Matéria Especial Hypeness

Professores inspiradores: como alguns educadores conseguem impactar nossas vidas mais do que podemos imaginar

por: Bruna Rasmussen

O melhor aluno costuma ser o que tira 10. Contudo, dificilmente o melhor professor é aquele que segue à risca os capítulos do livro e fica a aula inteira focado na matéria. Mais do que repassar conhecimento de uma disciplina específica, o professor que inspira vai além e exerce as funções de líder, modelo e mentor. Pare e lembre: qual foi o professor mais importante da sua vida?

De acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto Gallup em parceria com a universidade americana de Purdue, pessoas que tiveram a sorte de ter um professor especial durante a graduação universitária costumam ser mais satisfeitas na carreira e na vida pessoal – as chances dessas pessoas se darem bem no trabalho chega a dobrar. A pesquisa prova ainda que as experiências e as relações que as pessoas têm na universidade contam muito mais do que a própria instituição em que estudaram – fato confirmado por um estudo da Rand Education. Isso quer dizer que bons laboratórios, tecnologia e um câmpus moderno ajudam, mas o que conta mesmo é a pessoa que está ali dando a aula, estimulando o aprendizado e debatendo sobre a vida, o universo e tudo mais.

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Oh Captain, my captain! Cena clássica do filme A Sociedade dos Poetas Mortos. Foto © Touchstone/Reprodução 

Mas não é só na graduação que eles fazem toda a diferença. Principalmente ao longo do ensino básico, professores-líderes têm o poder de despertar o melhor de cada aluno, quebrar pré-conceitos e mudar vidas. Quantos filmes você já viu sobre professores que conseguiram recuperar alunos que tinham problemas na escola, em casa, baixa auto estima e um futuro preocupante? Se esses filmes existem é porque pelas salas de aula espalhadas pelo mundo ainda há verdadeiros heróis que conseguem, apesar de problemas de infraestrutura das escolas, baixos salários e condições de trabalho caóticas, olhar para cada aluno além do número da chamada, enxergar seu potencial e, o mais importante, lutar por ele.

Robert Rosenthal, um psicólogo que lecionava em Harvard, fez um experimento em uma escola de São Francisco, na Califórnia (EUA), a fim de descobrir como a expectativa dos professores afeta o desempenho dos alunos. Para isso, ele selecionou questões padrão de um teste de QI e disse se tratar de um teste capaz de identificar crianças que tinham um grande potencial. Feita a prova, ele selecionou algumas crianças aleatoriamente e informou aos professores que aquelas crianças haviam mostrado sinais de uma inteligência superior.

Rosenthal seguiu aquelas crianças e professores por dois anos e descobriu algo curioso: a expectativa que os professores colocaram nesses alunos fez com que a performance deles fosse superior à dos demais. Após mais pesquisas, o psicólogo descobriu o motivo: a expectativa dos professores fez com que eles tivessem mais paciência ao ouvir as respostas desses alunos, dessem feedbacks mais específicos, sorrissem mais e prestassem mais atenção a essas crianças. “Não é mágica, não é telepatia mental. São essas centenas de formas diferentes de tratar as pessoas no dia a dia”, disse Rosenthal.

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Foto © Judy Baxter/CC

Uma relação positiva entre aluno e professor permite que os estudantes se sintam mais à vontade na sala de aula, além de servir como alavanca para as habilidades sociais e de estudo. Uma turma que mantém relações próximas com seu professor tem mais chances de se engajar no aprendizado e de ser mais produtiva e unida, evitando problemas como o bullying, por exemplo. Esse benefício fica ainda mais claro em comunidades carentes, em que professores precisam motivar e tornar o aprendizado interessante para alunos que, muitas vezes, estão a um passo de desistir dos estudos. O professor inspirador vai muito além do tablado, das notas e da chamada: há empatia e vontade de transformar vidas – e quando há condições de trabalho para isso, claro, o resultado é ainda melhor.

Em uma sala de aula, o capital social pode ser definido como a relação humanizada entre aluno e professor, em que estudantes são tratados com atenção e há expectativa sobre eles. Para alunos do ensino médio, a relação positiva entre aluno e professor pode reduzir a evasão pela metade e inspirar futuras aspirações acadêmicas ou profissionais – na vida pessoal, essa relação é benéfica para auto estima e pode influenciar até mesmo no salário dos alunos na vida adulta.

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Foto © UO Education/CC

No Brasil, o Prêmio Professores do Brasil, realizado pelo Ministério da Educação, seleciona as melhores iniciativas de prática pedagógica do país. Dos mais de 2 milhões de professores atuando na educação básica do país, 6.808 se inscreveram para a premiação, que selecionou 39 projetos de professores da educação infantil ao ensino médio. Em escala mundial, o Global Teacher Prize seleciona o educador mais inspirador do mundo e dá a ele um prêmio de US$ 1 milhão. Conheça alguns professores do Brasil e do mundo que promovem uma educação verdadeiramente inspiradora:

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Os finalistas do Global Teacher Prize deste ano. Foto © Paul Kagame

Êda Luiz (Brasil)

Para a educadora Êda Luiz, conhecimento é um poder a qual todos têm direito. A diretora do CIEJA Campo Limpo, um centro para a educação de jovens e adultos localizado em São Paulo (SP), transformou a maneira como a escola recebe aqueles que um dia precisaram abandonar os estudos. Deixando de lado o modelo tradicional de ensino, Êda, que é pedagoga e especialista em Educação de Jovens e Adultos, propôs uma escola aberta, que é um espaço público para a troca de conhecimento.

