Matéria Especial Hypeness

Da fábrica para o prato: o que acontece com os animais nesse processo

por: Mari Dutra

Antes de começar a ler este texto, eu sugiro que você se levante e abra a geladeira, como se estivesse buscando algo para comer. Aproveite para dar uma olhada também no freezer ou no congelador. Quantos dos produtos que você encontrou ali são cadáveres? A não ser que você tenha adotado uma dieta vegana, é bem provável que tenha diversos animais mortos na geladeira, prontinhos para enfeitar o seu prato nos próximos dias. Mas você já parou para pensar o que acontece com estes animais desde o momento em que nascem até chegarem à geladeira da sua casa? Nós já!

Parte dessa realidade foi mostrada aos participantes de um festival de música, como você pode ver no vídeo abaixo. Spoiler alert: as reações deles não pareceram nada boas e as cenas são perturbadoras.

A verdade é que nós estamos acostumados em ver a carne distanciada da realidade dos animais à qual ela pertenceu. Ela vem cortada em pedaços perfeitos para o consumo, separada em uma embalagem plástica e refrigerada. Mas para chegar até aí o processo é longo e cruel.

Algumas das fotos que estampam essa matéria fazem parte da série fotográfica “Mystery Meat“, de Peter Augustus. O estadunidense vive hoje em Hong Kong e foi por lá que surgiu a ideia do ensaio, conforme conta: “Ao chegar a Hong Kong pela primeira vez, as cenas que mais me marcaram foram os açougues (…) a maioria de nós nunca vê de perto com o que se parece o animal que vamos comprar e comer“. Por isso, ele quis mostrar:

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Tudo bem que provavelmente não teríamos nos desenvolvido tanto enquanto espécie caso fôssemos vegetarianos. É o que afirma o antropólogo físico Walter Neves, em entrevista à Superinteressante. Dentes pequenos e um sistema digestivo curto, como o humano, são características de onívoros. Inicialmente, nos alimentávamos de animais pequenos, da mesma forma que os chimpanzés (e, sim, isso inclui até insetos). Mas, há 2,5 milhões de anos, algum homo sapiens teve a ideia de fabricar instrumentos de pedra – e daí foi um passo para que começássemos a consumir a carne de grandes mamíferos.

Num período muito curto, nossa ingestão de proteína animal aumentou muito e foi assim que desenvolvemos um cérebro grande. Parece bem estranho, mas tudo indica que foi assim que nos tornamos seres inteligentes como você, que está lendo este post. A boa notícia é que o que fazia com que a carne fosse tão importante para nossos irmãos pré-históricos é o fato de que ainda não existiam muitos conhecimentos sobre nutrição. Hoje, graças ao aumento do nosso cérebro proporcionado pela carne, aprendemos o suficiente sobre proteínas vegetais para poder levar uma dieta vegetariana sem prejuízo para a saúde. E, sim, a gente concorda que a natureza é mais irônica do que parece.

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Mesmo assim, o último censo agropecuário realizado no Brasil indica que cerca de 171 milhões de bovinos eram criados no país em 2006. Havia ainda um total de mais de 31 milhões de suínos, 7 milhões de caprinos e 1,6 milhões de galinhas, frangos e pintos. É mais de um animal vivo – esperando para ser devorado – para cada brasileiro. A nossa média de consumo de carne reflete estes números: um brasileiro médio come cerca de 40 kg de carne bovina por ano, o que dá mais ou menos uma vaca sendo abocanhada para cada família de 5 pessoas ao ano. Quando não está assando um churrasco, o mesmo brasileiro médio consome 32 quilos de frango e 11 de porco ao ano.

Documentários como Food Inc. (assista aqui, porque vale a pena), ou como o vídeo que você assistiu acima mostram a vida cruel destes animais. Em países mais frios, por exemplo, o inverno costuma castigar o pasto, fazendo com que a maior parte do gado seja criado em áreas fechadas, apertadas e se alimentando apenas de ração. Isso sem falar na produção de vitela, que nada mais é do que a carne de bezerros mantidos em jaulas sem espaço para se movimentar, se alimentando apenas de leite. Como os bezerros tendem a ficar doentes graças à essa vida ingrata, a solução é entupi-los de antibióticos, responsáveis por restaurar a saúde do animal e piorar a sua.

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No Brasil, a vida destes animais é um pouco melhor: bois são criados soltos, comem grama, o abate a marretadas é proibido e não há produção de vitela. Mesmo assim, estima-se que metade dos abates realizados no país sejam clandestinos – e, consequentemente, não fiscalizados. Em teoria, a matança inicia com um disparo na testa do animal com uma pistola de ar comprimido que tem a função de deixar o boi desacordado. É nessa hora que uma argola é colocada em sua pata traseira e ergue o animal para que um funcionário seja responsável pelo corte de sua garganta. “O animal tem que ser sangrado vivo, para que o sangue seja bombeado para fora do corpo, evitando a proliferação de microorganismos”, conta Ari Ajzenstein, fiscal do Serviço de Inspeção Federal (SIF).

