Desafio Hypeness

O que aconteceu quando decidi escrever cartas para meus velhos amigos

por: Mari Dutra

Começo pelo lógico: o mais difícil foi decidir para quem enviar uma cartinha. E a decisão me custou quase uma semana, sendo pautada por diversos critérios. O principal deles era que só receberia uma cartinha quem morasse em outra cidade, de preferência bem longe. Pelo simples fato de que quem mora perto já tem um abraço e as portas de casa abertas a hora que quiser e eu acredito que as cartas são uma maneira de abraçar, mas à distância.

O outro critério, esse um pouco mais impreciso, era um termômetro de amor misturado com saudade. Tipo, sabe aquela pessoa que a gente não vê há anos, mas de repente fala sobre ela como se fosse ontem? É um tipo de amizade que sobrevive a oceanos de distância e algumas eras de separação. Foi aí que eu cheguei numa listinha de gente linda, que eu não vejo há mais de ano, mas mora no meu coração mesmo que eu não tenha a resposta pronta quando me perguntam “e o fulano, que fim levou?“. No fim, as pessoas para quem escrevi eram amigos para quem já tinha planejado escrever mais de uma vez – e até pedi o endereço de alguns em outras ocasiões.

Mas, antes de começar a brincadeira, resolvi comprar envelopes e papéis coloridos, porque se é para me dedicar a enviar cartas uma vez na vida, que elas ao menos sejam charmosas (e também porque só tinha algumas folhas de caderno velhas aqui em casa, já que não somos muito adeptos do papel.) Então aproveitei um fim de tarde e fui vasculhar folhas coloridas na papelaria. Voltei com um pacotinho com folhas A4 de todas as cores e alguns envelopes fofos nas cores amarelo e laranja.

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Depois disso veio a segunda parte: mensagens pedindo o endereço dos amigos, uma coisa que ninguém mais faz há pelo menos uns 15 anos. Enviei a pergunta pensando que talvez ninguém nem me respondesse, porque é algo bem inusitado. Mas a surpresa foi linda: além do endereço, recebi mensagens cheias de amor e saudade de amigos que não vejo há alguns anos. Alguns contaram que sonharam comigo, outros que lembram sempre de mim. Planejei que, junto com a cartinha, enviaria uma lembrancinha para os amigos distantes.

Saldo do dia: confidências e papos no melhor estilo “lembra aquela vez?“. Rolou até aquela marejada sincera no olho, que escondi com perfeição – ou quase.

Primeiro desafio transposto, agora era hora de colocar a mão na massa – ou na caneta – e começar a escrever as cartinhas. E só tenho uma coisa a dizer: foi bonito e estranho ao mesmo tempo.

Bonito porque parece que o papel chama mais assunto, aquela coisa que as cartas tinham de contar sobre a nossa vida e perguntar sobre a vida do outro, dedicar um tempo só para escrever para aquela pessoa. Enquanto na internet a gente acaba fazendo mil coisas ao mesmo tempo em que envia uma mensagem, no papel a dedicação é exclusiva.

Mas foi estranho porque eu já não lembrava mais como era escrever algo sem saber quando a pessoa vai receber, pensar que a mensagem pode demorar dois dias ou dois meses para ser lida e também cogitar a possibilidade de que ela possa se perder pelo caminho, como outras cartas que já mandei. Querendo ou não, ainda confiamos mais no Google do que nos Correios. Aprendi a escrever no futuro e contar o que deverá acontecer nos próximos meses, quando as pessoas receberem as mensagens.

E teve também aquela sensação meio infantil de como era bobo escrever cartas – afinal, as últimas cartas escritas por mim foram há bem mais de 10 anos e tinham adesivos ou recortes da revista Capricho no meio. Confesso que essa sensação de adolescência tardia foi reforçada pelas cores chamativas do papel que comprei para escrever as cartinhas.

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Ontem ainda, conversando com meu namorado à noite, percebi que uma outra diferença maluca é que, diferentemente das mensagens que trocamos online – e que podemos sempre consultar na pasta “enviadas” do e-mail ou no histórico de conversas do Facebook -, eu nunca mais veria o que tinha escrito. Era fechar o envelope e dizer adeus à cartinha de vez. Foi aí que ele me contou que, antigamente, algumas pessoas escreviam usando papel carbono por baixo da carta, criando uma cópia automática de tudo que havia sido escrito – assim, era possível consultar as mensagens depois.

Mas, voltando ao desafio: mandar cartas era mais difícil do que eu podia imaginar. Um dos endereços dos amigos veio sem CEP e o site dos Correios me informava que o endereço não havia sido encontrado…. Outro amigo estava se mudando e, segundo o prazo oferecido pelos Correios, a cartinha poderia chegar depois que ele já tivesse partido. Um terceiro caso foi o da amiga nômade que pediu que eu enviasse a carta para a casa dos pais, onde passaria para uma visita nos próximos meses.

E quem disse que eu sabia em que lado colocar remetente e onde colocar o destinatário? Lembro de ter aulas sobre isso na escola, mas isso faz décadas agora. Nesses casos, só o Google salva. E lá fui eu googlear minha dúvida até achar a resposta no site dos Correios.

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Quando cheguei na agência dos Correios, tive que confirmar minhas dúvidas e me surpreendi ao descobrir que: sim, o remetente sempre vai no lado da frente da carta. Daí tive que contar com a ajuda da canetinha presa à mesa por uma corda e do pincel de cola para terminar a minha “obra de arte” que seria enviada naquele momento. Por alguns minutos, cheguei a acreditar que eu tinha voltado no tempo e estava dando uma voltinha desavisada pelos anos 80.

Ainda não sei como as cartinhas serão recebidas ou quando chegarão ao seu destino, mas a experiência valeu pela oportunidade de colocar tanta dedicação num pedacinho de papel e tanta confiança nos Correios que, se tudo der certo, deverão entregar as correspondências em até 20 dias úteis nos endereços indicados. Agora é esperar o resultado. Quem sabe eu volto aqui para contar como foi a recepção?

E você, há quanto tempo não escreve uma carta para saber como estão seus amigos de infância? Topa entrar no desafio? Então publique suas cartinhas nas redes sociais com as #desafiohypeness15 e #cartasparaamigos. Queremos saber como foi voltar ao passado!

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Todas as fotos © Mariana Dutra

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Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

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