Matéria Especial Hypeness

Filhos de quatro patas: como o seu bicho de estimação enxerga a relação de vocês

por: Bruna Rasmussen

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Ozzy é um gatinho Cornish Rex dengoso, tem 10 anos de idade e detesta estranhos. Winky e Krusty têm 8 anos, gostam de gente, mas não são muito fãs das companhias felinas. Mickey, cego desde pequeno devido a uma catarata congênita, é o despertador da casa, enquanto que Alejandro, da raça Sphynx, não deixa ninguém em paz e arruma briga a todo instante.

Em meios aos bichanos, Ernesto, um filhotinho de Chihuahua, aprende a ser gato, apesar de sua origem claramente canina. Toda essa trupe divide um apartamento com a empresária curitibana Tânia Barthel e seu marido, Guilherme. Apesar de às vezes darem trabalho, eles têm um lugar especial no coração do casal. “[Os bichinhos] são membros da família, não temos filhos humanos, mas temos esses orelhudinhos”, disse ela.

Quando fomos em busca de pessoas que tratassem seus bichinhos como parte da própria família, a primeira resposta que nos deram foi: “ué, e quem não trata?” É verdade. Mas será que os nossos animais de estimação também se sentem assim? Será que eles nos enxergam como pais? Entendem que somos de raças diferentes? Gostam de nós o mesmo tanto?

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A turminha reunida Foto © Tânia Barthel/Arquivo Pessoal

Cães: muito mais que melhores amigos

Há cerca de 14 mil anos e ainda carregando certas características de lobo, os cães começaram a ser domesticados na região da Europa e costumavam trabalhar junto aos humanos, ajudando na caça. Com o passar dos séculos, a espécie foi se adaptando ao contato humano e, além de fazer parte das atividades de caça, os cães conquistaram o título de melhor amigo do homem. A evolução dessa parceria aconteceu ao ponto que, hoje, o laço que une cão e dono se assemelha àqueles formados entre pais e filhos.

Para provar isso, o cientista japonês Takefumi Kikusui, que estuda comportamento animal na Azabu University, na cidade de Sagamihara, no Japão, fez um teste em que descobriu que, quando um cão e seu dono se olham diretamente nos olhos, ambos apresentam no organismo um pico de ocitocina – hormônio que está ligado à confiança e à relação maternal. Quando mãe e filho se olham, o resultado é o mesmo, o que indica que o laço afetivo entre cão e dono apresenta semelhanças relevantes com aquele estabelecido entre mães e filhos.

Então, se algum dia você parou para pensar se o seu cachorro gosta de você tanto quanto você gosta dele, eis a resposta. Os cães são muito ligados à sociabilização humana e não só querem fazer parte de uma relação com a gente, como vivê-la a todo momento. Sem segredos: cães enxergam você como o pai ou mãe deles.

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Ernesto, o dog que quer ser gato. Foto © Tânia Barthel/Arquivo Pessoal

Amor de filho

Um estudo publicado no Journal of Comparative Physchology por um time de pesquisadores da Wright State Univeristy e da Ohio State University mostrou como os cães hoje se relacionam melhor com seus donos do que com outros cachorros. A pesquisa envolveu oito cães que tinham entre 7 e 9 anos e viviam em canis. Tendo sido socializados, eles ficavam tranquilos quando havia humanos por perto e tinham contato intenso com seu cuidador. A fim de realizar o testes, os cães, que sempre estavam juntos, foram separados e um de cada par foi removido do canil por um período de algumas horas. Quando isso aconteceu, nenhum daqueles que permaneceu no canil latiu ou se mostrou irritado – o nível de cortisol, o hormônio que mede o stress, permaneceu inalterado.

Quando os cães foram deixados sozinhos em um canil diferente daquele a que estavam acostumados, entretanto, tudo mudou. Agitados e visivelmente nervosos, eles tiveram um aumento de até 50% no nível de cortisol, provando que a ansiedade de estar em um lugar novo era grande. O mais curioso é que, mesmo ao juntar os cães aos seus pares, o stress se manteve em ambos. Mas como assim? A dupla permaneceu junta no mesmo canil por anos e não desenvolveu um laço relevante? É o que indicou o estudo.

