Desafio Hypeness

O que aconteceu quando tentei (e não consegui!) passar uma semana me alimentando de comida crua

por: Daniel Boa Nova

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Nada de enlatados, nada de processados. Uma massinha integral ou pão feito em casa? Nem pensar. Mesmo que fossem legumes orgânicos frescos adquiridos direto do produtor na feira do dia, nada de levar ao forno, cozinhar na panela ou usar a frigideira. Este que vos fala deveria viver uma semana à base de alimentos crus.

Então quer dizer que o Hypeness agora vai usar os desafios para promover a última dieta do momento? Calma, não é bem assim.

Certamente, você conhece alguém que está em meio a uma dieta. Se é que essa pessoa não é você. Tem a Dukan, a da papinha de nenê, a do vinagre e outras mais. Assim como o tempo e o trânsito, dieta é um assunto recorrente nas baias de escritório. Até porque, a cada semana surgem novas manchetes dizendo como você pode emagrecer seguindo as dicas de tal celebridade da novela ou do red carpet.

No caso do crudivorismo, apesar de uns tantos embaixadores famosos, não se trata de uma fórmula para perder peso antes do verão. É um estilo de vida. Que está relacionado a questões de saúde mais profundas do que apenas mudar a silhueta, algo possível de se conquistar de diversas formas menos restritivas. E a proposta do desafio da vez era passar 7 dias de acordo com essa conduta.

Também conhecida como alimentação viva (e, em inglês, raw foodism), a dieta crudívora se baseia em fundamentos de caráter nutricional. Seus praticantes defendem que, no processo de cozimento, a alta temperatura destrói as principais enzimas presentes nos alimentos. Já quando comemos algo cru, a preservação dessas enzimas permite absorver mais e melhores nutrientes. Para multiplicar o processo, crudívoros costumam incluir porções de sementes germinadas em suas refeições. Sementes de trigo, girassol, quinoa e gergelim, que se unem a verduras, legumes e frutas em estado natural.

Outro ponto levantado pelos adeptos é que a dieta amplia nossa capacidade digestiva. Dada a grande quantidade de água e clorofila que uma refeição crua oferece, a digestão demanda menos do sistema circulatório, liberando sangue para a oxigenação e regeneração de tecidos, músculos e cérebro. Por esta razão, o sono ou cansaço que costumamos sentir após as refeições não é algo comum para crudívoros.

Tem ainda a questão do PH. Doenças degenerativas tomam corpo em ambientes com PH ácido e estagnado. Para nossa saúde, melhor seria manter um PH alcalino. Só que os alimentos cozidos contribuem na acidificação do organismo, aumentando os riscos de desenvolver doenças desse tipo. Ou seja, a dieta crudívora constitui uma forma de desintoxicação e prevenção.

O objetivo aqui não é escrever uma tese nessa área. Até porque sou de Humanas. Mas existe uma extensa bibliografia dando conta da alimentação viva e explicando melhor como funcionam as enzimas. Caso tenha interesse em explorar mais o tema, alguns livros recomendados são “The 80/10/10 Diet”, de Douglas N. Graham e “Essencial – A Arte da Gastronomia Sem Fogão”, de David Côté e Mathieu Gallant. Devo essas indicações e mais vários esclarecimentos preciosos à Renata Ribeiro, física da USP e adepta da dieta crudívora com quem troquei um punhado de e-mails.

Renata me contou que, por princípios, já era vegana há 4 anos. Ao passar por algumas complicações de saúde no início deste ano, ela procurou e encontrou ajuda na alimentação viva. Além dos exames médicos apontarem que seu estado geral é ótimo, Renata me falou sobre algumas melhorias mais sutis: “Sinto-me muito bem, com uma clareza mental que há tempo não sentia e com uma disposição bem maior que a que eu tinha. Eu vivia tendo problemas com resfriados frequentes, dores de estômago… e hoje não sei o que é isso”.

Como o exemplo de Renata aponta, muitos crudívoros são também veganos. Mas os dois grupos não necessariamente se sobrepõem. O primeiro habita o campo da nutrição e da filosofia. Já o segundo se sustenta na ética e na questão ambiental. Há inclusive uma linha carnívora dentro do crudivorismo e, como não sou vegano, foi essa que me propus a seguir. Se não ia nem poder refogar uma abobrinha durante a semana, que pelo menos tivesse um desconto mandando ver no kibe cru.

Sendo segunda-feira o dia internacional de começar qualquer dieta, foi no último 14 de setembro que iniciei o experimento.

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Abri os trabalhos matutinos com duas bananas amassadas cobertas com mel, canela e chia. Não posso me queixar pois estava uma delícia. Porém, no meu conceito, impossível chamar algo de café da manhã se não tiver café. É no máximo um desjejum.

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Após visitar recentemente uma fazenda de orgânicos no interior de São Paulo, me tornei assinante das cestas que eles entregam em domicílio. O resultado é que a geladeira de casa deixou de fazer aquele eco de tempos atrás para adquirir esse aspecto mais saudável aqui.

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Quando chegou a hora do almoço, não pensei duas vezes antes de preparar uma salada. Alface crespa, alface romana, acelga, cenoura, nabo e rabanete. Tudo sem agrotóxicos e de origem conhecida. O charme do prato ficou por conta das lascas de amêndoas e folhas de hortelã – essas últimas nascidas em um vaso que mora na varanda de casa.

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No tempero, sal, pimenta do reino e limão. Ei, posso acrescentar um pouco de mostarda? Negativo. E, para seguir corretamente os preceitos, o azeite também precisaria ser cru. Por sorte já contava em casa com um exemplar espanhol que meu pai me dera. Antes de usar, confirmei no site deles se era prensado a frio.