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Fotos via CIEJA Campo Limpo

Funcionando em três turnos, os alunos aprendem em ciclos que abordam áreas do conhecimento em vez das costumeiras disciplinas divididas em semestres ou anos. Além desta solução, que busca facilitar o acesso dos alunos à escola, Êda adicionou à experiência do aprendizado uma grande dose de respeito, amor e diversidade. A escola recebe os mais variados tipos de alunos, de senhoras de 90 anos a ex-dependentes químicos e pessoas com deficiência. O objetivo da diretora é que todos que adentrem a escola se sintam acolhidos e à vontade para aprender. Pode-se dizer que Êda é a alma do CIEJA: é ela quem abre e fecha os portões da escola todos os dias, recebe novos alunos e faz papel de mãe ao aconselhar e conversar com os antigos. A motivação? “Eu amo educação. Eu acredito que a sociedade, o mundo ainda pode ser transformado através da educação”, afirma ela em entrevista para o Edu on Tour, vídeo que você pode assistir logo abaixo.

Salman Khan (EUA)

Quando uma prima de 12 anos pediu ajuda para o engenheiro e matemático norte-americano Salman Khan para conseguir entender a matéria da aula de Matemática, ele precisou da ajuda da tecnologia para explicar a ela as equações e números: a garota estava em New Orleans e ele, em Boston. A solução mais prática que Khan encontrou para auxiliá-la foi publicando vídeos no YouTube, em que mostrava tudo o que escrevia em sua tablet. Como já é de praxe na internet, os vídeos foram sendo vistos por amigos da prima, outros primos e amigos dos amigos deles, conquistando uma grande audiência em pouco tempo. Assim surgia a Khan Academy, um site que reúne videoaulas gratuitas sobre as mais diversas disciplinas – em especial, matemática, física e química.

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Foto © Gilles Mingasson/Nouvel Observateur

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Foto © Larry Busacca/WireImage

Diferente das aulas que encontramos na maioria das escolas, as aulas em vídeo prezam pela objetividade: os temas são sempre específicos, a duração não passa de 15 minutos e a explicação é simples. As mais de 2 mil aulas disponíveis online já foram traduzidas para diversas línguas, entre elas o Português. Em um mundo em que a tecnologia costuma ser usada para trocar memes e fotos de gatinhos, Khan provou que ela pode ser fundamental na democratização e reestruturação do aprendizado.

“[Uma escola boa] é uma escola que tem professores incríveis e que oferece a eles uma estrutura suficiente para que trabalhem com os alunos possibilidades de explorar o conhecimento.É preciso dar a eles flexibilidade de tempo para que eles não sejam obrigados a ensinar determinado assunto em determinado tempo.Os alunos precisam aprender com os professores como direcionar seu próprio estudo. E aí entra a tecnologia. O professor não deve usar tecnologia somente porque alguém mandou que o fizesse.”, disse ele em entrevista à Folha de S. Paulo.

Nancie Atwell (EUA)

Quando a norte-americana Nancie Atwell decidiu ser professora após concluir a graduação em Língua Inglesa, ela se viu em uma escola pública de Nova York cercada por alunos da oitava série que detestavam ler e escrever. Incomodada com a relação dos alunos com as atividades de língua inglesa, Nancie começou a pesquisar novas formas de engajar seus alunos na leitura e na escrita. Foi então que ela conheceu o trabalho de Donald Graves, da Universidade de New Hampshire, criador do método do writing workshop, que repassava aos próprios estudantes a responsabilidade de escolher o tema sobre o qual escreveriam redações.

Nancie Atwell, Bill Clinton, Mohammed bin Rashid Al Maktoum

Foto © AP

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Fotos © Education Skills Forum

Por anos, Nancie aperfeiçoou o método e percebeu que, sim, ele funcionava: o engajamento dos alunos aumentava quando as crianças podiam escolher o que gostariam de ler e sobre o que iriam escrever em suas atividades. Ver a mudança de comportamento dos alunos frente ao novo método despertou em Nancie uma paixão ainda maior pelo ensino e pela possibilidade de formar alunos que gostam da escola e do aprendizado. Na década de 90, Nancie se mudou para o estado de Maine, onde fundou o Center for Teaching and Learning (CTL), uma pequena escola sem fins lucrativos que serve como laboratório para a educadora e prova que os métodos padrão de ensino precisam ser revistos. No CTL, todas as salas de aula têm uma biblioteca, provas são proibidas, as classes são pequenas e os estudantes leem cerca de 40 livros por ano – muito acima da média norte-americana. Não é a toa que 97% dos alunos que concluem os estudos no CTL são aceitos em universidades.

