Inspiração

5 lições que podemos aprender sobre criatividade por Murilo Gun

Redação Hypeness - 06/07/2015 às 08:33

Quem acompanha o Hypeness, sabe como acreditamos no poder da criatividade, na capacidade que todos nós temos de encontrar uma solução criativa para os desafios que a vida pessoal ou profissional nos coloca. Por isso, não poderíamos deixar passar um dos maiores eventos sobre criatividade para resolução de problemas do mundo, o Creative Problem Solving Institute Conference (CPSI), que aconteceu na Universidade de Buffalo, em Nova York, EUA.

Para nos contar o que de melhor rolou por lá, temos como convidado Murilo Gun, que, além de ter participado do Hypeness Talks, é comediante, professor de criatividade e foi também um dos palestrantes na edição de 2015 da CPSI. Vem ler as principais lições que ele tem para compartilhar com a gente:

Meu nome é Murilo Gun, sou comediante e professor de criatividade. Isso mesmo! Eu dou palestras, aulas e cursos sobre criatividade.

Muita gente acha isso estranho porque acredita que criatividade não é algo que pode ser ensinado nem aprendido. Pois esse mês eu passei uma semana na Universidade de Buffalo em Nova Iorque, nos EUA, participando do CPSI21015, conferência anual do Creative Problem Solving Institute. É um evento que atrai pessoas do mundo inteiro para discutir técnicas de criatividade, com foco em solução de problemas – qualquer tipo de problema, seja pessoal ou profissional, simples ou complexo. Detalhe: o evento está na edição 61, isso mesmo, faz 61 anos que tem gente se reunindo para ensinar e aprender sobre criatividade. E ainda tem gente hoje em dia achando que criatividade não se aprende nem se ensina, tsc… tsc…

Dá uma olhada no vídeo que fiz por lá:

Bem, eu fui ao CPSI para aprender coisas novas e também para compartilhar minhas ideias através de um workshop sobre “Comedy Thinking – como o jeito de pensar do comediante pode ser útil para quem não é comediante”. E como parte do meu processo de aprendizagem, gostaria de compartilhar o que aprendi com os leitores do Hypeness. Isso faz parte da minha teoria “Educação Egoísta”. Explico: como a melhor forma de aprender é ensinar (na verdade, a maior aprendizagem ocorre na preparação para o ensinar), então eu compartilho (compartilhar = verbo mais modesto para “ensinar”) o que aprendi com o objetivo egoísta de fixar minha aprendizagem.

Sacou? Vamos lá!

1. O que o LEGO tem a ensinar sobre criatividade

Participei do workshop da LEGO Serious Play. É uma metodologia que a marca criou para usar suas pecinhas como ferramenta para treinamentos corporativos. Eu escolhi esse workshop entre outros vários que ocorrem ao mesmo tempo porque eu costumo falar mal da LEGO nos meus cursos. O meu argumento contra a LEGO é que hoje em dia eles só vendem praticamente caixas temáticas: LEGO do carro do Batman, LEGO do castelo do Harry Potter, LEGO da casa da Barbie etc. A criança compra e vai para casa montar aquele LEGO de acordo com a ilustração da capa, como se fosse um quebra cabeça. Nada de criação, pois já vem tudo criado. Quando eu era criança, era bem diferente: LEGO era um monte de peça aleatória e a gente criava o que quisesse.

Ou seja, LEGO passou de um jogo de criação para um jogo de memorização.

Bem, a “defesa” da facilitadora do workshop para a minha “acusação” foi boa: LEGO passou a fazer mais caixas temáticas porque o consumidor – crianças – gosta de coisas temáticas – óbvio – e a LEGO descobriu que a criança monta a ilustração da capa, mas depois desmonta, mistura com peças de outras caixas e aí sim começa a jogar um jogo de criação. Faz sentido, realmente. E um fato interessante: uma vez que a criança monta o castelo do Harry Potter, o grande problema são os pais que não querem que desmonte. Imagino até o discurso:

Isso foi caro e você vai montar uma vez e desmontar? Tem que valorizar o dinheiro, meu filho. Vamos colar as peças e deixar como decoração do seu quarto

Como eu sempre digo, nós nascemos criativos e desaprendemos a ser criativos. E até mesmo nossos pais colaboram sem querer com essa desaprendizagem.

