Desafio Hypeness

O que mudou na minha vida quando passei uma semana puxando assunto com estranhos

por: Mari Dutra

Viu se a lotação já passou?” – era dia de greve de ônibus aqui em Porto Alegre e a parada parecia o cenário perfeito para puxar papo. “Não vi, cheguei há pouco também”. Chovia, mas eu estava me saindo bem: descobri que a minha até então desconhecida tinha vindo morar na cidade há apenas um mês e nem tinha ouvido falar da greve que acontecia naquele exato momento.

Ao contrário da minha previsão, a lotação não demorou a passar e, como não encontrei um banco livre ao lado da ex-desconhecida, nossa conversa acabou quase sem querer, sem que eu sequer pudesse registrar o momento para a posteridade. Também não tive tempo – ou coragem? – de perguntar seu nome ou qualquer outro detalhe sobre a vida dela.

O que eu não imaginava era como seria difícil encontrar outras pessoas dispostas a engatar uma conversa com uma completa estranha. E a verdade é que eu devo ter parecido realmente estranha enquanto seguia desconhecidos com o olhar em restaurantes, bares, paradas de ônibus, elevadores, supermercados, salas de espera de dentista e praças públicas à espera de uma conversa.

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Mesmo que ninguém me desse a mínima, eu continuava tentando: “esse risoto aí está bom?”, “será que o Rio Branco demora pra passar?”, “eu vi na previsão que ia chover hoje…”, “não precisa sacolinha, não, eu trouxe minha ecobag. Lá em casa a gente…”. Eu até recebi sorrisos, respostas curtas e, mais ocasionalmente, descaso completo em troca, mas o bate-papo de verdade não estava funcionando.

O contato mais sincero que tive foi quando, em um dia de chuva forte, estendi meu guarda-chuvas sobre a cabeça de uma desconhecida, que riu, me agradeceu umas três vezes e atravessou a rua um pouco mais seca ao meu lado. Na hora, não consegui aproveitar para engatar uma conversa e logo nossos caminhos se separaram sem que eu pudesse dizer qualquer outra coisa que não fosse um “de nada” meio sem graça.

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Pode até ser que eu realmente não fosse boa nisso ou que a onda de violência – que anda forte por aqui – tenha feito com que eu parecesse uma completa psicótica, do alto do meu metro e meio de altura. Porque, afinal, a gente nunca sabe…

Pelas dúvidas, passei a observar mais meu namorado, especialista em puxar papo com estranhos, geralmente com um pouco mais de sucesso do que eu. Durante um evento, ele decidiu espontaneamente conversar com o “cara da barraquinha de cerveja artesanal”. Tínhamos, ao menos, assuntos em comum, já que também fazemos cerveja em casa e nossa última produção era do mesmo tipo de cerveja que ele estava vendendo ali – uma Dunkel. Apesar disso, o papo não durou 5 minutos e foi marcado por monossílabos. Tudo indica que nós estávamos precisando de um banco assim como o da foto abaixo…

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 Ao sentar neste banco, eu estou aberto a conversar com um completo estranho.

Eu demorei umas 10 tentativas malsucedidas para me dar conta de que aquilo não ia parar em lugar nenhum. Apesar de ter ficado ultraconfiante depois da conversa na lotação com minha primeira “amiga-desconhecida”, vi que ela havia sido uma exceção.

Parece que muita gente acabou ouvindo demais aquela história de não falar com estranhos. E eu andava na rua teimando em ser como a menininha do vídeo abaixo (em inglês) e me metendo em suas vidas. Para ela, no auge da sua sabedoria infantil, é difícil entender o porquê de não aceitar um cookie de um desconhecido. Eu começo a ficar em dúvida se a gente não tem um pouco a aprender com ela. Qual o problema de um cookie, mesmo?

É irônico que tudo isso tenha começado com o estudo Mistakenly seeking solitude (“Equivocadamente buscando a solidão”, em português), publicado no jornal Experimental Psychology, que aponta justamente que as pessoas ficam mais felizes após falar com estranhos. O estudo foi feito no transporte público de Chicago e os passageiros foram instruídos a falar com estranhos, sentar sozinhos e calados ou fazer o que normalmente faziam. Adivinha o que eles descobriram? Os que falaram com estranhos acabaram relatando as melhores experiências.

