Matéria Especial Hypeness

Fomos visitar uma fazenda de alimentos orgânicos no interior de SP

por: Daniel Boa Nova

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Das bençãos de não bater cartão: numa terça-feira logo após o almoço, minha mulher e eu dirigíamos tranquilamente pela estrada no interior de São Paulo. Embora o motivo da jornada fosse profissional, mal podíamos conter a satisfação por ser esse o programa da tarde, e não uma reunião onde os presentes viajam pelo smartphone debaixo da mesa.

Se você acompanha o Hypeness diariamente, já deve ter percebido que alguns temas e causas são valores da casa. Entre eles, uma relação mais harmônica dos seres humanos com a natureza, a busca por uma alimentação sustentável e também por modos alternativos de vida.

Na minha infância, a maior parte das refeições era feita com ingredientes vindos da feira. Uma fonte que aos muitos foi sendo substituída pelo supermercado e, mais recentemente, pelo sacolão aqui do bairro.

Porém, desde que passei uma semana sem comer carne e mergulhei nos agrotóxicos para fazer essa matéria (na qual não chequei corretamente como o Whole Foods funciona e fui gongado corretamente por alguns comentaristas – falha minha!), a maneira como consumimos alimentos em casa foi sofrendo alterações. A história que cada insumo viveu antes de nos conhecermos virou mais um item na cesta básica. Sem radicalismo ou sofrência, um dia por semana passou a ser sem proteína animal e as feiras e e-commerces de orgânicos entraram no radar.

Naturalmente, começou a brotar uma curiosidade maior sobre os responsáveis por plantar e colher aquilo que consumimos. Quem, onde e como fazem, vivem e são essas pessoas? Foi assim que a ideia dessa pauta aqui no Hypeness surgiu e culminou em uma terça-feira à tarde na Rodovia dos Bandeirantes.

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A escolha da Fazenda Santa Adelaide Orgânicos, na região de Bragança, se deu pelo motivo mais trivial possível: minha mulher seguia o perfil deles no Instagram. Uma rápida busca no Google também revelou que seu proprietário trabalhava até tempos atrás no mercado publicitário de São Paulo. Por não ter nascido camponês e estar navegando contra a corrente nesse negócio há uns anos, desconfiava que ele teria um ponto de vista singular sobre nossa cadeia alimentar. Entrei em contato por e-mail e agendamos a visita.

No portão da fazenda, as recepcionistas aguardavam ciscando com suas asas, bicos e penas. Para quem é caipira da cidade grande acostumado a escritório, impossível não se divertir com esse contato inicial.

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O lugar está a léguas de ser micro. Estradinhas internas de terra se bifurcam e são divididas por porteiras. Dobramos à direita seguindo ao lado de um pequeno açude e, pastando na outra margem, vemos um bom número de bois cujos mugidos farão parte da trilha sonora ambiente durante nossa estadia vespertina.

Mais tarde viríamos a saber que a Santa Adelaide Orgânicos é uma unidade de produção arrendada no meio de uma fazenda maior com mesmo nome, que no passado produzia café e hoje se sustenta com a venda de gado. A administração das duas é completamente separada. Mas, em um mundo onde juízos de valor maniqueístas proliferam, essa vizinhança de cerca entre manejos diferentes da agricultura já sinalizava como a questão dos orgânicos não se trata do bem contra o mal.

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No escritório da fazenda somos recebidos por David Ralitera. E também por um um café recém coado na companhia de um bolo feito no dia. O tempo está agradável, pássaros cantam ao fundo e cachorros nos rodeiam, numa típica cena rural bucólica que veste confortavelmente qualquer ser humano.

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Nascido em Montpellier, na França, David viveu dos 2 aos 12 anos em Madagascar e dos 12 aos 37 em Paris. Foi quando veio ao Brasil e passou a trabalhar no ambiente corporativo paulistano, onde permaneceu por 6 anos. Entre os clientes que atendeu nesse período estão multinacionais bem distantes do seu habitat atual, como por exemplo a Coca-Cola.

Já naquela época ele gostava de plantar e colher legumes aos finais de semana na fazenda da família de sua então esposa. Em 2012, decidiu fazer do hobby a sua vida e seguiu o caminho da roça.

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A Santa Adelaide Orgânicos possui 15 hectares, onde são colhidos 80 tipos de verduras e legumes no decorrer de um ano. Entre eles, algumas espécies esquecidas como a cenoura roxa, o nabo preto, a beringela branca e a beterraba amarela. Isso e mais uns 20 tipos de alface, outros 20 de temperos e uns 15 de frutas. Incluindo tomate, que não é caqui mas é fruta.