No fim das contas, fiquei feliz em ter uma boa contra argumentação para o meu argumento, o que acredito que seja uma característica do mindset criativo: gostar de contradição, de contra argumentação, enfim, gostar “do contra”, mesmo que seja contra você mesmo. Por isso que eu adoro ver entrevistas do Silas Malafaia. Apesar de não concordar com ele em praticamente nada, admiro a capacidade dele para defender suas ideias e como ele consegue me fazer pensar de um jeito que eu nunca pensei sobre alguns temas, mesmo não concordando, mas me faz pensar.

2. O que a neurociência tem a ensinar sobre criatividade

Participei de um workshop de introdução a neurociência, que não teve muita novidade para mim porque já venho estudando esse assunto há algum tempo, mas achei legal pois aprendi um terceiro elemento do conceito de “Fight and Flight response” que costumo abordar no meu curso.

Deixa eu explicar: a parte mais primitiva do nosso cérebro – chamado de reptiliano, sempre que percebe uma ameaça ou passa por uma situação de stress, responde basicamente com:

A. Fight (lutar, brigar, não aceitar…).

Ou

B. Fly (voar, correr, fugir…).

É uma reação bem instintiva, que ocorre não só com a gente, mas também com outros mamíferos e répteis. No workshop, aprendi uma terceira reação:

C. Freeze (congelar, ficar estático, não saber o que fazer).

‘Tá, mas e o que isso tem a ver com criatividade? Para ser criativo é preciso estar sempre aberto ao novo, certo? E o novo é desconhecido, porque se fosse conhecido não seria novo, lógico. Portanto, é considerado pelo cérebro primitivo como uma ameaça. Já aconteceu com você de estar numa situação inédita e difícil, e travar sem saber o que fazer? Provavelmente é o seu cérebro em modo Freeze. Sabe quando você se depara com algo novo e fica lutando contra aquilo para defender o status quo, a zona de conforto? Pois quando acontecer de novo, reflita se você está lutando racionalmente ou se você está no modo Fight. E, se você não gostou de saber dessas coisas, talvez você esteja no modo Fly.

3. O que duas mestres em criatividades têm a ensinar sobre criatividade

Na cidade de Buffalo existe o Centro Internacional de Estudos da Criatividade, onde tem vários cursos livres, graduação e mestrado, tudo sobre criatividade. Tive a oportunidade de participar de um workshop ministrado por duas mulheres que fizeram mestrado lá. Achei legal que elas dividem em dois grandes conjuntos as habilidades necessárias para ser criativo. Vale lembrar que “ser criativo” refere-se à “criatividade para solução de problemas” e que “problemas” não necessariamente são coisas ruins, mas sim qualquer coisa que demande uma solução, ok? Os dois grupos são: Meta Skills e Process Skills. Resumidamente, Process Skills é dominar o processo de solução criativa de problemas (CPS – Creative Problem Solving): técnicas e metodologias para identificar o verdadeiro problema, respeitar o processo de incubação, técnicas de pensamento divergente e convergente etc. Mas o que eu mais gosto é o que elas chamaram de Meta Skills, que são as habilidades que você tem que ter 24 horas por dia e não somente quando se deparar com um problema. Em outras palavras, é ter um mindset criativo. São elas:

Openness to Novelty: estar sempre aberto a coisas novas, suspendendo os pré-julgamentos.

Embracing Ambiguity: estar sempre aberto a coisas loucas, aceitando o que não faz muito sentido.

Playfullness: estar sempre encarando os contratempos com bom humor, entendendo que os erros são oportunidades de aprendizagem.

A conclusão final é que:

MINDSET CRIATIVO + TÉCNICAS DE PROCESSO CRIATIVO = RESULTADOS CRIATIVOS

Simples e foda, né?

4. O que a comédia tem a ensinar sobre criatividade

Durante todo o congresso, sempre que eu dizia que iria apresentar um workshop sobre “Comedy Thinking”, todo mundo pensava que a “Comedy” a qual eu me referia era Improvisação. É porque as pessoas de lá são acostumadas a verem workshop e livros sobre improvisação/criatividade. Inclusive descobri que existe a Applied Improvisation Network, uma rede mundial de pessoas que aplicam técnicas de improvisação no mundo dos negócios, principalmente para desenvolvimento da criatividade. Isso me fez chegar a uma ótima conclusão: não tem ninguém no mundo falando sobre “Applied Stand-up Comedy” 😉

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Bem, você provavelmente deve saber a diferença entre improvisação e stand-up. O primeiro é improvisado e o segundo é roteirizado, mas o meu objeto de estudo é a diferença entre o jeito de pensar do improvisador e do stand-upper. Ambos se diferenciam das pessoas “normais” por serem caçadores obsessivos de inputs, ou seja, eles enxergam o mundo de forma diferente. É como se eles usassem 24 horas um óculos especial, como diz Seinfeld, um “comic x-ray glasses”. A principal diferença é que tipos de inputs eles buscam.

