pediu um sanduíche e um leite (você chegou da escola destruído, dormindo, nem havia jantado), sentou no colo da sua madrinha, comeu, contou histórias, falou um pouco da sua vida, perguntou coisas, riu, fez a gente rir, despediu-se, colocou o pijama (sério, você chegou da escola destruído, dormindo, nem trocou de roupa), escovou os dentes, voltou à sala, despediu-se novamente, disse que amava a sua Dinda, foi para a cama, pediu para eu ler uma lenda brasileira, dormiu.

Pode ser que hoje, ao acordar, você tenha apenas uma leve lembrança de tudo isso. Um sonho nebuloso, quase etéreo. Mas foi mais um encontro com Bárbara, que mora longe da gente, mas não sai nunca do nosso coração e do nosso pensamento. A gente tem uma gratidão enorme a ela, por tantas e tantas coisas que você vai saber no futuro – e se orgulhar ainda mais de poder chamá-la de “minha Dinda”.

Ontem, filho, você acordou no meio da noite e eu despertei para a importância de fazer escolhas certas para você. Sua madrinha te ama como se amasse a um filho. Nós a amamos como se amássemos a uma irmã. E você, bem, você acordou no meio da noite só para relembrar a gente o que é o amor. Esse sonho nebuloso, etéreo.

Do seu pai,
Pedro.

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Irene e João,

nada que o papai escrever será tão importante quanto essa imagem.

Do seu pai,
Pedro

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Irene,

é preciso escovar os dentes, sempre, depois de comer doces. Dentro do universo da repetições (aliás, bom que saiba, filha:

o Universo é apenas uma enorme repetição –ao descobrir isso, você irá sorrir mais do que chorar), essa será uma ladainha comum de se ouvir da boca do papai aqui. É que o ato de escovar os dentes traz mais do que o esmalte dentário pode esconder. Coloquemos a lupa sobre o gesto, o ato. Escovar os dentes é um cuidado nobre com nós mesmos. Isso certamente irá desencadear, em você, outros pequenos enormes cuidados, manutenções, prevenções, observações fundamentais para que a sua saúde dependa minimamente de tratamentos ao longo dos anos. Você irá perceber, posso garantir, ao longo destes mesmos anos de vida saudável que irá viver (e conviver com a minha constante ladainha sobre escovar os dentes), que as pessoas que escovam os dentes têm uma lista de amor-próprio simples, mas eficaz. Atravessam a rua na faixa de pedestre. Leem bastante (com iluminação adequada). Comem peixe. Abraçam. Tomam banhos frios sempre que dá. Também tomam sol. Cantam. Dançam, dançam muito. Dormem bem –o suficiente para descansar o corpo; (…). 

Do seu pai,
Pedro.

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Teresa,

você nasceu hoje.

Seja bem-vinda.

Ainda não tenho palavras, me desculpe se esse primeiro texto for pouco (ele será).
Mas ocasiões e textos não irão faltar, acredite.

Estou extasiado, maravilhado, emocionado com o que você e sua mãe fizeram hoje.

Um parto natural.
Natural, filha.

Sua natureza foi vir ao mundo assim: no dia que você mesma escolheu. Depois de horas intensas – diante do exercício de perder o controle, de não mandar em nada – sua mãe parecia ter renovado todas as suas energias, num diálogo inalcançável, para mim, com o Universo. Sua mãe, minutos depois de parir, estava linda, radiante, forte (ainda forte, como pode, depois das contrações?), inteira.
O dia hoje foi inteiro, filha.

E todos nós – sua mãe, seu irmão, sua irmã e eu – estamos aqui, inteiramente apaixonados por você.
Mais uma vez, para sempre, seja bem-vinda.

Do seu pai,
Pedro.

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Irene,

o excelentíssimo senhor governador mandou avisar: vamos racionar. Seria uma ideia excelente, se não viesse de um sujeito de copo meio vazio (desconfio daqueles). E sorrimos, dizendo: vai chover no seu copo, senhor; aliás, vamos chover no molhado do seu copo meio vazio, senhor. Governa a dor que mora no seu coração pessimista, homem, que aqui fora o clima é outro –vai chover, de novo, deu na tevê [cantando]. A gente reza, dança, canta, uma hora ela vem para diminuir o calor da sua alma em brasa, de tanto desamor. Tenha calma, senhor, excelentíssimo, governador, esfrie a cabeça. Já não se faz racionamento de amor aqui em casa há muito tempo. Isso aí é coisa dos seus tempos. Maus tempos, aqueles.

Desde a chegada do seu irmão que banho se toma junto aqui em casa – sempre que possível. Você descobriu logo cedo que se está no chuveiro é para se molhar. E veio sua irmã miúda para engrossar o cordão, diminuir os espaços, nos deixar ainda mais próximos, apertados, unidos, para disputar a temperatura ideal. Das maiores discórdias que conheço, a temperatura da água, no banho, deve ser a que mais atinge nossa família. Dosar a água quente, acrescentar água fria, lentamente, atingir (pela primeira vez) a temperatura que parece ser aquela, testar com cada um para ver se estamos de acordo. Ouvir reclamações, ouvir que está bom, atingir (pela segunda vez) o que poderia ser a temperatura adequada, esperada. Ouvir pela terceira vez que, agora sim, está do jeito que a maioria gosta (ainda não). Um ritual. E que nunca dá certo, no início. João prefere mais fria (com uma pitada de água quente). Sua mãe gosta da água bem quentinha. Você odeia água fria. Eu prefiro gelada. E Teresa, qual será a predileção? Ao decidir que tomar banho juntos – sempre que possível – é uma chance de (ainda) mais aproximação entre a gente, aproximação física e espiritual, nos demos a possibilidade de ter dois, três minutos de uma engraçada disputa pelo que cada um quer. Só que depois de três minutos de pedidos para esfriar, para esquentar, para abrir, para fechar, para pedir espaço para fugir do chuveiro, para pedir a vez de se molhar naquele exato instante, chegamos a um ponto consensual simples como a filosofia.

Nunca teremos a temperatura ideal para cada um. E, ainda assim, teremos um momento maravilhoso para todos.

Aqui em casa, filha, essa cena deverá se repetir com frequência. É possível. É perfeito. E assim podemos usar a água economizada para encher o copo meio vazio daqueles que não acreditam.

Acredite, filha. Amor não é para ser racionado.

Do seu pai,
Pedro.

Há ainda um pequeno vídeo do nascimento de Teresa:

Há ainda um grande número de imagens e textos lindos, para quem ficou curioso em saber mais, basta clicar aqui. Encerro esse post de alma e coração lavados, de amor puro, mas muito poderoso.

Créditos das fotos: Pedro Fonseca

Post por Razões para Acreditar.

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