Espera-se que os professores sejam técnicos, que leiam scripts e o script não é válido. [Notas de provas] é tudo o que conta hoje em dia. Tudo é análise de dados, métricas e contabilidade. É um modelo de negócio sem negócio sendo usado na arte de ensinar ou na ciência de aprender”, afirmou ao The Guardian a educadora, que conquistou o primeiro lugar no Global Teacher Prize.

Kiran Bir Sethi (India)

Em vez de ditar regras e distribuir “nãos”, o que acontece quando permitimos que as crianças façam, aconteçam e se sintam empoderadas? A designer indiana Kiran Bir Sethi costuma brincar que usa o “Yes, I Can” (Sim, eu posso, em português) muito antes da campanha do presidente Obama. Aplicando o aprendizado no contexto do mundo real e dando voz aos alunos, ela criou a Riverside School, uma escola que busca transformar estudantes e as comunidades onde vivem.

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Fotos © Invertigo Studios

Desde 2001, a escola que fica em Ahmedabad, na Índia, coloca o aluno como protagonista e mantém o professor como um facilitador. Além de vivenciarem situações, as crianças trabalham o conceito de empatia, colocando-se no lugar do outro para entender problemas. Um exemplo de como isso é feito foi mostrado por Kiran em seu TED: enquanto estudavam os direitos das crianças, alunos passaram horas enrolando incensos para que entendesse melhor o problema do trabalho infantil. Segundo Kiran, “isso os transformou. Eles deram início a uma jornada para mudar o mundo. Foram para as ruas da cidade convencer as pessoas de que o trabalho infantil precisava ser abolido. E isso não poderia acontecer somente na sala de aula”.

Além das paredes de Riverside, Kiran criou o Design for Change (DFC), um movimento que usa os princípios do design (sentir, imaginar, fazer e compartilhar) para empoderar crianças de toda a Índia, mostrando que elas têm o poder de mudar o mundo. Para a educadora, possibilitar que o aluno tome suas próprias decisões, aprenda a lidar com a coletividade e tenha suas responsabilidades são algumas das bases para o bom aprendizado.Quando eu entrei na educação, eu senti que este era o ingrediente-chave que eu deveria dar aos meus alunos: menos medo e mais competência”, disse em entrevista ao Catalyst Review.

Guy Etienne (Haiti)

Eu me recuso a cometer o tipo de crime em que você ensina para as crianças um monte de coisas com as quais eles não podem fazer nada.” A frase é de Guy Etienne, um engenheiro haitiano que há mais de três décadas se dedica a promover uma educação transformadora na escola Catts Pressoir. Em vez da educação tradicional baseada em obediência e memorização, Etienne trabalha com a linha tecnológica-científica e coloca os alunos na posição de empreendedores e inovadores.

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Fotos © Frederick Alexis

Quando ele diz que as dificuldades são os ingredientes do desenvolvimento, seus alunos concordam. No ano passado, um grupo de estudantes desenvolveu uma câmera de vigilância e ofereceu o modelo ao governo, que agora o utiliza para fazer a segurança na comunidade. Consertar lâmpadas de semáforos e criar padarias experimentais, com todo o gerenciamento da empresa, são algumas outras das atividades já desenvolvidas pelos estudantes. Todo o aprendizado da escola pode ser aplicado nas comunidades e os alunos são incentivados a inovar.O que nós estamos desenvolvendo na mente desses estudantes é que quando você se depara com um desafio, é preciso buscar uma solução; não cruze seus braços e diga que você não pode porque é difícil”, afirmou Etienne em entrevista ao Miami Harald.

Estes são apenas três dos milhões de professores que ajudam a transformar crianças e jovens, que alimentam sonhos e que mostram a possibilidade de um mundo mais justo, inteligente e sustentável. Mas ser um educador inspirador não é tarefa fácil, principalmente dadas as condições de infraestrutura da educação no Brasil e em tantos outros países. Embora a experiência conte mais do que a instituição, como provou uma pesquisa lá nos primeiros parágrafos deste texto, dispor de condições básicas para o ensino é essencial – convenhamos, transformar e inspirar jovens quando não há cadeira na sala de aula, salário compatível ou água na torneira é missão impossível.

Somado à luta dos educadores por condições básicas de ensino, há também a questão da melhoria do ensino padrão e os novos métodos de aprendizagem, tema que já foi discutido na matéria especial “Educação fora da caixa: conheça escolas onde o aprendizado vai muito além da lousa e do caderno” aqui no Hypeness. Que a educação seja transformadora e que os educadores sejam inspiradores – mas vale lembrar que não dá para fazer milagres.

Por fim, indicamos alguns filmes que mostram como a escola e o aprendizado podem mudar vidas:

Filmes

Preciosa – Uma História de Esperança

Sociedade dos Poetas Mortos

Entre os muros da escola

E você, quem foram os professores mais inspiradores pelos quais você já passou? E por quê?

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Bruna Rasmussen
Bruna escreve para a internet desde 2008 e tem paixão por consumir informação e descobrir coisas. Adora gatos, inovação e é curitibana – fala “duas vinas”, mas dá “bom dia” no elevador.

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