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Lady e Luna. Foto © Nathália Moreira/Arquivo Pessoal

Contudo, quando o humano que cuidava deles todos os dias entrou no canil que lhes era estranho, os cães se acalmaram, o nível de cortisol baixou e tudo estava bem. Sabe aquele abraço de mãe que faz você acreditar que você está protegido de todo o mal do universo? Foi quase isso.

Agora, se você é dono de um cãozinho, tente se lembrar de uma situação envolvendo medo, como os fogos de artifício em noite de Ano Novo. Para onde seu cão correu assustado, derrubando o espumante, o pavê e sujando a roupa branca? Há grandes chances de que ele tenha procurado um lugar para se esconder perto de você. Afinal, como figura de pai ou mãe, você traz a segurança e a calma para ele, como acontece com uma criança. Vale notar que não é assim que funciona para os gatos (que veremos logo abaixo) ou para cavalos, que, quando em situação de perigo, tendem a fugir para longe, ignorando qualquer relação humana.

Outra comprovação científica deste laço especial criado entre um cão e seu dono está nos resultados de um exame de ressonância magnética feito com 12 cachorrinhos na Emory University. Presos a uma maca, os cães foram apresentados a diversos cheiros diferentes, de animais e humanos, conhecidos e desconhecidos. Assim que o cão identificava o cheiro do seu dono, a região do cérebro chamada de núcleo caudado era ativada, indicando que o animal prioriza a informação de seu dono antes de qualquer outra – também conhecido como amor.

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Alguns dos animais que participaram do experimento. Fotos © Borbala Ferenczy

Entendendo e se fazendo entender

A estudante curitibana Nathália Moreira, 19, tem duas cadelinhas, a Lady e a Luna, mas enxerga a relação que tem com elas de forma bem diferente. Enquanto a Luna, que tem 4 meses, gosta de ficar por perto e tem facilidade em obedecê-la, a mais velha a vê como apenas mais um humano. “Tenho a Lady há uns 10 anos, mas ela não me vê muito como ‘dona’. O meu pai que é o deus dela, digamos assim”, brincou. Mas o que aconteceu para que a Lady escolhesse outra pessoa como “pai”? Cãezinhos costumam ter um coração gigante, em que cabe toda a família, mas é verdade que eles tendem a eleger um favorito. Não se trata de dar mais amor ou de mimar mais: os cães escolhem gostar mais do humano que identificam como líder, isto é, aquele que tem mais condições de lhe prover comida, abrigo e segurança.

A forma como a comunicação é feita com o cão também afeta isso. Aliás, você sabia que, embora os cães não consigam identificar muitas das palavras que falamos – eles são capazes de associar coisas como “comida”, “passear” e “brincar” –, eles conseguem interpretar o tom de voz que usamos e as nossas emoções? Assim como nós sabemos quando nossas mães estão muito bravas e nos chamam pelo nome completo, os cachorros também sacam quando você está irritado, com pressa ou triste: mais do que o significado das palavras, eles processam a emoção.

Mas para se comunicar com os dogs é importante saber usar a linguagem corporal. Se entender palavras era difícil demais para eles, saber ler as expressões e nosso corpo é algo que eles aprenderam com o passar dos séculos e, hoje, é feito de forma natural. “Embora um autista não consiga interpretar a sobrancelha franzida como a demonstração de preocupação de uma pessoa ou entender o tom elevado da voz dela como sinal de medo ou angústia, o cão é sensível aos sentimentos dela”, afirma Alexandra Horowitz no livro A Cabeça do Cachorro.

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Manchinha: a assistente canina do QG do Hypeness. Foto © Hypeness

O problema é que nem sempre nós temos consciência da nossa linguagem e acabamos confundindo nossos cãezinhos – quando você faz um sinal de parar com a mão, por exemplo, é bem provável que o cão entenda isso como um convite para seguir você em vez de parar. Um bom exercício para perceber o quanto nos comunicamos com o corpo é passar um dia inteiro sem se comunicar verbalmente com seu cachorro. Ao usar apenas a linguagem do corpo, você perceberá o quão simples é se comunicar sem a ajuda das palavras e o dog – pode acreditar! – vai ficar bem menos confuso.

