Matéria Especial Hypeness

Hipnose: o que podemos aprender com esta prática, que vai muito além de relógios balançando e imitações em palcos

por: Redação Hypeness

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Sente-se confortavelmente e apoie as mãos no joelho. Sinta seus pés tocarem o chão. Perceba o peso das pernas. Escute a sua respiração. Respire fundo e solte o ar pela boca. Deixe os ombros relaxados e atente-se ao ar entrando e saindo dos pulmões. Concentre-se nisso. Você está ficando relaxado e quando eu contar até 10, você vai dormir… Opa! Não vai não! Afinal de contas, hipnose não tem nada a ver com sono, mas com entrar em um estado alterado de consciência, o transe hipnótico, que nos permite acessar configurações da nossa mente e do nosso organismo que em consciência normal não conseguiríamos.

Apesar de todas as galinhas que nossos colegas já imitaram em palcos de shows e de todos os GIFs na internet que prometem hipnotizar pra valer, a hipnose é uma prática séria de medicina alternativa, reconhecida no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina de Odontologia e também pelo de Fisioterapia, e que ajuda pessoas a enfrentarem problemas psicológicos e também físicos – afinal, a mente é o centro de comando do corpo, não é mesmo?

Você deve achar que já sabe tudo o que precisa sobre hipnose – dos reloginhos balançando ao controle de mente. Mas não é bem por aí. Estar hipnotizado, segundo a Associação Americana de Psicologia, significa atingir um estado de atenção focada, em que a atenção periférica é reduzida, ampliando a capacidade de resposta da pessoa a sugestões.

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O Hipnotizador é uma série da HBO que trata sobre hipnose. Imagem © HBO

Sabe quando você está lendo um livro e a história te prende de forma que você ignora tudo o que acontece ao seu redor e nem vê o tempo passar? Ou quando você chega com o carro na garagem de casa e pensa “nossa, como eu vim parar aqui?”. Pois bem, pode-se afirmar que estas situações corriqueiras são, de certa forma, hipnose. Isso porque você estava tão concentrado no livro ou em seus próprios pensamentos enquanto dirigia que nem prestou atenção ao que acontecia em sua volta.

Hipnose é uma superconcentração da mente. Normalmente a mente se ocupa de vários estímulos ao mesmo tempo; no estado de hipnose, a concentração se dá apenas em uma única coisa, mas em um grau mais elevado do que o estado comum”, definiu o Dr. Sydney James Van Pelt, um dos pioneiros da hipnose moderna, lá em 1949.

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Foto via Anxiety Cure

A hipnoterapia, o uso terapêutico da hipnose, tem sido empregado há várias décadas e é indicado para tratar problemas que vão desde o tabagismo e a compulsão alimentar (sim, hipnose pode ajudar a emagrecer!) até dores crônicas. Em cirurgias, quando aliada à anestesia, a hipnose tem se mostrado extremamente benéfica, reduzindo dores no pós-cirúrgico. E, claro, a hipnoterapia é uma ferramenta bastante utilizada como complemento à terapia em casos de depressão, ansiedade e fobias.

As pessoas veem na hipnose uma alternativa aos procedimentos convencionais, em geral morosos. A hipnose, quando utilizada como ferramenta terapêutica, alcança resultados rápidos e eficazes. Em muitos casos há até uma visão errada da prática, como uma panaceia, um remédio para todos os males. A hipnose também tem suas limitações, mas esta visão distorcida se dá pelo desconhecimento da população”, afirma David Bitterman, professor de hipnose clínica e hipnoterapeuta do Hipnose Curitiba em entrevista ao Hypeness.

Como funciona a hipnose

A fim de entrar no transe hipnótico, você precisa se concentrar. Para isso, há diversas técnicas, como a fixação do olhar (reloginhos balançando, velas), as narrações verbais (“imagine que você está em uma praia deserta…”), o uso de estímulos rítmicos e monótonos (tom de voz) ou ainda o uso de aparelhos eletrônicos que estimulam as ondas cerebrais alfa, responsáveis pelo estado hipnótico.

Com o uso apropriado desses métodos, o transe é induzido gradualmente e pode ser definido como leve, médio ou profundo, o que depende da própria pessoa ou do momento. Em um transe leve, há a diminuição dos movimentos, catalepsia e uma menor frequência da respiração e do pulso. No transe médio, a catalepsia aumenta, os músculos ficam extremamente relaxados e os olhos podem se movimentar. Já no transe profundo, o olhar fica vago, como se a pessoa fosse um sonâmbulo.

