Matéria Especial Hypeness

O que mudou nos países que decidiram regulamentar a maconha medicinal

por: Bruna Rasmussen

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Quando Charlotte e seu irmão gêmeo Chase nasceram, em 2006, o casal norte-americano Matt e Paige Figi sabia que suas vidas iriam mudar, mas não tão radicalmente. Aos três meses de idade, a menina começou a ter convulsões cuja causa os médicos não conseguiam determinar. Os ataques chegavam a durar até quatro horas e as visitas ao hospital eram constantes.

Em uma das consultas com os pediatras, foi colocada na mesa a possibilidade de se tratar da Síndrome de Dravet, uma rara e incurável forma de epilepsia, que exigia um forte tratamento com sete tipos de medicamento, entre eles, barbitúricos e benzodiazepínicos. A garota estava se desenvolvendo normalmente, falando, andando e brincando, até que aos 2 anos de idade, seu poder cognitivo começou a apresentar falhas. Quando chegou aos 5 anos, Charlotte já não andava, falava ou comia sozinha, apresentava problemas no desenvolvimento ósseo e no sistema imunológico, além de chegar a ter 300 episódios de convulsão por semana. Claramente, os remédios não estavam mais fazendo efeito e o organismo da menina estava se debilitando cada vez mais. A morte era iminente.

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Fotos via CNN

Ao pesquisar sobre a doença nas horas livres, Matt, o pai da garota, descobriu sobre um menino que também sofria da Síndrome de Dravet e estava sendo tratado com o canabidiol (CDB), um dos diversos compostos encontrados na maconha e que há décadas tem sido estudado como medicamento. O uso da cannabis para fins medicinais é liberado em quase metade dos estados norte-americanos desde 1996, mas encontrar um médico disposto a tratar com CDB uma garota de 5 anos não foi tão simples assim.

Depois de muito buscarem, os pais conseguiram dar início ao tratamento e a resposta de Charlotte beirou o inacreditável: as convulsões simplesmente cessaram. Hoje, ela usa o óleo de CBD duas vezes ao dia, voltou a andar, correr, aprendeu a andar de bicicleta e está levando uma vida praticamente normal. Os episódios de convulsão diminuíram e acontecem somente duas ou três vezes por mês.

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Fotos via CNN

A Síndrome de Drave, com a qual sofre Charlotte, é bastante rara, mas no mundo há milhares de pacientes que precisam lidar com os sintomas de doenças como o HIV, câncer, esclerose múltipla, artrite, glaucoma, asma e epilepsia, disfunções para as quais os medicamentos baseados em CDB e também outros componentes da maconha já se provaram ser úteis. Embora a planta não tenha a propriedade de curar essas doenças, seus componentes têm se mostrado efetivos para tornar melhor a qualidade de vida desses pacientes.

 A maconha e seus derivados não têm nenhum efeito espetacular. Os efeitos terapêuticos não fazem milagre nenhum. Queremos legalizar o uso porque significa mais uma opção no tratamento. O alcance dos remédios para combater a dor é limitado. Sempre há um número considerável de pacientes que não reagem. A morfina, por exemplo, que é um dos analgésicos mais poderosos que temos, não tem 100% de eficácia”, explicou Elisaldo Carlini, psicofarmacologista e professor da Faculdade Federal de Medicina de São Paulo (Unifesp), que participa de um grupo de pesquisadores brasileiros que analisa as propriedades medicinais da maconha, em entrevista ao IG.

Quando se fala em maconha, a imagem de adolescentes fumando um cigarrinho proibido em algum canto costuma vir à mente, mas as possibilidades terapêuticas da planta vão muito mais além. O canabidiol talvez seja uma das substâncias mais eficazes na luta contra o câncer, já o TCH, o componente psicoativo da maconha, responsável pela sensação de “chapar” quando usado em altas doses, também encontrou seu fim medicinal no tratamento de soldados com estresse pós traumático e no alívio de dor crônica – quando nem a morfina dá conta da dor, a maconha pode ser a oportunidade do paciente voltar a levar uma vida normal.

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Fotos via Cannabis Culture

Porém, mesmo com tantos benefícios, o uso terapêutico da cannabis é ilegal na maioria dos países do mundo. Embora em muitos deles a droga tenha sido descriminalizada, os medicamentos com seus componentes ainda não são regularizados, o que torna o tratamento difícil e extremamente burocrático para quem precisa dele. Na comunidade médica, pesa-se a pouca quantidade de pesquisas sobre os efeitos do uso da maconha a longo prazo e os possíveis danos colaterais como argumento contra. Já nas rodas de conversa, na fila do banco e nas redes sociais, as pessoas questionam os reais impactos sociais da legalização da maconha para fins medicinais – Como fica o índice de criminalidade? E o aumento do consumo ilegal? E os viciados? Como fazer o controle?

Levando em conta três dos principais países em que o uso terapêutico da cannabis já foi aprovado, os EUA, o Uruguai e Israel, fomos atrás dos resultados e de como isso impactou cada uma das nações.

