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O que tem de mais bacana no Mirante 9 de Julho, novo espaço multicultural de SP

por: Brunella Nunes

Quem passa pela região entre a Av. 9 de Julho e a Av. Paulista mal poderia imaginar que por ali havia um enorme casarão, um jardim e um mirante, em meados de 1939. No último domingo, 23 de agosto, houve uma celebração histórica para São Paulo, a reabertura do Mirante 9 de Julho, espaço multicultural que se torna um novo ponto de encontro na cidade, unindo gastronomia, entretenimento e programação alternativa.

Basta ter ido uma vez ao espaçoso vão do Masp para ter notado uma das vistas mais legais de Sampa, embora o elevado Bernardino Tranchesi atrapalhe um pouco a contemplação. O que poucos sabiam, inclusive a Prefeitura, é que a poucos metros dali, mais precisamente na rua Professor Otávio Mendes, estava uma das melhores relíquias paulistanas. Não estava abandonado, mas invisível e isso a 10 metros do museu que é cartão-postal da cidade”, disse Facundo Guerra, empresário do Grupo Vegas – responsável pela reocupação.

A história do espaço se resume em alguns episódios: o local teve sua fama quando, no lugar do Masp, estava instalado o casarão Belvedere Trianon, ocupado pela elite paulistana. Em 1968, o Belvedere cede espaço para o Museu de Arte de São Paulo, com a ressalva de que o mesmo deveria deixar o vão livre para o fabuloso mirante, que contava com uma torre de observação. Em meados de 1970, o então prefeito Paulo Maluf resolve decapitar o mirante, retirando sua parte mais alta do caminho para que fossem feitas vias, com o objetivo de desobstruir o trânsito na Av. Paulista.

A partir daí virou ponto de encontro de homossexuais entre 1980 e 1990, e seguindo o pior percurso de fama de celebridades, se tornou decadente a partir dos anos 2000, quando virou um antro de drogas e de viciados em crack. Também ficou conhecido, na história mais recente, como “Escada da Maconha”, devido ao grande número de fumantes que ali se reuniam. Os então moradores do local passaram por um processo de remoção, através da assistência social da Prefeitura, mesmo diante de algumas resistências quando souberam que o espaço seria utilizado para outros fins. Aqui era mais privado do que agora. Não dava para entrar porque o pessoal não deixava”, contou Facundo.

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Ainda segundo o empresário, foram quatro anos de projeto até que se consolidasse e finalmente abrisse as portas em agosto de 2015. Por meio de uma parceria público-privada e consórcio entre o grupo e a MM18 Arquitetura, o ícone abandonado foi retomado e agora constrói uma nova história, já cheia de expectativas. “Esta é muito mais uma devolutiva para a cidade do que algo comercial. O espaço deve representar tudo, sem ter que se apegar a uma coisa só, mas este não é um ganho financeiro”, disse Guerra, durante uma visita ao local. O investimento, de cerca de R$ 800 mil, é privado, contando ainda com o apoio da Subprefeitura da Sé, que está oferecendo alguns espaços públicos para ocupação cultural.

As mudanças no Mirante incluem visual moderno, café, bar e restaurante em sua infraestrutura, podendo ser usada ainda como espaço de coworking e ponto de encontro, sempre aberto ao público. Uma das grandes descobertas e curiosidades está em volta de uma escadaria de 1932 em espiral, bem estreita, encontrada durante as obras da reforma. Descendo você encontra a chamada Galeria Vertigem, outro espaço expositivo, bem pequeno e um tanto claustrofóbico. A ideia dos envolvidos no projeto é fazer com que o Mirante seja um suporte artístico, especialmente dedicado a performance.

