Matéria Especial Hypeness

Especial Hypeness: fomos ouvir algumas lições de vida com quem já viveu um pouco mais do que a gente

por: Daniel Boa Nova

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Cada vez que recebemos a notícia da morte de alguém próximo, inevitavelmente nos questionamos. Sobre a rotina que levamos, sobre as escolhas que fazemos. Sobre estarmos utilizando da melhor forma a oportunidade que recebemos quando vimos a luz pela primeira vez. Se a vida é frágil e o tempo é curto, você tem aproveitado a estadia?

Essa enxurrada de dúvidas internas ganha mais intensidade quando é uma pessoa jovem e cheia de planos quem nos deixa. Fica aquele sentimento de saudades do futuro, de tudo que poderia vir a ser e não mais será. Chega a dar vertigem.

Porque a gente vive como se fosse imortal. Fingimos não saber que um dia não estaremos mais aqui e que esse dia pode chegar em uma semana qualquer. Enquanto houver 3G e chover likes, tudo lindo. Mas a conexão sempre pode cair abruptamente. E, quando acontece em nossa rede, o medo de estar perdendo tempo se torna trending topic na timeline. Até por isso projetos como esse aqui são tão pertinentes: ajudam a superar o tabu que nos faz evitar essa conversa.

Chato falar sobre a morte? É delicado. Falemos então sobre a vida. Sobre como podemos torcer ela até a última gota durante os dias em que estivermos ocupando esses pedaços de carne e osso. Com um pouquinho de cuidado e fortuna, carregaremos nossos corpos por aí durante um bom tempo. E quem melhor para iluminar o caminho do que aqueles que chegaram antes e continuam até hoje avançando casas no Jogo da Vida?

Fui encarregado pelo Hypeness de bater um papo com pessoas que ocupam esse planeta há um tantinho mais de tempo do que a gente. Pessoas que já viveram um bocado, mas que seguem vivonas vivendo o hoje. Mais do que abrir o baú do passado, a intenção era publicar o status da sua relação com o presente. Aqui estão suas histórias.

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A conversa com Ribamar aconteceu em uma noite de terça-feira, no apartamento do meu sogro. Ribamar mora no mesmo prédio, com o filho, a neta e duas bisnetas. As famílias são amigas. Uma cerveja foi oferecida, mas ele começou optando pela água: “Depois quem sabe, né?”.

Avisei que estava gravando e agradeci pela gentileza em se dispor a conversar. Aí já tive uma amostra de seu cavalheirismo e português impecável: “Para mim a maior honra do mundo é poder informar alguma coisa útil que você possa aproveitar na sua tarefa aí. Faça as perguntas que precisar e, dentro dos meus conhecimentos, eu vou responder”.

Ribamar nasceu em São João dos Patos, no interior do Maranhão. Por duas vezes se casou e ficou viúvo. Teve 8 filhos, que hoje são 5. A prole conta ainda com 11 netos e 8 bisnetos. Quando conversamos, faltavam 3 dias para ele completar 89 anos. A festa seria no Rio de Janeiro e Ribamar iria de avião. Aliás, o mundo das aeronaves sempre esteve presente em sua vida: “Comecei fazendo mapas do Brasil. Com aviãozinho monomotor, fazia apontamento no Amazonas inteirinho para atlas. Tinha 17 anos quando comecei nisso. Depois ia fazer um curso de piloto para me brevetar, mas não tinha finanças. Aí fui ser comissário de bordo. Trabalhei na SAVAG, que era uma subsidiária da VARIG lá em Porto Alegre”.

Além da carreira nas alturas, foi também o jornalismo que permitiu a ele conhecer o país de norte a sul: “Trabalhei no jornal Última Hora e lá meu enfoque eram prefeituras. O potencial de cada região, do Oiapoque ao Chuí. Já viajei o Brasil inteiro, tenho orgulho de dizer que conheço todo o território nacional. Não foi pelo mapa não, conheço in loco.”

Pergunto a ele o que gosta de fazer no dia a dia: “Minha rotina é a mesma. Eu acordo às cinco e meia. Daí tomo um banho, vou à padaria, faço uma caminhada. E preparo o café para as minhas bisnetinhas”. Por ter aversão à ociosidade e à solidão, Ribamar também costuma aparecer na firma do neto, localizada no centro de São Paulo: “Lá eu faço alguma coisa, algum expediente que eu tenha possibilidade. Visitar um banco, levar algum documento, alguma coisa para cartório. Faço questão. Eu falo assim: sou um office old. Eu não sou boy, sou old. O que não gosto mesmo é de ficar parado. Eu trabalho dentro das minhas possibilidades”.

A essa altura, aquela cervejinha recusada no início da conversa já está sendo compartilhada como em um happy hour. Tim-tim, saúde. Por uma questão de respeito, vinha chamando meu interlocutor o tempo todo de Seu Ribamar. Apenas para descobrir que ele não curte ser tratado com essa pompa: “Senhor é Jesus Cristo”. Foi mal, Riba.