Gatos: do rato de verdade ao de borracha

Tendo passado a vida toda rodeada por cachorros e outros animais, a estudante curitibana Luciana Furtado, 23, recentemente optou por adotar um gatinho devido à conhecida independência dos felinos. Com o espaço reduzido do apartamento e as longas horas que passa fora de casa, um cãozinho ficaria facilmente deprimido. Contudo, além de precisar lidar com a asma de sua mãe, Luciana ainda ouviu longos papos sobre como gatos podem ser traiçoeiros. “Lutei bastante contra os comentários dos meus pais sobre a independência dos gatos e sobre como o gato ia me ter e não o contrário“, contou. Mas o gatinho resgatado, apelidado de Chewie, em homenagem ao personagem Chewbacca, de Star Wars, superou qualquer expectativa. “Ele se revelou muito carinhoso. Onde vamos ele vai atrás, gosta de estar sempre junto. Há momentos em que ele quer sossego, é claro, mas no geral é bem sociável“, afirmou Luciana.

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Chewie, o gatinho que é puro amor. Fotos © Luciana Furtado/Arquivo Pessoal

Cão é cão, gato é gato

Muitas pessoas esperam que gatos ajam da mesma forma que os cães ou como uma espécie de “cachorro mais fácil de cuidar” e ficam bastante decepcionadas quando o bichano se mostra irritado com carinho na barriga, evita colo ou não dá muita bola para seu dono. Os gatos pensam de outra forma e não é necessariamente o carinho físico que os fará felizes – pelo contrário, isso pode deixá-los estressados.

Diferente dos cães, que estão há milhares de anos ao lados dos humanos em atividades de trabalho, os gatos eram usados simplesmente para controlar a quantidade de ratos em plantações. Alguns dos primeiros indícios da domesticação dos gatos vem dos antigos egípcios há cerca de 4 mil anos. Entretanto, esse tempo não foi suficiente para a domesticação completa desses felinos acontecesse. “Gatos, diferente de cachorros, são na verdade semi-domesticados. Foi apenas recentemente que eles se dividiram dos gatos selvagens e alguns deles ainda compartilham características de seus parentes selvagens”, afirmou Wesley Warren, pesquisador da University of Washington ao IFL Science.

Ora, durante todo esse tempo, tudo o que nós, humanos, queríamos dos gatos era que dessem fim aos ratos que se espalhavam nas plantações e nas casas. E agora, de repente, queremos que eles se virem de barriga para cima, ronronem, implorem carinho e fiquem no colo? Convenhamos, é querer demais!

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Chewie, o gato-despertador da Luciana. Fotos © Luciana Furtado/Arquivo Pessoal

Outro comportamento bastante comum dos donos é adotar um segundo gato para que faça “companhia” ao primeiro. Se estivéssemos falando de um cachorro, tudo bem, mas trata-se de um gato! Lembra-se de Winky e Krusty, os gatinhos da Tânia, lá no primeiro parágrafo? Eles detestam a companhia de outros felinos e não são exceção. Apesar de terem um certo nível de sociabilidade, esses felinos foram acostumados a caçar sozinhos e a conseguir presas pequenas, como um ratinho. Sendo assim, é compreensível o receio deles em precisar dividir o pote de ração com outros gatos, principalmente aqueles que não apresentam nenhuma relação de parentesco – diferente de você, ele não sabe que há mais comida ali no pet shop da esquina!

Além da comida, os gatos costumam brigar entre si pelo melhor espaço do edredom ou da caminha para tirar uma soneca. A dominância de um gato sobre o outro pode gerar problemas graves, como machucados em brigas e até depressão. “E as pessoas querem ter dois ou três gatos em vez de um, mas só porque dois gatos são da mesma pessoa isso não significa que eles vão se dar bem”, disse o Dr. Bradshaw, da Bristol University, ao Telegraph. É claro que, assim como a Tânia fez, você pode optar por ter vários gatinhos, mas nesses casos é essencial saber dos riscos e tomar todos os cuidados para não deixar nenhum deles estressado – para dicas específicas, veja os livros que recomendamos ao fim da matéria.