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O Mercado Efêmero, comandado pela produtora cultural Lira Yuri, uma das organizadoras do pioneiro O Mercado Feira Gastronômica, e o Isso é Café, nome até então presente somente em grãos de fabricação própria, se responsabilizam pela gastronomia do Mirante. “Será um lugar para dar oportunidade para chefs que ainda não possuem restaurante. Só impus duas regras aos convidados: a de que devemos criar algumas opções vegetarianas e que o valor deve ser acessível, conta Lira. O preço mais alto do menu é de R$ 22 por um hambúrguer.

Já na cafeteria, um dos carros-chefe é o chá gelado feito a partir da casca do café e os grãos, que já dão fama ao nome. Pelas paredes está a primeira ocupação artística, que ficou nas mãos do coletivo Rolê,  grupo de fotógrafos que há dez anos realiza saídas noturnas fotografar lugares abandonados da capital paulista. A programação do espaço, que envolve feiras independentes e mostras de arte urbana, ficará nas mãos de Akin Bicudo, envolvido em projetos como o Metanol FM, grupo formado por cinco músicos que atua em produção cultural no centro de SP.

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No lançamento, o som ficou por conta dos DJ’s Abud, Hugo Frasa e Márcio Vermelho, enquanto a primeira exibição no cinema ao ar livre, que utiliza a escadaria como assento, exibiu o clássico de Glauber Rocha, “Terra em Transe”.

O tema é apropriado, afinal, São Paulo inteira parecia estar em transe com a novidade, já que o primeiro dia de Mirante foi bem movimentado. A Av. Paulista, novamente fechada para carros durante a aberta da ciclovia Bernardino de Campos, parecia um conto de fadas, com um grande número de pessoas circulando livremente pela rua e de bike. São pequenos grandes passos que, ao longo do tempo, farão uma enorme diferença na qualidade de vida de São Paulo. Estamos, enfim, num momento de  de resgate, de ocupação, de democratização dos espaços e de valorização da cidade.

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Foto: Divulgação

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Outros rumos

O Mirante 9 de Julho ainda conta com outras duas etapas. O primeiro passo já foi dado, mas ainda falta a restauração e reativação dos chafarizes da 9 de Julho. Sim, existem dois pouco notáveis na beira da avenida, que necessitam de um pouco de vida e, assim como a cidade toda, de um tanto de água. O DPH (Departamento de Patrimônio Histórico) tem um projeto para todos os chafarizes da cidade, mas neste caso é provável que seja feito um financiamento coletivo para a arrecadação da reforma.

As duas fontes marcam o córrego Saracura. “As intervenções urbanas de todo o Vale do Saracura sempre foram agressivas e pouco criteriosas nas últimas décadas, no desenho de suas ruas, na largura das calçadas e no gabarito dos edifícios em suas encostas. Agora não há como voltar atrás; é necessário um projeto de igual impacto na escala urbana, para que o cidadão reconheça a importância deste local”, conta Marcos Paulo Caldeira, da MM18 Arquitetura.

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A terceira fase será a construção de uma estrutura metálica com vidro em cima da laje do local, que servirá como galeria, mas ainda depende de negociações com os órgãos competentes. O Mirante Pacaembu, que fica do outro lado da mesma avenida, na praça Marechal Cordeiro de Farias, também chamada de praça dos Arcos. Este espaço, requalificado em concessão com a iniciativa privada, abrigará um bicicletário e um restaurante.

Foto: Divulgação

Mirante 9 de Julho

Baixo do Viaduto Bernardino Tranchesi (atrás do vão do Masp), 167 – Bela Vista – São Paulo/SP

Telefone: (11) 3111-6342

Capacidade: 350 pessoas

Entrada: gratuita

Abertura oficial com operação completa: 25/08, terça-feira  

Horários:   Espaço cultural: 10 às 22h – terça à domingo (e feriados) Restaurante O Mercado: 12 às 22h – terça à domingo (e feriados) Café e bar Isso é Café: café – 10h às 18h; bar – 18 às 22h – terça à domingo (e feriados)

Todas as fotos © Brunella Nunes | Hypeness

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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