Desafio Hypeness

O que aconteceu quando topei o desafio de ficar uma semana sem ingerir açúcar

por: Mari Dutra

O desafio chegou quase junto com a pizza que eu havia pedido. Com um almoço daqueles, não seria fácil ficar uma semana sem ingerir açúcar. Na hora, nem lembrei que aquela rodela de 30 centímetros de puro carboidrato significava exatamente isso: açúcar, muito açúcar. E, confesso, devorei a pizza inteira.

Para quem, como eu, não usa açúcar nem para adoçar o mais amargo dos cafés, parecia tarefa simples. Mas o açúcar escondido sempre foi o maior vilão. E minha jornada não seria tão fácil assim: o desafio foi aceito em meio a uma viagem e valeria enquanto eu transitava entre os deliciosos e proibidos Pastéis de Belém lisboetas, os churros madrileños e os coloridíssimos macarons parisienses, tão proibidos quanto.

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Meu primeiro passo foi pesquisar bastante sobre o assunto e tentar descobrir o que tem ou não açúcar. Eu já sabia que cerveja, pães, massas, congelados e até sucos de caixinha geralmente vêm acompanhados de boas doses de sacarose, mas precisava saber mais. Por falar nisso, minha primeira descoberta foram as mil faces do açúcar. Ele pode se chamar xarope de milho, maltose, glicose, sacarose, dextrose e frutose – este último é o açúcar que existe naturalmente nas frutas e estaria liberado durante a dieta.

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Mas por que ficar uma semana sem comer açúcar?” – acho que essa foi a frase que mais ouvi durante esses dias. Basicamente porque ele é considerado não apenas um dos grandes vilões do ganho de peso, mas também o responsável pelo desenvolvimento de diversas doenças. O livro Sugar Blues é uma ótima fonte de informação sobre o assunto, e nos lembra de que o consumo do açúcar está relacionado a problemas tão diversos como derrame cerebral e depressão (download aqui). Se não bastasse, o seu consumo ainda pode ser relacionado ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer.

Um artigo do British Medical Journal chegou a classificar o açúcar como sendo uma droga tão perigosa quanto o tabaco (se não acredita, confira), enquanto outras pesquisas apontam ainda que o açúcar pode ser responsável pela baixa autoestima e até pela diminuição da líbido. Para eliminá-lo da dieta, não basta fechar a boca para os doces: o maior risco está no açúcar que nós não vemos, como mostra o trecho abaixo do documentário Muito Além do Peso.

Se não bastassem todos esses motivos, nosso corpo simplesmente não precisa de açúcar adicionado para viver. E, por último, porque minha editora quis me usar de cobaia para provar o quanto somos viciados nesse vilão branquinho.

Cheia de argumentos para seguir em frente com o desafio, fui comer em um restaurante próximo de onde estava hospedada e percebi que as coisas poderiam ser mais difíceis do que eu havia imaginado. O cardápio não era muito extenso e a única coisa que parecia totalmente livre de açúcar era uma tábua de frios. Pedi um suco de laranja natural, sem açúcar, para acompanhar.

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Depois de comer, bateu a dúvida: será que aquele chouriço catalão, o jamón crudo e aqueles queijos deliciosos e super gordurosos não continham mesmo açúcar? Pelo que andei pesquisando por aí, às vezes é possível encontrar o nosso inimigo branco nos alimentos que menos esperamos. E, infelizmente, fora do supermercado as comidas não vêm com tabelas de ingredientes. É nesse momento que a única solução que resta é contar com a sorte e escolher alimentos que, teoricamente, não deveriam conter açúcar, como a omelete de queijo que eu comi na mesma noite.

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Com a chegada em Madrid, no segundo dia, decidi que era hora de ir ao supermercado comprar quilos e quilos de frutas. Mas, mais do que frutas, eu precisava de algumas fibras extras: comprei aveia orgânica e passei horas na prateleira dos iogurtes até achar um que não tinha adição de açúcar – a tarefa mais difícil até agora.

Ao comer na rua, as únicas opções que pareciam realmente livres de açúcar eram carnes e proteínas em geral, então eu ia precisar ingerir fibras enquanto estava em casa. Até as saladas vinham com molhos nos restaurantes – o que indica uma alta probabilidade de conter o nosso item proibido.

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Foi só no terceiro dia sem açúcar que meu corpo começou a me pedir um pouquinho de carboidrato. Minha dieta “normal” é razoavelmente saudável, mas costuma incluir muitos pães e massas (integrais) e bem pouca carne, então era natural que meu organismo começasse a estranhar o fato de ser bombardeado com uma quantidade enorme de proteínas. Se estivesse em casa, eu poderia driblar a dieta fazendo meu próprio pão sem açúcar (fica uma delícia, por sinal), mas o apartamento que aluguei não tem forno, o que é bastante comum por aqui.