Antes que a entrevista se encerre, procuro saber como é sua relação com o mundo digital: “Eu uso celular, mas eu nunca… eu não me empreguei, né? O tempo evoluiu de uma forma tão galopante que me pegou no contrapé. Não consigo assimilar toda essa evolução. Você pega isso aqui (aponta para meu smartphone) e fala com o Japão, fala com todo mundo. Quer dizer: a máquina está funcionando muito mais do que o homem. Na minha época, o homem tinha mais valor. Um funcionário tinha mais valor. Agora quem tem valor é a máquina, a tecnologia. Pode ser que seja bom para essa juventude. Quer dizer… você tem que acompanhar. Se não acompanhar, tá perdido. Vai ficar isolado. E a solidão mata. Comunicação é a coisa melhor que existe“.

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Minha entrevistada seguinte seguramente concordaria com Ribamar em relação ao valor da comunicação e da convivência familiar. Foi exatamente por conta disso que ela aprendeu a usar um tablet e o Facetime – ou, como diz coloquialmente, “feicitaimer”. Nossa conversa aconteceu através do aplicativo, mas mesmo remotamente foi possível perceber o doce em forma de pessoa que ela é.

Violeta também está prestes a completar 89 anos. Nascida na capital de São Paulo, tem 2 filhos e 4 netas: “Fui casada e fiquei viúva com 49 anos. Aí fui levando minha vida, né? O que se vai fazer? É coisa da vida”. Há alguns meses, ganhou o primeiro bisneto. Como uma neta (a mãe do bebê) mora na França e outra trabalha no Chile, Violeta não hesita em utilizar ferramentas digitais quando quer matar as saudades. E não apenas para se comunicar:  “Elas me explicaram e eu consegui aprender. Gosto muito! Faço Paciência no iPad, faço Caça-Palavras. Isso aqui me faz bem pra cabeça!. Sua intimidade com o device é tamanha que, em um momento de instabilidade no nosso contato, pude ouvir dela o diagnóstico do problema: “Ih, olha a conexão ruim!”.

Não fosse por um tombo recente que lamentavelmente a tirou de combate, Violeta estaria hoje mesmo batendo perna pelas calçadas de São Paulo: “Eu sou muito ativa. Sou muito ativa mesmo. Moro em cima de um supermercado, mas gosto de ir naquele mais longe, a 3 quadras daqui pra passear. Eles (filhos, netas) brigam comigo para me parar um pouco. Mas eu sou assim. Gosto de trabalhar. E minha cabeça tá boa. Enquanto minha cabeça estiver boa, está tudo bem. Em uma sessão recente de fisioterapia, Violeta perguntou à profissional que lhe atendia quando poderia ir de novo na Rua 25 de Março. Se você não conhece a cidade, é aquela rua que os jornais mostram todo ano na época do Natal com um formigueiro de gente circulando.

Após 3 meses do acidente que sofreu, ela já caminha sozinha. Ainda não a ponto de fazer compras, mas isso é questão de tempo. Antes do ocorrido, o plano era ir à França para visitar a neta. Fez o passaporte e tudo, mas acabou não sendo possível. Agora, a ideia é tirar visto e conhecer a Disney: “Alugo uma cadeira automática e vou andando lá. Eu adoro viajar”.

Além das andanças, Violeta também é famosa pelas iguarias árabes que prepara na cozinha, de esfihas e kibes a homus e outras pastas. Fiquei salivando só de imaginar o sabor. Como ela é filha e viúva de sírios, não posso deixar de perguntar se tem acompanhado as notícias da guerra civil que vem castigando o país: “Acabaram com Damasco. Mas ficou uma caveira aquela cidade! O povo todo foi para outros países. Os que acolheram eles, né? Isso me deu uma tristeza, porque é a terra do meu pai. É gente muito boa, viu? E eu tenho parentes lá, primos. Fico triste porque não estou sabendo para onde eles foram. Como é que vai fazer, né? A Alemanha pegou uma turma, a Espanha pegou outra… também o Brasil. Eles estão distribuindo. É um ato de caridade”.

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Tia-avó de minha mulher, Leny foi a última entrevistada. Na família, ela é a Tia Lé. Nascida em 1925, está a poucos dias de fazer 90 anos. Vai ter festa.

Era uma quarta-feira à tarde quando conversei com ela. Ao chegar na porta do apartamento onde mora com a filha, genro e netos, Leny levantou do sofá para me cumprimentar. Sem a ajuda da bengala que estava logo ao lado e nem de mais ninguém. É uma mulher alta, cheia de energia e simpaticíssima, que não se deixa abalar mesmo quando fala de assuntos mais delicados. Uma sábia.