Estados Unidos

Os EUA é um dos países mais avançados no que diz respeito à regularização da maconha medicinal. Hoje, 22 estados mais o distrito de Columbia têm regras efetivas que permitem o consumo da planta em suas mais variadas formas, mediante uma prescrição médica. Além destes, outros 10 estados já liberaram o uso da cannabis com fins terapêuticos para um determinado número de pacientes ou oferecem um programa de pesquisa do qual é possível fazer parte. Saber a quantidade exata de pacientes que fazem uso da droga nos EUA é uma tarefa difícil, mas estima-se que só no estado da Califórnia, em 2012, 30 mil pessoas usavam a maconha ou medicamentos nela baseados como parte de tratamentos médicos.

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Tabela via ProCon

Mas desde a regularização do uso terapêutico da maconha nesses estados, o que mudou? Um dos principais argumentos contra a legalização da planta com qualquer finalidade é que isso estimularia o uso entre adolescentes e jovens adultos. Contudo, um amplo estudo publicado na revista The Lancet Psychiatry, analisou dados de 1,1 milhão de rapazes norte-americanos por 24 anos e chegou à conclusão de que a legalização da droga com o propósito medicinal não influencia no consumo dessa faixa etária. Ao comparar a ocorrência do uso da maconha em jovens antes e depois da legalização, o percentual apresentou até mesmo uma leve queda, indo de 16,25% a 14,45% após a regularização. Nossas descobertas trazem a evidência mais sólida até agora de que o uso da maconha por parte de adolescentes não aumenta após a legalização de seu uso medicinal”, afirmou Deborah Hasin, da Universidade da Columbia, a responsável pela pesquisa.

Outra dúvida bastante comum em relação ao uso regulado da maconha é seu efeito sobre os índices de criminalidade de uma região. Usando estatísticas do FBI, o pesquisador Floris Zoutman buscou dados sobre violência e roubos em 18 estados norte-americanos que aprovaram a regularização da maconha medicinal antes de 2012. As informações do período anterior e posterior à regulamentação foram comparadas e o resultado surpreendeu: foi encontrada uma evidente queda no índice de crimes, principalmente nos estados que fazem fronteira com o México, país de onde é trazida boa parte da maconha ilegal encontrada nos EUA.

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Fotos via US News

Ao tornar a maconha medicinal legalizada, qualquer pessoa com uma prescrição pode comprá-la e até mesmo cultivá-la em casa. Os preços da maconha legal costumam ser um pouco mais altos do que a vendida por traficantes, porém, a garantia da qualidade compensa isso. Dessa forma, as vendas de maconha ilegal têm caído a cada ano, fazendo com que os traficantes diminuam o ritmo de suas atividades criminosas nesses estados e, consequentemente, os índices de violência.

Em Denver, no Colorado, estado em que tanto a maconha medicinal quanto a recreativa foram legalizadas, os crimes violentos diminuíram cerca de 5% já nos primeiros meses. Embora não se possa afirmar que a legalização diminui a taxa de crimes, é seguro dizer que ela não estimula roubos, assassinatos ou estupros. O estado apresentou ainda um faturamento total de US$ 202 milhões em venda de maconha (recreativa e medicinal) nos quatro primeiros meses de legalização – boa parte desse dinheiro é coletada como impostos, usados para fundos de saúde e de conscientização de jovens contra as drogas.

BERKELEY, CA - MARCH 25: One-ounce bags of medicinal marijuana are displayed at the Berkeley Patients Group March 25, 2010 in Berkeley, California. California Secretary of State Debra Bowen certified a ballot initiative late Wednesday to legalize the possession and sale of marijuana in the State of California after proponents of the measure submitted over 690,000 signatures. The measure will appear on the November 2 general election ballot. (Photo by Justin Sullivan/Getty Images)

Foto © Justin Sullivan/Getty Images

Outra estatística relevante correlacionada à legalização da cannabis medicinal é uma perceptível queda no número de overdose por opiáceos. Medicamentos para a dor, como a morfina, podem ser letais quando administrados de forma errada, enquanto que a maconha tem praticamente zero risco de overdose, por ser muito menos tóxica ao organismo.

A legalização da maconha medicinal impactou até mesmo o meio ambiente. Antes, muitos produtores ilegais usavam espaços públicos, como áreas em parques nacionais, para cultivar a planta, derrubando árvores nativas, acumulando lixo e fazendo uso das fontes de água da região – a maconha é uma planta que precisa do triplo de água do que um pé de alface, por exemplo. Agora, contudo, os produtores regulados pelo Estado podem plantar maconha à luz do sol e precisam apresentar ao governo um plano de funcionamento, descrevendo como será captada e usada a água e a energia para o cultivo da cannabis.