A saída era recorrer a outros carboidratos mais naturais, como batatas. Menos naturais na versão frita, que foi minha escolha, acompanhando um frango grelhado para fingir que sou light. Eu sabia que essas batatinhas iriam virar açúcar no meu estômago e garantir alguns momentos de felicidade extra.

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O quarto dia marcava exatamente a metade do desafio e uma coisa já estava começando a me incomodar: os outros. O mais engraçado quando você tem alguma restrição alimentar (voluntária ou não) é que os outros acham que seu sistema digestivo deveria ser um assunto público.

Eu andava com uma gripe forte nos últimos dias e cheguei a ouvir que era por causa “dessa dieta maluca” – mas fingi que não ouvi nada e, por vingança, passei a gripe adiante, enquanto aproveitava para comer algo tipicamente espanhol e tipicamente sem açúcar: uma tortilla de papas.

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No mesmo dia, surgiu um novo desafio: meu namorado decidiu fazer uma sopa de capeletti à noite. A receita contava com poucos ingredientes: alho, cebola, azeite, frango, caldo de frango e, é claro, capeletti. Mas o problema eram esses dois últimos itens. Enquanto vasculhávamos o supermercado, percebi que quase todas as marcas de caldo de frango tinham açúcar adicionado na receita. E apenas uma das marcas de capeletti que encontramos não continha açúcar na composição. O resultado: nossas compras demoraram um pouquinho mais, mas foram certamente mais saudáveis do que o normal – e a sopa ficou uma delícia.

No dia seguinte tivemos a brilhante ideia de jantar em um bar que tinham nos recomendado: o 100 montaditos. O lugar era simpático, barato e oferecia várias opções de… montaditos – pequenos sanduíches com recheios variados. Tive que me contentar com uma porção de nachos acompanhados da guacamole mais sem graça que já comi na vida. Saldo da noite: dieta nível hard.

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O final da dieta já estava chegando e, no meu sexto dia sem açúcar, decidi fazer um risotto de pimentões, queijos e espinafre. Cozinhar em casa era a certeza de poder comer bem e sem preocupação sobre o açúcar escondido nos alimentos.

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No dia seguinte partiríamos para Paris para encarar meu último desafio: passar longe dos coloridíssimos macarons franceses por um dia.

E foi o que eu fiz. No último dia do desafio, acabamos almoçando tarde em um restaurante próximo do nosso novo apartamento. Foi só por volta das 16h que comi um tal de “faux-filet” com batatinhas fritas, que parecia ser feito para alimentar um gigante e não uma pessoinha de um metro e meio como eu. Consegui comer uns 60% do prato e isso já me deixou sem nenhum apetite para jantar à noite. Ao invés disso, substituí a minha última janta por um vinho. Meus companheiros de viagem propuseram um brinde à meia-noite ao final do desafio e aceitei mais pela brincadeira do que por alívio.

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A verdade é que, durante todos esses dias, um pensamento ficou martelando na minha cabeça. Bem mais chato do que não comer açúcar é ter que explicar que não posso comer açúcar, que bala tem açúcar, cerveja tem açúcar e até o presunto que compramos no supermercado tinha açúcar. Nessas horas eu lembrava de uma pergunta que minha nutricionista me fez uma vez: até quando vamos continuar comendo para satisfazer os outros? Parece papo de autoajuda, mas é verdade. Afinal, quantas vezes você não comeu um doce só por educação? Eu, pelo menos, fiz isso muitas vezes.

Se eu senti falta do açúcar? Não, meu corpo parece bastante satisfeito com as frutas que eu comi nestes dias (bem mais do que costumo comer, diga-se de passagem) e percebi que, quando cozinhamos, é muito fácil controlar o que estamos ingerindo. Por um lado, a experiência de pensar antes de comer faz com que controlemos a alimentação em todos os sentidos. Afinal, antes mesmo de comprar alguma coisa eu tinha que pensar se aquele alimento continha ou não açúcar – o que também fazia com que eu pensasse se queria mesmo ou não comer aquilo.

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Não sei se emagreci ou engordei, mas sinto que minha alimentação foi bem mais saudável nestes dias e que o desafio se adaptou muito bem a minha rotina. Mesmo assim, não pude deixar de lembrar de um documentário que eu havia assistido recentemente chamado Sugar vs. Fat, em que dois irmãos gêmeos se submetem a um desafio: um deles passaria um mês sem comer açúcares, enquanto o outro ficaria o mesmo período sem comer gorduras. Para quem se interessa pelo tema, vale a pena assistir.

Agora, eu desafio você, leitor, a ficar um tempo sem ingerir açúcar e depois contar por aqui como foi a experiência ou compartilhá-la através das suas redes sociais. Use as hastags #1semanasemacucar e #desafiohypeness4 para podermos acompanhar o processo. Quem sabe sua foto não aparece aqui no Hypeness?

Todas as fotos © Mariana Dutra

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Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

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