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O que vimos e achamos da Virada Cultural 2015

por: Daniel Boa Nova

Para quem não é de São Paulo ou nunca ouviu falar, a Virada Cultural é um evento anual organizado desde 2005 na capital paulista pela Prefeitura do município. A proposta é promover 24 horas ininterruptas de cultura em suas mais diversas manifestações. Tudo na faixa, é só chegar para conferir.

A inspiração veio da Nuit Blanche, evento parisiense que uma vez por ano abre galerias, museus e piscinas públicas para visitação gratuita. No menu da Virada, teatro, circo, poesia, gastronomia e muita música. O foco principal está no Centro da cidade, mas nas últimas edições tem havido uma preocupação em espalhá-la também pelos bairros. Em 2015, aconteceram apresentações na Avenida Paulista, Parque Ibirapuera, Centro Cultural da Juventude, além de várias unidades do SESC e dos CEU’s.

Existem umas tantas polêmicas em torno da Virada Cultural. Será que a logística para um evento desse porte é viável? Será que essas atrações todas não poderiam ser mais espaçadas ao longo do ano? Será que a quantidade de gente em uma área tão extensa não dá margem para quem está mal intencionado fazer a festa? Será que deveriam pagar cachês estratosféricos para artistas já consagrados?

A gente aqui no Hypeness entende que todos esses questionamentos são válidos. Até por ser um evento público, sua pertinência deve ser debatida. Mas entendemos também que São Paulo é tão segregadora que iniciativas para ocupar as ruas são sempre bem-vindas. Como por exemplo o fenômeno recente dos blocos carnavalescos. Tem problemas? Tem. Vamos tentar melhorar essas experiências ou retroceder àquela situação onde qualquer forma de diversão na cidade exige abrir a carteira para participar?

Partidarizar o tema não ajuda em nada a discussão. Até porque a Virada Cultural não é obra de um partido só: foi criada na gestão de um e continuada na de outros dois. Também vale ponderar que roubos, furtos e arrastões acontecem mesmo em eventos privados, como esse e esse. E isso tudo é lamentável. Em um mundo ideal, quem iria a um festival estaria indo apenas para curtir e cada indivíduo saberia fazer isso civilizadamente no meio da multidão. Fosse assim, a matéria não precisaria dessa introdução toda e pularíamos para o que vem a seguir.

Pessoalmente, tenho ótimas lembranças da Virada. Nela já presenciei apresentações incríveis de mundo livre s/a, Nação Zumbi, Racionais MC’s, Luiz Melodia, RZO, entre outros. Mas já vi algumas cenas deprimentes e ouvi umas tantas histórias escabrosas. Por isso costumo aproveitar o evento de forma seletiva. Escolho algumas atrações, vou e volto. Não faço uma maratona, não fico ali de madrugada e também evito as muvucas. Porém, entendo quem faça da Virada a sua balada porque é a oportunidade de ver uma porção de artistas em seguida e de graça. Nesse ano, a programação previa 1.500 atrações em 69 palcos pela cidade.

Como os grandes shows já recebem cobertura da grande imprensa, procurei dar uma volta pelas ruas do Centro conferindo atrações mais alternativas. Existem várias viradas dentro da Virada e aqui está o que vimos na edição 2015:

Sábado – 20/junho Cheguei a pé um pouco antes das 19h00 e fui direto para o palco da Rua Casper Líbero. Estava para começar o show do Cumbia Negra que, como o nome já diz, toca o tradicional ritmo colombiano.

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Os caras até enganaram bem falando ao microfone em espanhol nos intervalos das músicas, mas logo confessaram que são brasileiros mesmo. O que não tira seu mérito: o som estava ótimo, o público embarcou na deles e vi inclusive um grupo de bolivianos aprovando a apresentação. Aliás, o tocador de maracas usando a máscara de lucha libre era um conhecido jurado de programas musicais da TV. Consegue imaginar quem é?

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Dali fui caminhando até a Rua Barão de Itapetininga porque queria ver uma atração anunciada como Judocas Acrobatas Muito Loucos. Fiquei sem saber do que se tratava, porque no local anunciado não havia nada acontecendo. Mas no caminho pude prestigiar uma roda de break bastante animada ali no Largo Santa Ifigênia.

Nesse trajeto também acabei dando de cara com a diva Elke Maravilha. Coisas da Virada.