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Beleza. Refeição encerrada, fome saciada e até aqui tudo bem. Depois de um final de semana onde tinha comido como sempre algumas besteiras, salada na segunda tem aquele efeito amenizador da consciência. Mas ainda estava na primeira metade do primeiro dia.

Quando a tarde foi caindo, comecei a pensar no que seria do jantar. Uma salada de frutas, talvez? Hmmmmmmm. Deixa eu dar um pulo no sacolão.

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Mamão, manga, melão, maçã e laranja espremida. Não é porque a comida era crua que não daria a ela o toque de master chef que não sou. Tome raspas de limão por cima de tudo.

Preparei uma quantidade razoável para poder aproveitar nos dias seguintes e ficou ótima, claro, nunca conheci um animal que não gostasse de salada de frutas. O primeiro dia terminou com saldo positivo. Que venham os próximos.

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Foi ao despertar na manhã seguinte que senti o baque. Apesar de ter dormido muito bem, parecia que passara a noite em claro. Estava letárgico e irritadiço. Não era exatamente fome, mas talvez uma síndrome de abstinência dos farináceos e laticínios que compõem grande parte de minha dieta regular. Obviamente, esse estado embrulhado de espírito não se dissipou ao tomar um suco de laranja com beterraba e cenoura como primeira refeição do dia.

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O mau humor e a insatisfação imperaram na minha manhã de terça-feira. Para piorar, nesse dia já tinha marcado um almoço com um grande amigo que não via há tempos. Expliquei a ele sobre a pauta previamente e ficamos de comer em um restaurante peruano. Ao encontrar minha mulher para irmos juntos ao programa, não conseguia trocar uma palavra com ela. Também não ajudou nada dar de cara com o estabelecimento fechado.

Trocamos para um japonês, onde imaginava contra-atacar exterminando sashimis em série. Ao percorrer o cardápio, percebi que estava um pouco equivocado na tática de guerra. Para vencer a batalha seria necessário deixar minhas calças no lugar. Chegaram as entradinhas cortesia da casa e constatei que não poderia sequer comer a bardana do pote da esquerda. Nem shoyu poderia usar.

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Quando dei por mim, estava cogitando pedir uma salada qualquer em um ótimo restaurante japonês e ainda pagaria bem além do que gostaria por isso. Mano, sério: salada eu como em casa. A expectativa era de ter uma das refeições mais tristes da minha vida na companhia de um dos meus melhores amigos e da mulher que amo. Queria chorar.

Nesse momento, tomei a decisão de interromper a experiência. Se com apenas um dia e meio já estava nesse drama sem fim, não queria ver depois de 7 dias. Missão abortada. Pedi o prato que me deu na telha, comi feito um rei e nem lembrei de tirar foto. Com o estômago não se brinca.

Ao voltar para casa, escrevi um e-mail aos editores do Hypeness explicando a coisa toda. Muito compreensivos, eles agradeceram por eu ter topado e pelo menos tentado o desafio. Como o espaço da pauta ficou aberto e o texto já estava sendo rascunhado, chegamos juntos a essa solução que você agora lê: expôr a verdade. Afinal, mais do que produzir relatos perfeitamente objetivos e imparciais, nossa busca é por contar histórias. E essa foi a história da minha tentativa com uma prática que pode cair bem a uma porção de gente esperta, mas não comigo. Se você leu até aqui, significa que de alguma forma a experiência foi proveitosa. Talvez não em mostrar completamente os impactos desse estilo de vida alternativo. Mas pelo menos em apresentar um pouquinho dos reveses que podem surgir quando se tenta produzir conteúdo original.

Na manhã seguinte, lá fui eu de novo ao encontro da salada de frutas. E da chia. Dessa vez, na companhia de uma boa caneca de café com leite. My precious.

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Dieta é compromisso, não é viagem. A motivação nunca é o sabor, o encontro entre amigos, o conhecer novos lugares. Está mais para perder peso, limpar o sangue ou melhorar a digestão.

A dieta crudívora vai na contramão do que o senso comum consideraria uma alimentação normal no século XXI. Quem a adota costuma fazer isso de maneira progressiva, não da noite para o dia. E costuma fazer isso por motivos sérios de saúde. Questões às quais comprimidos sintéticos produzidos dentro de laboratórios em escala industrial não respondem. É tipo um botão reset que se aperta para zerar tudo e começar de novo, partindo do princípio de que comida é o melhor remédio. Mas, sem querer desrespeitar seus praticantes, quem consegue segui-la por toda a vida deve ser mais exceção do que regra. Para paraquedistas como eu, fica apenas uma sensação de estar faltando algo importantíssimo. Calor, talvez?

Insucessos fazem parte da vida. Educam, criam músculos e chutam o ego pra escanteio. Adoraria encerrar dizendo que consegui superar as dificuldades de mais um desafio, que foi ótimo para mim e que possivelmente seja incrível para você também. Não é o caso. Até então, vinha topando de tudo um pouco no Hypeness. Ficar sem carne, tomar ayahuasca e até churrasco grego no centrão já mandei. Não que vá deixar de me propor a experiências inusitadas como essas. Porém, constatei agora que estou mais disposto a comer o que não gosto do que a abdicar do que mais gosto. Enquanto os exames não acusarem algo fora da curva, me chame para dobradinha mas não corte o meu queijo.

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Todas as fotos por Daniel Boa Nova Hypeness

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Daniel Boa Nova
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