Lakewood, CO - MARCH, 4: Jars of medical cannabis line the shelves inside a Good Meds medical cannabis center in Lakewood, Colorado, U.S., on Monday, March 4, 2013. This is at a Good Meds medical cannabis center in Lakewood, and is one of the facilities that Kristi Kelly, Co-Founder of Good Meds Network, operates. (Photo by Matthew Staver/For The Washington Post)

Foto © Matthew Starver/Getty

Em 1973, o estado do Oregon foi o primeiro a descriminalizar a maconha e, em 1996, o Califórnia legalizou seu uso medicinal. Desde então, os norte-americanos têm conseguido provar no dia a dia que a legalização não é o fim do mundo: cavaleiros do apocalipse não invadiram os céus, os índices de violência não aumentaram e adolescentes não estão fumando mais maconha por isso, mas pacientes estão tendo resultados melhores em seus tratamentos, vivem com menos dores e dispensam o uso de medicamentos com efeitos colaterais mais graves. Não é à toa que a visão dos norte-americanos em relação ao uso da planta tem mudado e hoje, segundo a Pew Research, 53% deles são favoráveis à legalização da maconha, contra 12% em 1969, primeiro ano em que a pesquisa foi realizada.

Uruguai

Em 23 de dezembro de 2013, o presidente uruguaio, José “Pepe” Mujica, assinou a lei que tornou legalizado o consumo e o cultivo de maconha para fins medicinais e recreativos em todo o Uruguai. A partir dessa data, toda pessoa residente do país teria direito a se cadastrar em um banco de usuários e comprar a droga diretamente de produtores regulados pelo Estado. “Fizemos uma proposta de circuito fechado, onde o estado, sem produzir diretamente, controla todos os aspectos da cadeia produtiva“, afirmou Julio Calzada, secretário da Junta Nacional de Drogas em entrevista.

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Foto © Jeff Chiu/AP Images

Apesar do país ter liberado a droga, sabe-se que cerca de dois terços da população se posiciona de forma contrária. A medida, que teve efeito há pouco mais de um ano e seis meses, ainda não teve um impacto profundo na sociedade uruguaia e nem teve tempo de ser percebida (negativa ou positivamente) na opinião dos uruguaios. Contudo, o LACC, centro de pesquisa latino-americano e caribenho, propõe-se a acompanhar os efeitos da liberação da maconha, medindo os impactos de produção, distribuição e consumo.

“Nós sabemos muito pouco sobre os efeitos de descriminalizar e legalizar o consumo que substâncias que até pouco tempo eram consideradas ilícitas. Nós nunca vimos um país inteiro caminhar na direção da legalização dessa substância banida, então nós não sabemos o que esperar. Será uma investigação muito interessante, já que não sabemos o que iremos encontrar”, firmou Jose Miguel Cruz, diretor de pesquisa do LACC.

Um dos poucos dados acerca das consequências da legalização da cannabis no Uruguai que temos até agora é outra afirmação de Julio Calzada, informando que o Uruguai conseguiu zerar o número de mortes ligadas ao uso e ao comércio da maconha.

Israel

Em Israel, a maconha é proibida, mas desde 1992, pacientes que sofrem de determinadas doenças podem fazer o uso de medicamentos que fazem uso de substâncias da cannabis. Estima-se que 20 mil pacientes tenham acesso à droga, que é comercializada não só na forma de flores, para serem fumadas, mas também como óleo, presente em bolos, chocolates e biscoitos.

“Prescribed Grass” (A erva prescrita, em português), documentário de Zack Klein sobre o uso da maconha medicinal em Israel

O país é considerado líder na ciência envolvendo a planta e é o responsável pela maior parte das pesquisas farmacêuticas relacionadas à maconha. É o caso da Syqe Medical, empresa que desenvolveu um inalador que mede as doses usadas do medicamento, permitindo que o médico tenha um maior controle sobre o tratamento. De acordo com uma pesquisa realizada em 2013, 75% dos israelenses são a favor da maconha para fins terapêuticos.

E o Brasil?

Em dezembro de 2014, o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou que médicos prescrevam medicamentos compostos por canabidiol como tratamento para crianças e adolescentes que sofrem com epilepsia. No entanto, a burocracia e o preço do remédio, que é importado, são duas grandes barreiras enfrentadas pelos pacientes. Além disso, pessoas que sofrem de outras doenças e que poderiam ser tratados com a cannabis são vetados de o fazerem. A maconha como planta ou compostos com outras substâncias derivadas da maconha também são considerados ilegais. “A única importadora que aceitou trazer cobrava R$ 9.300 por três frascos, que não davam nem para um mês. Na Europa, o frasco custa R$ 695. Não tenho condições de pagar o que pedem“, afirmou a estudante Juliana Paolinelli Novaes, 35, que sofre de uma doença congênita na coluna e que foi a primeira pessoa a conseguir na justiça a autorização para importar um remédio com THC.

Tendo como base os avanços dos EUA, Uruguai e Israel em relação ao uso medicinal da maconha, é fácil perceber que o Brasil ainda tem muito o que caminhar em termos de legislação. Mas a esperança ainda fica.

Quer saber quais seriam as 9 consequências alarmantes da legalização da maconha no Brasil? Clique aqui.

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Bruna Rasmussen
Bruna escreve para a internet desde 2008 e tem paixão por consumir informação e descobrir coisas. Adora gatos, inovação e é curitibana – fala “duas vinas”, mas dá “bom dia” no elevador.

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