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Dei meia-volta rumo à Estação da Luz, onde o show do Hurtmold já tinha começado. Ainda bem que deu tempo de pegar a segunda metade da apresentação. O som hipnotizante dos caras cheio de camadas percussivas e dissonantes caiu bem naquele cenário lindo entre a estação e o Jardim da Luz.

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A fome bateu e saí dali procurando algo para saciá-la. No Largo do Paissandu avistei um dos meus companheiros tenebrosos de outro dia, mas dessa vez não quis encarar o medo.

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Naquele mesmo ponto, atrás da Galeria do Rock, tinha um palco destinado apenas a espetáculos circenses. Passei ali num intervalo entre apresentações. Mas logo em frente ao palco, uma porção de malabaristas entretinham os passantes, com uma roda de pogo onde o último que sobrasse era o vencedor. Isso em loop e com muito bom humor.

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Com as pernas já cansadas e o relógio se aproximando das 22h, decidi voltar pra casa. Antes ainda parei na Casa da Mortadela que, se você nunca foi, vale a pena conhecer. Típica baixa gastronomia saborosa a preço justo. E fim de primeiro tempo.

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Domingo – 21/junho Uma das atrações mais esperadas por mim estava marcada para as 9 da madrugada do domingo. O despertador tocou para que eu pudesse ver o show do Curumin. E devo ter sido o único ali a fazer isso, porque enquanto tomava um pingado a maioria estava na latinha de cerveja. O horário e o frio não ajudaram muito, mas o pessoal que juntou estava curtindo.

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Voltei para o Centro depois do almoço e agora o clima estava ótimo, numa tarde de sol típica do outono paulistano.

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A intenção era assistir ao Ilú Obá de Min, grupo percussivo formado exclusivamente por mulheres, que estava marcado para as 16h00 na Praça do Correio. Mais uma vez, a programação falhou e não consegui ver o que havia sido anunciado. Porém, tinham outros grupos percussivos tocando e uma porção de gente se divertindo.

Logo ali atrás havia um palco destinado à poesia. No momento em que passei, dois rapazes soltavam o verbo contra a redução da maioridade penal.

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Subi até a Praça do Patriarca onde a programação previa 24 horas dedicadas ao chorinho. Com cadeiras e barraquinhas de comida ao redor, o ambiente estava muito agradável.

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Lá encontrei um amigo que estava saindo para chegar cedo na Praça Júlio Prestes, onde Caetano Veloso encerraria a Virada. Fomos caminhando juntos e, chegando lá, me separei dele. Queria ver outra atração no palco da Rua Barão de Limeira: o francês Féloche e sua banda, que se apresentavam pela primeira vez no Brasil.

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Talvez por ser em um horário e palco próximos ao do consagrado músico baiano, o público se resumiu a meia dúzia de gatos pingados. Mesmo assim, a mistura de chanson francesa com batidas eletrônicas agradou aos poucos que lá estiveram. Como o cara não falava português, uma ideia muito boa executada por ele foi jogar algumas frases no Google Translate do celular e transmiti-las no microfone.

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Foi com essa apresentação que me despedi da Virada. Na saída ainda tentei chegar na Júlio Prestes e ver a quantas andava o show de Caetano. Apenas para ter a certeza de que aquela multidão não era o meu lugar.

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Segundo apuração do G1, a Virada Cultural 2015 teve uma quantidade menor de delitos do que nos anos anteriores. O que parece ser resultado de um bem-vindo trabalho de planejamento por parte da Polícia Militar e Guarda Civil Metropolitana baseado nos anos anteriores. Posso dizer com segurança que vi bastante policiamento, não apenas nas vias principais como nas de passagem. Também pude perceber uma atuação constante dos varredores, na medida do possível em meio a milhares de pessoas.

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Por outro lado, falando da parte artística, é uma pena que apresentações interessantes como do Curumin e Féloche tenham recebido um público tão escasso. Se as aglomerações trazem desconforto e insegurança, palcos vazios dão a sensação de desperdício. Talvez um bom caminho seja realizar várias Viradas menores ao longo dos meses e bairros do que uma gigantesca por ano.

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E você? Esteve por lá? Como foi a sua Virada? Conte pra gente nos comentários.

Todas as fotos © Daniel Boa Nova | Hypeness

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Daniel Boa Nova
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