Durante a indução hipnótica, o uso de palavras como “sono” e “durma” não é raro, mas é imprescindível deixar claro que hipnose e sono são duas coisas bem diferentes. Na hipnose, você está consciente, embora em um estado alterado, e em hipótese alguma poderá ser levado a fazer coisas que não quer. Controle de mente é algo que, pelo menos na hipnose, non ecziste!

Para entrar no transe, você precisa, antes de qualquer coisa, estar confortável. E isso inclui a sua relação com o hipnólogo. A hipnose trabalha com a premissa de confiança e cooperação entre as partes, exigindo um canal de comunicação sem barreiras para ser bem sucedida. Dessa forma, bastaria qualquer indício de violação desse contrato, como o hipnólogo sugerir que você fizesse algo que fere os seus princípios morais, para que o estado de transe fosse interrompido. Sendo assim, esqueça todas aquelas histórias de assassinos hipnotizados e pessoas que “ficam presas no transe”.

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Imagem/Reprodução

Curiosidade: o psiquiatra norte-americano Milton Erickson facilitava o estado de transe nas pessoas com um simples aperto de mão. Usando o polegar, ele massageava o pulso do sujeito, deixando-o relaxado e achando a situação pra lá de esquisita.

Mas será que qualquer pessoa é capaz de entrar em transe hipnótico? Segundo Bitterman, “há algum tempo acreditava-se que somente 5% da população alcançava um nível profundo de transe hipnótico. Com o avanço das pesquisas e práticas, bem como o crescente número de estudiosos e ainda as contribuições de renomados hipnólogos a exemplo de Dave Elman e Milton Erickson, pode-se dizer que a capacidade de ser hipnotizado está diretamente ligada com a habilidade do hipnólogo.” O profissional da hipnose, portanto, atua como facilitador do processo, ajudando o paciente a entrar em transe. Basicamente, toda hipnose é uma auto-hipnose.

Com um amplo histórico de charlatões na ficha, é claro que o preconceito vem à tona quando se fala em hipnose. Mas se a sua pergunta é “funciona mesmo?”, a resposta é: sim. Estudos científicos monitorando as atividades cerebrais comprovam que a hipnose não é fingimento, placebo ou falcatrua: trata-se de uma simulação perfeita de realidade, já que a pessoa pode sentir, ouvir e ver o que é sugerido pelo hipnólogo. E da mesma forma que o hipnotizado pode imitar uma galinha, ele pode ser levado a neutralizar o incômodo de uma dor, superar medos e deixar de fumar. Mas como afirmou o hipnólogo norte-americano William Blank, “a hipnose é, na pior das hipóteses, o melhor placebo do mundo.”

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Imagem via Hypnosis Minnesota

Regressão hipnótica

No estado hipnótico, as pessoas podem ser sugestionadas com mais facilidade, o que permite que o hipnólogo conduza alterações de percepção, de hábitos (para de fumar ou não comer por ansiedade, por exemplo) e acesse memórias da infância ou ainda memórias “bloqueadas”. Como explicou ao Hypeness a psicóloga Neiva Melamed, a repressão psicológica é um dos mecanismos de defesa do ego e é capaz de nos fazer “esquecer” de memórias traumáticas, como em caso de sequestro ou abuso, para nos preservar. Um dos usos da hipnose, então, seria desbloquear essas memórias por meio da regressão e, com auxílio da terapia, digerir esses acontecimentos de uma forma mais racional.

Para Bitterman, “[a] regressão é uma técnica utilizada na Hipnose. Ela é natural, é o ato de relembrar, só que sob o efeito da hipnose podemos causar uma hipermnésia, ou seja, proporcionar um aumento na capacidade de recordar eventos do passado ou presente”,

E para alguns pacientes, esses eventos podem ir tão além no passado que revelariam vidas anteriores. “Quanto a isso, tudo depende da crença de cada indivíduo. Para o terapeuta não importa, ele está diante de um livro sendo escrito e sua função é conduzir para que possa ressignificar ou identificar algo. O importante é salientar que hipnose nada tem a ver com religião. É uma técnica apenas”, afirma o hipnólogo.

Qual é a sua memória mais antiga? Você com seu brinquedo favorito na infância? Os amiguinhos, talvez? A sua mamadeira? Nós temos a mania de enxergar a memória humana como uma câmera filmadora, que registra todos os momentos de nossas vidas com perfeição, apagando os menos importantes à medida que tempo passa. Afinal, lembrar-se do seu café da manhã no dia 24 de janeiro de 2003 é bem menos importante do que lembrar o seu primeiro beijo, um Natal em família ou o rosto do seu melhor amigo do ensino fundamental.