O improvisador enxerga o mundo em busca de referências para personagens que ele pode vir a precisar representar durante uma cena de improviso. Ele observa como um idoso anda na rua, como uma tartaruga se movimenta, como o protagonista da novela das nove horas da noite fala, desta forma ele aumenta o repertório. É claro que, na hora da cena, ele adiciona uma camada de exagero cômico. Já o stand-upper enxerga o mundo em busca de coisas/comportamentos que todo mundo já viu, mas que ninguém “perdeu tempo” analisando/verbalizando. Ele observa as pequenas ou grandes coisas erradas do mundo que são as contradições, ambiguidades e coisas que não fazem muito sentido, mas que as pessoas “normais” não percebem porque já virou “paisagem”. Por isso que a reação da platéia num bom show de stand-up é:

Eita, é assim mesmo…” “Putz, nunca tinha pensado nisso”.

Ou seja, o comediante stand-up é um grande catador de problemas. Só que ele não quer resolver esses problemas, mas sim fazer piadas, algumas vezes até aumentando o problema. Imagina se as pessoas “normais” usassem esse mindset do stand-upper para encontrar problemas e depois o mindset do inovador para resolvê-los? Combinação legal, hein?

Bem, eu comparei o jeito que ambos os comediantes (improvisadores e stand-uppers) enxergam o mundo, mas a principal lição da improvisação para a criatividade é o título de um livro de “Applied Improvisation” que comprei: “Yes, and…”. Resumidamente, para uma cena de improviso fluir é necessário que todos aceitem as sugestões dos colegas (Yes!) e construam em cima dela (and!), esse é o pré-requisito básico para uma boa sessão de brainstorming.

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5. O que a auto-ajuda tem a ensinar sobre criatividade

Todos nós temos um crítico interno, uma voz interna que adora remoer o passado, ficar julgando tudo que fazemos e pensamos em fazer, desvalorizar nossas habilidades, criticar nossas decisões e nos dizer que não somos capazes dos nossos sonhos. Esse crítico interno é um dos maiores bloqueadores da criatividade, afinal criatividade implica fazer diferente e sempre que pensamos algo diferente, “ele” aparece para dizer que não vai dar certo. O pior é quando tentamos algo diferente e não dá certo e “ele” aparece para dizer que não devemos tentar de novo. E como faz para demitir esse crítico interno? Baseado no que vi no workshop, criei um processo de cinco etapas:

A. Perceba: fique ligado toda vez que você tiver uma conversa interna – uma reunião consigo mesmo – e identifique a voz desse crítico interno.

B. Escreva: tente escrever no papel o que esse miserável está te dizendo, provavelmente você ficará horrorizado como o seu crítico interno é perverso.

C. Distancie: considere que o seu crítico interno é um agente externo, ou seja, ele não é você pensando de fato.

D. Discorde: já que ele não é você, você tem todo o direito de discordar dele.

E. Demita: se ele começar a encher o saco demais, quando ele começar a falar, já ignore.

Se você achou esse tópico muito “autoajuda”, talvez seja o seu crítico interno que adora taxar pejorativamente alguns conselhos como “autoajuda”, como se toda “autoajuda” fosse charlatanismo, o que acaba lhe privando de algumas “autoajudas” que de fato ajudam muito.

Bem, eu participei de 15 workshops, mas esses foram os cinco que eu achei mais relevantes. Recomendo fortemente participar do evento próximo ano: www.cpsiconference.com. E se você quiser mais conteúdo sobre criatividade, disponibilizei a primeira aula do meu curso online de criatividade em www.cursocriatividade.com.br/aula-free.

*Murilo Gun é comediante, professor de criatividade da FIAP, da Casa do Saber e da Perestroika. Foi um dos 80 empreendedores do mundo selecionados para estudar futurismo na Singularity University, que fica no NASA Research Park, no Vale do Silício, Estados Unidos. Com mais de 15 milhões de views no YouTube, apresentou o programa “República do Stand-up”, no Comedy Central, e “Amigos da Onça”, no SBT. Um dos pioneiros da internet brasileira, conquistou em 1997, aos 14 anos, o prêmio iBest de melhor site pessoal do Brasil. Criou startups no final da década de 90 e foi empresário de tecnologia por 10 anos. Ministra palestras e cursos bem-humorados sobre inovação, empreendedorismo e criatividade pelo Brasil, além de já se apresentado nos Estados Unidos, Suíça e Argentina.

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