Como os gatos te enxergam e convivem com você

Você já percebeu como os gatos gostam de se esfregar em nossas pernas e lamber nossos braços, como fazem com outros gatos? Isso acontece porque, ao que tudo indica, eles não consegue nos diferenciar da própria espécie e acham que nós somos gatos gigantes. Enquanto que os cachorros adotam comportamentos bastante diferentes quando estão entre outros cães e quando estão próximos aos humanos, os gatos tendem a se comportar ao nosso lado da mesma forma que agem com gatos. Sendo assim, eles pensam dividir a casa com um outro gato e, para a felicidade deles, esse outro gato não representa uma ameaça para o pote de ração. Por sermos gigantes, os bichanos dificilmente vão brigar conosco pelo espaço mais quentinho da coberta, mas embora haja um respeito devido ao tamanho, o afeto não vem de brinde: ele precisa ser conquistado.

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Alejandro, o gato brigão, e Ozzy, o bichano antissocial. Fotos © Tânia Barthel/Arquivo Pessoal

Enquanto que os cães estão sempre carentes e dispostos a deitar de barriga para cima e receber carinho, os gatos precisam ter seu humor respeitado. Mais do que uma relação de mão única, em que o dono dita a hora de brincar, de dormir e de comer, os gatos costumam ter o que chamamos de personalidade forte. As demandas por carinho precisam ser aceitas aos poucos e quanto mais você ceder, mais o gato também cede. Isso quer dizer que se você aceitar brincar quando seu gato estiver com vontade, as chances dele querer brincar quando você tomar a iniciativa são maiores. A relação com os gatinhos é horizontal e depende da disponibilidade e do humor de ambas as partes, como em uma relação entre humanos.

Quando dizem que gatos são manipuladores, não se trata de uma afirmação completamente errada – mas também não de todo mau. Os gatos são capazes de desenvolver diversos miados diferentes para comunicar mensagens pedindo comida, um brinquedo ou que se abra uma porta. Eles aprendem que nós somos sucetíveis aos miados e que costumamos atendê-los assim que ouvimos o sinal. “Os gatos geralmente não miam entre eles. Os humanos os treinam para miar, eles aprenderam que conseguem o que quer quando usam diferentes sons“, explicou o Dr. Bradshaw.

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Theodoro (Theo, o gato desta que vos escreve. Me manipula horrores, mas é o amor em forma de gato. Foto © Bruna Rasmussen/Arquivo Pessoal)

Além disso, cada par de humano e gato tem sua própria forma de se comunicar. Os bichanos são super espertos e sabem qual dos gatos gigantes da casa tem mais chances de acordar às 4 da manhã para alimentá-los, por exemplo. Basicamente, eles criam sons e movimentos diferentes e associam a eles a nossa reação. Chewie, o gatinho da Luciana, aprendeu que consegue sua atenção ao derrubar objetos da prateleira. “Ele sabe que se for 5 da manhã e ele jogar na minha cara as coisas que ficam na prateleira em cima da minha cama, eu vou levantar e dar comida pra ele. É o ritual“, contou ela, já conformada em ter um despertador de quatro patas.

Todas essas características da relação entre humanos e gatos ou cães são baseadas em estudos científicos, que estão linkados ao longo do texto. Embora muito já tenha sido descoberto sobre nossos queridos bichinhos, os pesquisadores têm uma longa jornada pela frente, muitos experimentos e a chance e tornar a nossa relação com os animais ainda mais especial. Claro que os perfis traçados são generalistas, cada animal tem sua própria personalidade e cada relação é única. Aliás, como é a sua? Conte pra gente ali nos comentários. E se quiser saber mais sobre o assunto, a gente recomenda alguns livros super bacanas. Veja mais:

Para saber mais

A Cabeça do Cachorro – Alexandra Horowitz

O livro dá explicações completas sobre como o cão percebe o mundo – do olhar e da capacidade farejadora à mente –, além de dicas básicas para se entender melhor com ele.

O Encantador de Cães – Cesar Millan

Um guia aprofundado para quem deseja alinhar a comunicação com o dog e educá-lo, contornando de uma vez por todas problemas de comportamento.

Cat Sense – John Bradshaw

A obra apresenta explicações detalhadas sobre a forma com que os gatos sentem o mundo e analisa as diferenças entre felinos e humanos. Depois dessa leitura, não tem como olhar para o seu bichano da mesma forma.

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Bruna Rasmussen
Bruna escreve para a internet desde 2008 e tem paixão por consumir informação e descobrir coisas. Adora gatos, inovação e é curitibana – fala “duas vinas”, mas dá “bom dia” no elevador.


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