Leny nasceu em Piracicaba, a penúltima filha entre 13 irmãos. Foi só em torno dos 20 anos que veio para São Paulo: “Tive uma infância maravilhosa, morando no interior, numa casa boa. Tinha tudo do bom e do melhor. Tinha verdura, tinha fruta, ia no pomar e pegava”. Casou em 1959, mas infelizmente perdeu o marido pouco tempo depois: “Fui extremamente feliz. Mais não fui porque ele morreu muito cedo. Com 39 anos, teve um infarto fulminante. Depois continuei a vida criando meus 2 filhos, graças a Deus eles estudaram e são formados. A vida prepara essas coisas, né? A gente tem que se amoldar ao que vai acontecendo”. Hoje, além de formados, os 2 filhos deram a Leny 4 netos. A mais velha deles inclusive já se formou também.

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Pergunto como é sua rotina atual: “Acordo, tomo meu banho, café. E depois, durante o dia, sempre arranjo alguma coisa pra bordar, pra fazer, porque não posso ficar parada. Quando eu podia andar perfeitamente, eu saía, ia pra cidade passear. Agora não posso. O meu problema é o equilíbrio, né?”. Há alguns anos, Leny se desequilibrou ao sair do carro em uma visita ao supermercado e acabou caindo. Por conta disso, sua autonomia para ir e vir ficou prejudicada. Mas, tirando o susto e alguns cuidados adicionais adquiridos, está tudo ótimo. Tanto que ela não tem restrições alimentares e até toma um traguinho vez ou outra: “Como de tudo. Mentira! Como de tudo nada. Porque verdura eu não gosto muito (risos). Gosto de feijoada, torresmo eu adoro, costelinha de porco. E com a caipirinha! Sem caipirinha não dá vontade de comer feijoada”. Ninguém em sã consciência discordaria.

Leny gosta de ler e acompanha o noticiário. Ela até tem celular, mas não usa internet. Por outro lado, já jogou muito videogame com o neto: “Aqueles de controle assim, aqueles de corrida de carro, eu de vez em quando ainda brinco com ele. Aqueles mais de carrinho”. Enquanto me conta, ela imita um joystick com as mãos.

Com tanta vivacidade aos quase 90 anos e já tendo passado por altos e baixos, quero saber dela se o mundo não está com reclamações em excesso: “Sabe o que acontece? Na minha opinião, as pessoas reclamam mais porque querem fazer menos. Todo mundo quer do bom e do melhor, bem feito, mas ninguém quer ajudar a fazer. Eu acho que nós estamos numa época assim em que um espera que o outro faça“.

E afinal, Leny daria algum conselho para quem está começando a vida? “Ah, a primeira coisa que os mais jovens têm que fazer: vivam! Tenham vida! Deus me deu essa coisa maravilhosa que é viver. Tenho que viver o dia de hoje e me preparar para o dia de amanhã. Sempre com bons pensamentos na cabeça. Porque influi muito, viu? Não parece, mas influi muito o que a pessoa põe na cabeça. Então tem que sempre pensar positivo. Amanhã é outro dia. Se eu não consegui hoje, amanhã vou conseguir. A vida é assim. E sempre ter ambição, mas ambição boa. Sem prejudicar os outros. Tendo a cabeça livre e pensamentos bons, tudo a gente enfrenta muito bem.

Se essa resposta pudesse ser transformada em comprimido farmacêutico, sua patente valeria bilhões de dólares.

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Algo em comum nesses 3 entrevistados é que nenhum deles está à deriva por aí, sem ter mais o que fazer. Seja executando tarefas simples de escritório e preparando o café das bisnetas como Ribamar, cozinhando e jogando no tablet como Violeta ou lendo e bordando como Leny, ocupar a mente é a ordem do dia.

Os 3 também demonstram um prazer imenso em sair à rua, andar livremente, se misturar com outras pessoas. Enquanto isso, tem gente com um quinto da idade deles trancada no quarto, mimimizando nas caixas de comentário da vida. Ei, amigo: tá perdendo um tempo precioso aí. Que tal levar sua avó pra passear?

Quando entrevistei o Ribamar, uma das perguntas que fiz foi quase uma gafe: a vida foi boa com você? Ao que ouvi dele: “Você botou no passado. Foi? Não. É. Ainda estou vivo”. Obrigado pela lembrança, Ribamar. Estamos todos numa transmissão ao vivo e a cores. Se não me puxarem o fio da tomada antes, quero chegar aos 89 com toda essa lucidez e presença de espírito. Será uma dádiva. Como disse Leny, “Tô nessa idade e acho a vida maravilhosa. Tem que saber viver. Essa é a verdade. Enquanto tem vida, tem que viver. E dar valor para esses minutinhos”.

Espero conseguir e desejo o mesmo para você que me lê. Saúde!

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Todas as fotos por Daniel Boa Nova Hypeness

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Daniel Boa Nova
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