Empreendedorismo

Entrevista Hypeness: conversamos com David Baker, um dos fundadores da Wired, sobre o trabalho do futuro

Redação Hypeness - 21/01/2015 | Atualizada em - 27/01/2015

É com enorme prazer que o Hypeness volta a publicar uma entrevista (relembre as outras aqui) e dessa vez com um dos mais reconhecidos jornalistas, escritores e consultores do mundo, David Baker. Baseado em Londres, ele é um dos fundadores e ex-editor da Wired e escreve regularmente para algumas das mais reconhecidas publicações do mundo, como Financial Times, The Guardian, Wallpaper, The Independent ou a própria Wired. Baker é também um dos professores mais seniors da The School of Life, uma organização presente em várias cidades do mundo que oferece programas focados na inteligência emocional e criatividade dos alunos.

Aproveitamos a presença de David Baker no Brasil, que veio ao país para uma série de aulas da The School of Life, incluindo um dos programas mais completos da escola, o Intensivo, que acontece de 23 a 27 de janeiro, em São Paulo, para uma conversa sobre o futuro do mundo do trabalho e das novas formas de ganhar a vida.

Vale a pena ler:

Hypeness (H) – A nossa geração vive hoje o dilema de ter que lidar com uma diversidade de opções. Na época dos nossos pais, não havia muita escolha: você escolhia uma carreira que gostaria de seguir e se mantinha nela até a aposentadoria. Qual conselho você daria para as pessoas que estão perdidas entre tantas possibilidades de trabalho e não conseguem focar em uma delas?

David Baker (DB) – Eu acho que a diferença entre nós e os nossos pais é que nós não temos um único emprego ou carreira por toda vida, mas vários. O trabalho está mudando tão rápido que é quase impossível imaginar alguém começando a trabalhar agora que irá continuar fazendo a mesma coisa aos 65 anos. A globalização ou a tecnologia ou os dois vão tirar aquele trabalho do mercado e eles vão ter que encontrar algo novo. Esta é uma ameaça inevitável: nós vamos ter que nos arriscar mais e enfrentar nossas inseguranças muito mais do que os nossos pais. Mas é também uma oportunidade, pelo fato de que nós poderemos explorar muitas habilidades próprias a nós humanos e, com sorte, ganhar algum dinheiro com elas. A tecnologia também vai passar a oferecer possibilidades que nós ainda nem somos capazes de imaginar. Quando eu comecei a trabalhar, trabalhos como web designer, desenvolvedor de aplicativos ou analista de social media eram inimagináveis, até porque a web ainda não existia. Hoje eles são boas opções para ganhar dinheiro. O truque para cada geração é ser capaz de se adaptar, se manter curioso, continuar aprendendo e não assumir que o que estamos fazendo hoje continuará a ser feito amanhã. Provavelmente não será.

H – Por que, mesmo nos dias de hoje, é tão difícil para muitas pessoas descobrir o seu potencial? Seria um problema na forma como fomos educados? Será que faltou estímulo desde a infância para que pudéssemos começar a pensar nessa questão desde cedo, ao invés de nos vermos perdidos quando chega a hora de decidir com o que trabalhar?

DB – Educação para muita gente ainda está parada no tempo em que foi inventada, lá por volta do século 19, onde o objetivo era produzir burocratas úteis que poderiam escrever bonito, ler com atenção e fazer boas observações. Essas ainda são boas habilidades. Não existe nada mais gentil do que uma carta de agradecimento escrita à mão e enviada pelo correio. Mas hoje nós temos máquinas que fazem todas essas tarefas razoavelmente bem. Ao invés disso, eu imagino que a educação deveria encorajar a curiosidade. Como pessoas como Herminia Ibarra, da escola INSEAD, da França, descobriram, nós humanos temos habilidades múltiplas e a tendência de educação de tornar as pessoas especialistas está impedindo que nós possamos considerar o leque de habilidades de que somos capazes. Por que um advogado não poderia ser bom em carpintaria ou um doutor também ganhar dinheiro com seu talento na cozinha?

A tecnologia caminha no sentido de que muitas das coisas que fazemos hoje para ganhar dinheiro não existirão mais, algo que os trabalhadores braçais tiveram que descobrir há alguns anos, e teremos que encontrar outras maneiras de ganhar a vida, e é aí que esse leque de opções irá ajudar. A chave para o sucesso no futuro será a adaptabilidade, a vontade de aprender novas coisas. Nós humanos somos incríveis e deveríamos ter orgulho disso. Todo mundo é capaz de fazer algo incrível se quiser.

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H – Hoje em dia temos ouvido muito sobre a importância de trabalhar com o que se ama. Você acha que é um objetivo que todo mundo deve perseguir ou acha isso uma ideia utópica?