Brócolis, couve-flor, repolho, chuchu e mandioca também germinam naquelas terras. Sem contar as várias plantas alimentícias não convencionais (também conhecidas pela sigla PANC), como serralha, picão, trevo azedo e outras que crescem livremente sem que qualquer humano precise arregaçar as mangas.

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Diversas práticas sustentáveis são empregadas ali. A rotação das culturas para não esgotar a terra, alternando entre folhas, raízes e frutas durante o ano. O plantio de temperos lado a lado com verduras, que funciona como repelente para predadores. A proteção do solo contra o sol, baseada na preservação do mato que cresce espontaneamente entre os canteiros. A barreira contra o vento feita usando plantas mais altas como o capim gordo, para a terra não secar e exigir mais consumo de água. E também a compostagem nas modalidades laminar e de pilha. Fosse para detalhar tecnicamente cada método e como eles se realimentam de forma sistêmica, seria preciso fazer um curso com o produtor e depois escrever umas 10 matérias.

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O volume produzido surpreende. Por semana, 1,5 quilômetro quadrado de cenouras é plantado. Só de cebolas, no primeiro ano foram colhidas duas toneladas. Segundo David, a meta para setembro agora é chegar a 8: “Eu quero ter 4 meses de cebola para fornecer ao mercado. Porque na última, depois de 2 meses eu não tinha mais. E isso não é nada. Oito toneladas podem ser o consumo de um supermercado em duas semanas”. Pelas estimativas do produtor, hoje sua fazenda entrega 60% do que poderia no total.

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A aquisição daquelas cebolas por um supermercado foi um exemplo hipotético. Porque a Santa Adelaide não comercializa para grandes varejistas. David explica: “O grande varejo tem um jeito convencional de comprar, administrar e negociar. Uma roça como essa é insustentável para eles. Quem é o cara que vai deslocar um caminhão para pegar 250 kg de cenoura? Se ele manda o caminhão aqui, vai querer que eu colha pelo menos uma tonelada pra pagar o frete”.

Esse ponto esclarece em parte o motivo das pessoas acharem os orgânicos mais caros na hora de passar no caixa, mas não só ele: “Pensa no poder de barganha que um supermercado tem. Chega um pé de alface convencional e um pé de alface ogânico. Um custa 90 centavos e o outro 92, 95. Por que ele cobra R$ 2,50 no convencional e R$ 4,00 no orgânico? O custo da produção orgânica não tem por que ser mais caro. A única diferença é que quando está na época a gente tem e quando está fora não tem. O supermercado colocar o alface no mesmo preço é matar a galinha dos ovos de ouro. Eles também têm medo que a gente não consiga abastecer. O público vai querer alface americano o ano inteiro. E eu não consigo ter em janeiro”.

Além de feiras orgânicas específicas onde David monta sua própria banca, os produtos da Santa Adelaide são vendidos em cestas entregues a domicílio sem cobrança de frete. O consumidor faz um pedido avulso ou assina por determinado período e o que vem na cesta é reflexo do que tem na horta. Como não há estoque ou câmara de refrigeração, tudo é colhido após a confirmação. A fazenda se compromete a entregar 10 produtos diferentes na cesta, entre folhas, temperos e legumes. Em contrapartida, o comprador se compromete a pagar por 2 meses.

Fora do Brasil esse modelo ficou conhecido como CSA (Community-Supported Agriculture), com a única diferença de que lá as compras costumam ser feitas coletivamente. As pessoas chegam a assinar por períodos de 01 ano sem saber o que virá. Na Santa Adelaide, a lista de produtos é recebida uma semana antes da cesta e ainda é possível trocar até dois deles.  Se for pensar que muita gente se inscreve por um semestre na academia sem saber se vai frequentar, não é nada anormal. Porque comer é algo que você tem certeza de que vai continuar fazendo enquanto estiver vivo.

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Esquivando-se do modelo tradicional de distribuição para redes varejistas, o foco nas vendas da Santa Adelaide está em atender diretamente as pessoas que manejam a comida. Como cozinhas industriais, por exemplo, e também estabelecimentos gastronômicos: “Hoje os restaurantes que atendo não têm aquela crença de ‘comida orgânica’. Eles querem é saber da onde vem. Se quiser saber mais sobre orgânicos, podemos apresentar. Mas o cara compra porque ele sabe da onde vem”.