Mas a verdade é que a nossa memória está longe de ser objetiva. Nas últimas décadas, estudos científicos comprovaram que a memória humana é mais passível de falhas e distorções do que imaginávamos. Isso porque a memória não é um “arquivo”, mas um processo de reconstrução e pode sofrer mudanças com os anos. Isso significa que o seu caminhãozinho vermelho, do qual você tanto gostava aos 7 anos, talvez tenha sido azul, diferente do que sua mãe sempre conta, você nunca tenha se perdido no supermercado – a memória dela jura que sim, mas quem se perdeu, na verdade, foi o seu irmão!

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Imagem via Natural Therapy

Essa fragilidade da memória é uma grande e perigosa brecha que temos em nosso sistema. Afinal, se eu não lembro bem ao certo o que aconteceu, posso ser influenciado a acreditar em eventos falsos e assumir memórias que não são minhas. E aí está o maior desafio da hipnose de regressão. Afinal, em um estado de transe, você pode ser levado a crer em muitas coisas e isso depende exclusivamente da ética do hipnólogo.

No Estados Unidos, durante as décadas de 80 e 90, a comunidade de hipnólogos foi bombardeada por acusações e processos judiciais de pacientes que teriam sido alvo de maus profissionais que teriam “recuperado” memórias de abusos sexuais que nunca aconteceram. E aí você já pode imaginar o resultado: famílias destruídas e muita confusão.

A dificuldade de separar memórias reais da imaginação também é um desafio diário para times de investigação policial que usam a hipnose como mais uma ferramenta para tentar resolver crimes. No Brasil, o Instituto de Criminalística do Paraná usa a hipnose como técnica auxiliar forense desde 1983. Além de auxiliar nas investigações, a prática ajuda vítimas e testemunhas na criação dos retratos falados.

A hipnose serve para auxiliar as investigações, possibilitando às vítimas recordarem de detalhes antes esquecidos. Sobre a questão de  falsas memórias, é justamente esse trabalho em conjunto com a Polícia que garante separar das memórias reais, entretanto a habilidade experiência do hipnólogo contam muito para perceber os sinais (e micro-sinais)  no indivíduo e filtrar isso”, afirma Bitterman.

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Foto © HBO

Muita gente tem curiosidade em relação a hipnose, mas a verdade é que é impossível transmitir seus efeitos e sensações só com palavras. Por isso, a HBO, que lançou no último domingo (23) a série original “O Hipnotizador”, resolveu promover a estreia de forma bem criativa (e hipnótica!) e criou um circuito que incentiva os visitantes a se aprofundarem cada vez mais nos universos da série e da hipnose.

O circuito tem de tudo, começando por uma sala com imagens que provocam ilusões de ótica, passando por um espaço que simula a ausência de gravidade, além de uma sala de espelhos pronta a brincar com a mente de qualquer um e de um espaço para fotos que simulam levitação. Quando os visitantes já estão devidamente “hipnotizados”, passam para um quarto de hotel, onde o objetivo é achar pistas e segredos espalhados pelo ambiente para libertar um dos personagens da insônia eterna. E aí, curioso?

Esse espaço, chamado O Hipnotizador – Hipno Experience, vai estar disponível até 31 de agosto, no Shopping Cidade São Paulo, segundo andar, e vale muito a visita. No final, os participantes vêem as fotos tiradas – que podem ser enviadas para o Facebook – e ainda podem conferir promos e imagens de bastidores da série.

“O Hipnotizador” está no ar desde o passado domingo e é uma produção original, bilíngue e para lá de incrível, que conta a obscura história de Arenas (Leonardo Sbaraglia), um verdadeiro detetive do inconsciente, que resolve mistérios em um labirinto de memórias e pistas invisíveis.

Se isso aumentou sua curiosidade, imagina o preview do segundo episódio, que você assiste logo abaixo:

Arenas  é um enigmático hipnólogo que chegou a uma pequena cidade para ajudar pessoas a entenderem sonhos e a resgatarem memórias por meio da hipnose. Calculista e reservado, ele mora em um estranho hotel e também ganha a vida apresentando shows de hipnose em um teatro local. Mas isso é só uma desculpa para resolver um problema maior, mais complexo e íntimo. O homem busca encontrar peças de experiências de sua vida que considera estarem perdidas, além de precisar lidar com uma condição tenebrosa: a insônia eterna.

É aí que entra Darek (Chico Diaz), hipnólogo rival que usa as técnicas de hipnose para adquirir poder e manipular pessoas. Arenas precisará passar por Darek se quiser se libertar de seus demônios e ajudar as outras pessoas. A série é uma adaptação da HQ “El Hipnotizador”, dos argentinos Pablo De Santis e Juan Sáenz Valiente.

Para saber mais sobre a série, siga o link ou acompanhe pelo Facebook.

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