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O interessante é ver que o estudo mostra exatamente uma contradição: um grupo que não precisou colocar em prática a ideia indicou que imaginava que a situação menos prazerosa seria a de ter que falar com estranhos. Ou seja, parece que a ansiedade de abordar um desconhecido faz com que isso pareça altamente desagradável, mesmo que, no fim das contas, a experiência seja positiva – e eu sou testemunha de que suei frio a cada vez que tentava puxar um papo com alguém pela rua.

Quase 80% das pessoas que eu via já era descartada das minhas tentativas porque simplesmente estavam usando um fone de ouvido, lendo um livro ou entretidos demais com aparelhos celulares para poder prestar atenção em qualquer outra coisa. E até aí tudo bem, eles estavam fazendo algo melhor do que falar comigo – ou será que não?

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Infelizmente, eu nunca vou saber como teria sido a experiência de arrancar o livro da mão de quem estava lendo e perguntar sobre o que se tratava. No final das contas, eu também acabava buscando não ser respondida, mesmo que fosse eu quem puxasse papo. Talvez faltasse estratégia, talvez coragem, talvez fosse só uma resposta às dezenas de vezes que resolvi descer do ônibus depois de ser abordada por desconhecidos – sim, eu perdi a conta de quantas vezes fiz isso. Cheguei a me lembrar de ter voltado de viagens achando a coisa mais exótica do mundo o fato de outras pessoas simplesmente puxarem papo na rua, como no dia em que um romeno me perguntou se eu era brasileira e se declarou fã de Roberto Carlos (o cantor, não o jogador de futebol). Eu achei aquilo tão maluco que corri para publicar no Facebook. Hoje, pensando bem, acho que de repente ele só queria ter um milhão de amigos, e poderia estar trilhando o caminho certo para conquistá-los.

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Fazendo uma busca rápida sobre “falar com estranhos” no Google, percebo o quanto nos afastamos dos outros e também o quanto sentimos falta deste contato mais natural, em que qualquer um passa a ser um amigo em potencial: a internet está cheia de manuais que explicam como engatar uma conversa com pessoas que não conhecemos (como esse aqui, por exemplo).

A coisa foi tão longe que tem até uma equipe querendo registrar pessoas sem medo de falar com estranhos em um documentário. Com uma placa na calçada, a produção estimulava quem passasse pelo local a compartilhar suas histórias com desconhecidos – na verdade, eles mesmos, munidos de uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. O resultado é incrível e mostra como algumas pessoas são capazes de se abrir facilmente quando confrontadas com alguém que não conhecem, enquanto outras passam reto pela placa. O que parece contraditório é que os produtores contam que eles mesmos teriam fugido da proposta e “atravessariam a rua se vissem uma placa daquelas”. Sim, isso também soou bem estranho para mim, mas acabou sendo muito parecido com a minha atitude nestes dias: enquanto eu estava acostumada a “fugir” das conversas com desconhecidos, me vi sendo eu quem interrogava quem quer que eu encontrasse pelo caminho.

Trailer Fale com EstranhosSe você sempre quis contar sobre o Fale com Estranhos para os seus amigos, mas não sabia qual era a melhor entrevista pra mostrar, compartilhe este vídeo na página deles! Fizemos um trailer com um mix de várias conversas. Ficou bem legal! Posted by Fale com Estranhos on Monday, 19 January 2015

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Afinal, minha vida mudou um pouco sim quando passei uma semana inteirinha, de segunda a domingo, tentando puxar papo com desconhecidos: eu aprendi a ver os outros. E me coloquei no lugar daqueles velhinhos que alguma vez já me pararam para contar seus problemas na fila do cinema ou mesmo aquele vizinho do andar de cima que teimava em perguntar um “será que chove?” desinteressado no elevador. Se eles estão entrando em extinção, eu me proponho a ser a resistência, pronta para engatar uma conversa com o primeiro que disser “oi” ou, quem sabe, encarar um passeio com uma plaquinha de Free Hugs distribuindo abraços e um bom papo por aí. Quem me acompanha? #umasemanafalandocomestranhos e #desafiohypeness9

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Imagem 1: Ryot Iras; Imagem 2: Photobucket; Imagem 3: Emily Hall; Imagem 4: Pio3; Imagem 5: Estúdio Nomade; Imagem 6 via; Imagem 7 via; Imagem 8: Reprodução Facebook; Imagem 9: Fale com Estranhos; Foto 10:  © Melanie MacDonald.

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Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

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