As galinhas talvez sejam as que levam uma vida ainda pior antes de ir parar no seu prato: espremidas em uma gaiola minúscula com luzes acesas por até 18 horas diárias para que durmam pouco e comam muito. Muitas delas têm seus bicos cortados para evitar brigas e não permitir que elas escolham quais partes da ração querem comer (assim comem mais daquela ração que só serve para engordar). A hora do abate é feita em estilo fordista: as galinhas são presas a uma esteira que passa debaixo de um eletrodo. Um choque e as aves estão desacordadas para então terem sua cabeça cortada. O destino dos pintinhos que nascem em granjas de ovos é ainda mais cruel: como não põem ovos, muitos deles são sacrificados logo após o nascimento em uma espécie de liquidificador gigante.

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A vida dos porcos não é muito melhor: confinados do nascimento ao abate, os animais não tem sequer espaço para se deitar direito, enquanto as porcas prenhas costumam parir amarradas em uma fivela. O atordoamento é parecido com o dos bovinos, mas feito com um choque elétrico na cabeça. A diferença aqui está no requinte de crueldade: o animal é jogado em um tanque com água fervendo após o sangramento, facilitando a retirada da pele. No final das contas, este é apenas mais um detalhe do fato de tratarmos animais como produto.

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E, bom, não vamos nem falar sobre o foie gras, já proibido na cidade de São Paulo. O patê caríssimo é obtido após a alimentação forçada de patos e gansos para que seu fígado adquira mais gordura do que o normal. Ou seja, a iguaria não passa de fígado de um animal doente.

Os peixes são reis nesse sentido, já que a maioria ainda vive feliz em seu ambiente natural até a chegada de algum pescador. Mas, mesmo assim a Organização de Alimento e Agricultura das Nações Unidas (FAO) indica que o potencial mundial de extração sustentável de peixes dos oceanos já foi alcançado há tempos… Com isso, metade do estoque marinho se esgotou – e 25% das espécies continuam sendo pescadas em volume maior que o recomendado. Cerca de 30% dos peixes que comemos ainda vem da aquicultura – no caso do salmão, esse número chega facilmente a 70%. Se as conhecidas fazendas aquáticas inicialmente não parecem oferecer crueldade aos animais, há muitas críticas em torno do modelo de cultivo controlado, que gera impactos ambientais, sociais e de saúde.

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Para se ter uma ideia, vale analisar o caso do salmão: estima-se que até cinco quilos de outros peixes são necessários para produzir um quilo de salmão em cativeiro. Assim, toda uma indústria é criada para oferecer a chamada “farinha de pescado”. Ou seja, o salmão em cativeiro acaba competindo com o ser humano pela alimentação, mas ele serve como alimento apenas para os mais ricos. É aí que os problemas sociais entram em jogo – e o documentário abaixo, com legendas em espanhol, mostra um pouco dessa realidade:

Mas, se o impacto na sociedade e na vida destes animais é de assustar, vale lembrar que há ainda outras coisas em jogo quando você degusta um suculento filé mignon. A pressão pela derrubada de florestas é também um reflexo da necessidade de pasto para os animais: 14% do desmatamento mundial ocorre na Amazônia buscando abrir espaço para pastagens. O gado ainda é responsável por quase 20% das emissões de gases do efeito estufa, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Sim, o peido de uma vaca pode ser bastante nocivo ao meio ambiente. Sem contar a quantidade gigantesca de água necessária para a produção de apenas um quilo de carne bovina: cerca de 43 mil litros, o suficiente para produzir mais de 200 quilos de tomates. Se não bastasse, estudos indicam que vegetarianos tem 40% menos chances de desenvolver câncer do intestino e do sistema reprodutor.

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Falando nisso, você até pode virar vegetariano para começar a mudar essa realidade, mas existem outras soluções para quem não está disposto a uma guinada radical no estilo de vida. Uma delas é o movimento Segunda Sem Carne, que atua no Brasil desde 2009, tendo também forte impacto nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde tem Paul McCartney como defensor. O vídeo abaixo explica de maneira divertida a ideia por trás do movimento:

Mas, além de contribuir por um mundo com menos crueldade animal uma só vez por semana, existem outras alternativas que você pode adotar. Uma delas é tentar minimizar o sofrimento dos animais, buscando alternativas de alimentação mais naturais, como ovos e galinhas caipiras ao invés de carnes convencionais, por exemplo. Estes animais são criados soltos sob o sol, com seus bicos inteiros, em companhia de galos. É praticamente um resort se comparamos à vida das galinhas que costumamos comer. A carne pode até ser mais dura do que a convencional, mas ela também é mais saborosa e muito mais saudável, por não contar com hormônios e antibióticos durante sua criação. Produtos assim podem custar mais do que os convencionais, mas são garantia de uma boa escolha e de uma mesa farta sem tanto peso na consciência.

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Abaixo dois documentários que ajudam a saber mais:

Fotos 1-4: © Peter Augustus; Fotos 5-13: © Dominic Episcopo.

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Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

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