DB – Eu não acho que seja uma utopia e nós temos uma aula muito procurada chamada “Como encontrar um trabalho que você ame”. Mas ninguém vai amar o trabalho que tem se tiver que trabalhar nele 100% do tempo (eu suspeito que mesmo os robôs também não, mas eles não têm como nos contar ainda). Mas é uma escolha. Muitas pessoas tem trabalhos de que não gostam muito porque o trabalho não é a coisa mais importante de suas vidas.

Eles usam o trabalho para ganhar dinheiro e depois vão amar as outras partes da vida que eles se importam mais. Não há nada de errado com esta atitude. Na verdade, eles estão possivelmente sendo mais honestos em suas vidas que aquele gerente de vendas estressado que finge que ama seu trabalho por achar que precisa fazer isso. Eu acho que hoje amo quase todo o trabalho que faço e isso reflete no porquê dele. Não é sorte, no entanto, eu tive mesmo sorte em conhecer as pessoas que conheci, pela sua bondade e pelas oportunidades que me foram dadas por elas. Eu acho que acontece porque, muito cedo na minha vida, eu olhei aquilo que eu amava fazer e a maneira que eu gostaria de fazer e saí por aí tentando encontrar uma forma de ganhar dinheiro a partir disso. Mas trabalho é apenas uma parte de nossas vidas e nós também deveríamos nos preocupar se amamos as outras partes.

H – Numa época em que somos bombardeados com uma avalanche de informações vinda de diferentes direções a cada segundo, como conseguir focar? Como trabalhar de uma forma mais inteligente, se mantendo antenado mas ao mesmo tempo sem ser consumido pela tecnologia e por essa avalanche de informações?

DB – Nós nunca ficamos expostos a tanta informação quanto estamos agora e eu suspeito que a maioria de nós está sobrecarregada com isso. Eu certamente estou e é por isso que eu não gosto de estar no Facebook. Toda essa informação, no entanto, está dando à humanidade, como um todo, incríveis novos insights para o mundo, e o Big Data já está revolucionando o sistema de saúde, por exemplo. Ninguém vai diminuir a quantidade de informação a que somos expostos por nós mesmos, na verdade, ela vai continuar a aumentar. Nós temos que decidir com o quanto disso queremos lidar, o que nós realmente queremos saber e daí então ter algum controle. Nós não podemos saber tudo ou ser amigos de todo mundo nas mídias sociais. No entanto, muitas pessoas tentam. Mas nós podemos usar nossa curiosidade para descobrir mais sobre o mundo do que aquilo que acontece na frente de nossos narizes.

H – Na sua opinião, qual o modelo de trabalho do futuro? Você acha que o modelo de trabalho atual (que implica em precisar ir para um escritório, ficar fechado dentro de uma sala, ter que pegar trânsito para se locomover, etc) está com os dias contados?

DB – Eu estou pensando muito sobre isso, no momento, pois algo importante aconteceu no mundo muito recentemente. Em toda a história, novas tecnologias destruíram empregos, mas isso também criou novos: existem poucos penteadores de cavalo profissionais em Londres, mas existe muita gente que faz serviços em automóveis. Mas desde os anos 90, a tecnologia está destruindo empregos sem os estar repondo, provavelmente porque a tecnologia está ficando muito boa em fazer muitas das coisas que nós normalmente fazemos. Eu imagino que no futuro o trabalho da maioria de nós não será trabalho ou vai virar um trabalho de meio período, já que a maioria do trabalho que precisa ser feito será feito por máquinas. E aí temos um problema: o que vamos fazer quando não estivermos trabalhando? E como vamos pagar pelas coisas que precisam ser pagas?

Na Europa, estamos observando um aumento no desemprego, já que estamos perdendo oportunidades para nações em desenvolvimento (incluindo o Brasil) ou para tecnologia, e as novas companhias que são formadas são muito menores do que as antigas que desapareceram. Em todo mundo, vamos precisar pensar novamente no motivo de trabalharmos e o que tirar disso. Como Voltaire disse, existem três grandes males: tédio, vício e necessidade. Se existir menos trabalho para ser feito, nós conseguiremos cultivar a área fora do trabalho para nos ajudar a não cair novamente nessas armadilhas? Esta é a questão fundamental do futuro do trabalho. Uma vez que pensarmos sobre isso, nós resolvermos o problema, seja trabalhando de casa, do escritório ou de qualquer outro lugar. Eu suspeito que muitos de nós, eu incluso, vamos achar nossos trabalhos no futuro muito diferentes do trabalho que nós conhecemos. Na quantidade, conteúdo e forma, e nós teremos que ser flexíveis e curiosos o suficiente para nos ajustar.

Para mais informações, clique aqui.

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