Roteiro Hypeness

Como o graffiti transforma a vida e o bairro do Grajaú em SP

por: Brunella Nunes

Longe da região central, o Grajaú já teve períodos difíceis, sendo estampado em índices e noticiários como a pior região para se viver em SP. Violenta, marginalizada e com baixa qualidade de vida, o distrito está tomando novos rumos mesmo que ainda seja alvo de preconceito daqueles que se recusam a enxergar um outro lado. Andamos pelas ruas do bairro na companhia de artistas envolvidos no graffiti e descobrimos que há muito mais a se ver e fazer do que querer se afastar da periferia.

Com mais de 500 mil habitantes, a região é a mais populosa de SP. E no meio de tanta gente eis que surgem talentos criativos como Mauro Neri e Wellington Neri, o Tim, Enivo e  Jerry Batista. Junto com eles, Conrado Zanotto, Zezão, Titi Freak, Tinho NomuraMatias Picón, Alexandre Orion, e Pas Schaefer migraram para pintar os muros e colaborar com o projeto Transformações, que visa expandir o potencial artístico local e transformá-lo numa galeria a céu aberto.

Os percursores do movimento na região foram Jerry e Niggaz, em meados.de 1997, que acabaram apadrinhando outros artistas como o Enivo, chamado de Vini pelos amigos. “Ele influenciou muita gente e tem uma das maiores produções culturais no bairro”, disse Tim. Niggaz infelizmente não está mais entre nós, pois faleceu em 2003, aos 21 anos, de maneira trágica.É o tipo de cara novo, talentoso, que morre cedo, sabe?. Sei…mas seu legado será eterno, e é celebrado anualmente por grafiteiros durante um encontro que leva seu nome, assim como tem um local em sua homenagem na Vila Madalena, o Beco Niggaz.  

Jerry segue na ativa como artista e sócio na galeria A7MA. O encantamento pela arte veio através do irmão, que desenhava, e um dia viu Vladimir e Babu grafitando na rua, o que causou encantamento instantâneo. Com o desejo de passar uma mensagem a diante e influenciados pela cultura hip-hop, montou com alguns amigos um grupo de grafite chamado Afro – antiga assinatura de Jerry – e o jornal Grafitare, do qual Niggaz era parte. “Nesse processo fomos nos conhecendo bastante e expandimos nossos graffitis para fora do Grajaú, e na época eu fazia um ursinho e o ele pintava uma abelha”, disse ao Hypeness.

Assim quebravam tabus pois iam conhecendo outras regiões e assim espalharam suas artes. “Acho muito lindo o que está acontecendo hoje. Era um desejo, isso foi plantado. As pessoas envolvidas na cultura foram professores e multiplicaram essa essência e conhecimento”. Nomes como Criolo, Jerry, Mauro e Enivo foram professores e agora os alunos também se tornam multiplicadores de uma nova escola. E Jerry continua: “e as meninas também estão representando bastante. Isso me deixa realizado…aquilo que se criou lá atrás ter ganhado a força que tem hoje. A arte evita problemas porque faz os envolvidos pensarem em suas carreiras.

Voltando ao passeio, fui guiada pelos irmãos Neri, do projeto Imargem, através das ruas do distrito. Um dos pontos mais magníficos do dia foi certamente pelo Parque Linear Cantinho do Céu, às margens da represa Billings. O local, tranquilo que só, é onde as pessoas se reúnem para brincar com o cachorro, empinar pipa, passar um tempo, praticar canoagem com o projeto Meninos da Billings e apreciar o imponente mural feito por Enivo, no Jardim Lago Azul, do qual outros artistas também colaboraram pintando cada casinha. “Minha inspiração para a criação do mural foi a minha história, pois cresci no bairro vizinho e sempre visitava o Lago Azul. Então representei o jovem artista Caio Cartenum, o Timoneiro EU, que é um exemplo de muito talento na periferia” explicou o artista.