Saber de onde vem é exatamente o princípio mais enfatizado por David. Na sua visão, o conceito de orgânico parte de 3 premissas obrigatórias. A primeiro é a rastreabilidade: “Se você não sabe da onde vem, você não tem nenhuma certeza se é orgânico ou não”. A segunda é a transparência: “Se você ligar para o produtor e quiser visitar a horta, isso é permitido?“. E a terceira é a sustentabilidade: “Como as pessoas estão sendo consideradas no negócio? Qual é seu impacto no meio ambiente? E tudo isso se paga no final do dia? Porque tem muitas propostas orgânicas que não se pagam. Se responder a esses 3 pontos, é orgânico”. Por isso o produtor defende que é bem mais importante saber de onde vem do que comprar um orgânico de forma cega.

Outro ponto crucial é respeitar o que dá em cada época. Quem compra orgânicos com código de barras no supermercado mais próximo provavelmente está preocupado apenas em não ingerir agrotóxicos. Aqui cabe a pergunta: é orgânico um produto que atravessa o mundo em um compartimento refrigerado? David sentencia: “Quanto mais você compra as coisas locais, mais você entende sobre a especificidade das estações. Se você começa a querer o que não tem nada a ver com a estação, você vai comprar o diesel que trouxe essa comida até sua mesa”.

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Mas afinal, uma cidade como São Paulo consegue sobreviver abastecida apenas por orgânicos sustentados nesse tripé? Segundo David, a resposta é afirmativa: os produtores teriam como abastecer. O desafio para eles está em conseguir levar ao mercado um produto que tenha cara de alimento, e não de experimento. Já do lado do consumidor, está em parar de comprar de forma convencional, se permitindo levar outras opções quando não for a época de determinado item. Se não tiver laranja, leva acerola. Se não tiver couve-flor, leva brócolis. Com produtores mais profissionais e consumidores mais curiosos caminhando juntos, começariam as mudanças na relação entre qualidade, quantidade e preço na cadeia.

Como exemplo de que esse caminho é possível, David cita o trajeto percorrido por outros produtos alimentícios onde o consumidor subiu o sarrafo da exigência: “Acredito que vai ter um momento em que as pessoas vão começar a questionar da onde vem. Faço sempre um paralelo com o mercado do vinho no Brasil. Como se desenvolveu? Com muito conteúdo, muita informação. Hoje tem pessoas que ficam prosando a noite inteira sobre Carménère, Merlot, Pinot… O cara tem o aplicativo, lê a revista, conhece sommeliers. Mesmo que devagarinho, as pessoas começam a entender. Entra no mundo do vinho pela uva. Depois pelo país. Depois pela região. E depois por reconhecer que tal adega trabalha de tal jeito . Eu acredito que vai acontecer exatamente a mesma coisa com os vegetais. Olha o mercado de queijos em São Paulo. E o do pão? Não tem por que com vegetais não ser assim”.

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O papo está bom, mas o dia já era. Hora de juntar os brindes comestíveis que ganhamos, limpar a terra das botas e pegar a estrada novamente.

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Volto refletindo sobre tudo que vimos e conversamos naquela tarde. E fico me perguntando se veremos tão logo no Brasil essa busca criteriosa por uma alimentação sustentável sair do nicho para se tornar regra. A monocultura não está só na agricultura industrial praticada no campo. Está nos pratos e comportamentos hegemônicos dos seres urbanos. Hoje a gente se empenha mais para achar um bom mecânico ou tatuador do que para escolher quem produz nossa comida. E bradamos contra o preço de verduras sem hesitar em trocar de smartphone quando podemos. Talvez o maior obstáculo para os orgânicos esteja em tornar orgânica essa postura engajada na hora de comprar alimentos.

Ao mesmo tempo, 190 milhões de fotos no Instagram com a hashtag #food não podem estar erradas. Comer é um dos maiores prazeres da vida. O sucesso de audiência do programa MasterChef Brasil também comprova que o universo da alta gastronomia atrai cada vez mais interesse. Apesar de anunciarem redes varejistas e alimentos industrializados que provavelmente não usam nos seus restaurantes, os jurados cozinheiros não cansam de defender como um bom prato começa por um ingrediente de qualidade. E esse argumento cai como uma luva para a proposta de produtores como David.

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Todas as fotos © Daniel Boa Nova Hypeness

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Daniel Boa Nova
Redator / Roteirista / Produtor de conteúdo

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