O enorme mural tem bastante impacto e reflete no quanto a arte é importante. “Quando penso nele e em outros muitos jovens que estão fazendo cultura me emociono, pois vejo frutos de uma história que estamos plantando há quase 20 anos na região do Grajaú, por meio do graffiti, música, skate e outros esportes de periferia”, se orgulhou Enivo. O graffiti foi a ferramenta que me fez existir e acreditar em mim, no meu potencial, uma forma de mostrar pacificamente a força de nossa cultura. E isso vem acontecendo nos bairros. A arte serve como agente transformador para estes jovens”.

No mural de Enivo, se lê a frase de Mano Money’s no rodapé: “Ânimo… pois somos feitos dos sonhos do tamanho que a gente quiser”.

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A curadoria do projeto Transformações, custeado pela Atento, ficou nas mãos da diretora artística Carola Trimano, integrante do ateliê Pássaro de Papel, que procurou encontrar muros onde a arte poderia ter mais durabilidade. A ideia é deixar como legado a criação e continuidade de oficinas profissionalizantes. “A alma do projeto é a capacitação e geração de renda”, contou. O Imargem ficará com a responsabilidade de não deixar as coisas se perderem no tempo.  

No caminho, Mauro Neri notava o entorno e comentou: aqui as casas são muito efêmeras, estão sempre em construção. Por esse motivo, as intervenções urbanas ficam ainda mais sucintas à desaparecerem, o que faz parte do processo e da vida cotidiana de um artista de rua. E o spray não para nunca. A cada oportunidade que encontrava, como uma pilha de sucata e outra de tijolos, lá estava Mauro escrevendo alguns de seus jogos de palavras típicos, como “ver/verde, veracidade/ver a cidade”, que se espalham por São Paulo inteira.  

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Fomos até o CEU Navegantes onde há uma pequena mostra do projeto e o mural gigantesco “Apreensão”, de Alexandre Orion, feito durante a Virada Sustentável de 2014. A obra, inspirada na filha dele, mostra uma criança brincando ou destruindo as casas, interagindo estrategicamente com o entorno real. A obra, que causa reflexão sobre as desapropriações frequentes no Grajaú, foi feita com fuligem da cidade, por meio de uma técnica que mescla poluição e base acrílica incolor.

A penúltima parada do dia foi no mural feito por Conrado, em frente a represa, numa rua de terra e em muros degradados. Valorizo muito estas experiências de pintar afastado do centro da cidade, pois parece que quanto mais distante do centro maior a interação com as pessoas”. E o graffiti acaba trazendo esse conceito de união a partir do momento que os cidadãos questionam o que está escrito ou pintado. “As cores e as formas ganham interpretações diversas e agem no subjetivo de cada um, seja ele morador ou transeunte”.

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Alexandre Orion

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Conrado Zanotto

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Por fim, chegamos ao ateliê do Imargem, onde conhecemos o trabalho de tipografia e pintura elaborado por Tim, feito em parceria com o irmão. Percorremos o ateliê, tomamos um cafézinho e então lá vem o Tim, todo animado. “Não, peraí…vocês têm que conhecer lá em cima, lá é o melhor lugar!”. Subindo uma escada estreita, enfim, alcançamos a vista que tanto inspira essa galera. Um tanto metafórico, o topo mostra não só a represa e seus entornos, que chegam até algumas cidades do Grande ABC, mas o quanto podemos ir tão, tão longe.

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Tim e Mauro Neri

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Jerry Batista

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Zezão

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Mauro Neri

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Intervenção feita com lambe-lambe na feira, por Alexandre Orion.

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Pas Schaefer deixa sua mensagem no rodapé: “cérebro, um ninho de cobras”. 

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Há alguns anos, o Imargem pintou este mapa da região para as pessoas se encontrarem melhor. 

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Matias Picón

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 Tinho Nomura

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Titi Freak

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Foto: divulgação

Para participar das atividades com barcos e caiaques no Meninos da Billings aos fins de semana, ligue: (11) 99131-3172.

Todas as fotos © Brunella Nunes | Hypeness

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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