Matéria Especial Hypeness

O que o sistema de ensino brasileiro pode aprender com as ocupações em São Paulo

por: Vitor Paiva

Qualquer um que já foi estudante um dia conhece a amarga distância entre o que as aulas ensinam e os interesses, sonhos, dilemas e potências pessoais de cada aluno. O que a escola diz que temos que saber e nos tornar não costuma se parecer em quase nada com o mundo ao nosso redor, nem com aquilo que sentimos que somos e queremos ser.

Se a afirmação acima é evidente, a reação dos alunos ao polêmico plano de reorganização do ensino no estado de São Paulo, pelo qual o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, decretou o fechamento de quase 100 escolas, redimensionou tal sensação. As ocupações promovidas pelos alunos nas unidades ameaçadas nos mostram na prática o tamanho do desperdício que a falta de diálogo significa para a construção de um caminho novo e melhor para o ensino público brasileiro, assim como para a comunidade ao redor das escolas e até para a cidade como um todo.

As ocupações tornaram-se não só atos de resistência pelo simples desejo de estudar e ser escutado, mas também sugestões exemplares de todo esse potencial.

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Foto © Guilherme Prado

Diante das cooperativas criadas e formadas pelos alunos nas ocupações para a reforma de salas e banheiros, rapidamente fica claro que a escola não pode ser somente uma fábrica de novos profissionais, mas sim um local de construção de cidadãos e da própria democracia.

Na Escola Estadual Maria José, no bairro da Bela Vista, centro de São Paulo, os alunos por conta própria pintaram as paredes, arrumaram a biblioteca – que permanecia sempre fechada – e criaram, segundo eles, uma “nova” escola, com aulas de yoga, oficinas de literatura, peças de teatro, debates sobre temas atuais e atividades de lazer – tudo selecionado e decidido em assembleia. Na maioria das escolas ocupadas, o processo foi o mesmo, reunindo aulas de capoeira, saraus de poesia, oficinas de grafite e debates com reformas, limpezas e serviços prestados quase sempre pelos próprios alunos, utilizando a ajuda de moradores das regiões, para a manutenção e melhoria do local.

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Fotos © Bia Parreiras

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Foto © Rogério Albuquerque

E a opinião dos presentes nessas ocupações parece ser unânime: se antes eram obrigados a permanecer calados escutando o professor durante as aulas, agora as novas atividades aproximam os alunos não só das “matérias”, mas da própria escola, da cidade e das questões políticas mais atuais – estimulando-os a participar ativamente de todo o processo de ensino. Com isso, segundo eles próprios, aprende-se mais e mais rápido.

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Foto © Bia Parreiras

Na EE Antônio Manuel, debates sobre a formação do ensino público no capitalismo e a exibição de filmes sobre o movimentos sociais – junto da criação de uma horta no local – ilustram o amplo leque de interesses e atividades que as escolas podem propor, a fim de realizar essa formação de cidadãos.

Na EE Otoniel Mota, a imagem de um cronograma de aulas é impactante: ao invés de geografia, história, matemática ou química, as aulas ensinam sobre Como Revolucionar Através da Arte, Feminismo, o movimento LGBT, Acesso à cultura na França e Desmilitarização.

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Foto cima © Danolo Mekari; Foto baixo: Divulgação

Além das novas aulas, diversos voluntários, artistas e intelectuais foram convidados ou se ofereceram para auxiliar, participar dos debates, lecionar ou até mesmo se apresentar nas ocupações. Nomes como a cartunista Laerte, o escritor João Paulo Cuenca, o comediante Gregório Duvivier e o ator Pascoal da Conceição já visitaram as escolas, e uma série de shows foi realizada, batizada de Virada Ocupação, trazendo artistas como Criolo, Maria Gadú, Bárbara Eugênia, Vanguart, Cidadão Instigado, Céu, Pequeno Cidadão, Paulo Miklos, Tiê, Arnaldo Antunes, Pitty, Chico César, Fresno, Bixiga 70, Lucas Santana, Karina Buhr e Metá Metá. entre outros, para se apresentarem em apoio às ocupações. Algumas dessas apresentações aconteceram dentro das escolas.

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Emicida Rael da Rima (Thiago Queiroz628)

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Fotos © Gabriela Schimidt, Rafael Arbex, Alex Falcão, Divulgação

Pitty e Paulo Miklos na Virada Ocupação:

Criolo na Virada Ocupação:

Maria Gadú na Virada Ocupação:

Se a necessidade de reformas é evidente, a participação dos alunos nessas decisões parece ser não só necessária como fundamental para que a transformação aconteça de forma democrática e eficiente. “É a primeira vez que a reforma no sistema de ensino está sendo realmente discutida dentro das escolas, entre alunos”, afirmou Manoela Miklos, doutora em relações internacionais e uma das articuladoras da Virada Ocupação. “E é isso que pode diferenciar uma reforma com interesses políticos de uma transformação participativa e democrática, que realmente melhore o sistema de ensino para o futuro”, garante a ativista.

E se os métodos e temas dos alunos parecerem delirantes para alguns, é importante frisar que nas mais avançadas e reconhecidas escolas do mundo as propostas de ensino se assemelham bastante ao que intuitivamente os alunos das ocupações criaram.

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Fotos © Guilherme Prado

É o caso da Escola da Ponte, em Portugal, marco pedagógico de ensino experimental, que tem como lema, desde 1977, o desejo de “tentar fazer crianças felizes”, privilegiando a cidadania como objetivo, e a autonomia dos alunos e dos professores como base. Na Escola da Ponte, pertencente à rede pública da cidade do Porto, a diferença estrutural não é só simbólica, mas também literal: não existem séries ou classes nem paredes separando os alunos de diferentes idades. Os estudantes se reúnem em grupos ao redor de interesses comuns, e os professores atuam auxiliando a todos, pois a instrução a respeito das “matérias” é também função dos alunos, se ajudando mutuamente.

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Fotos: Divulgação

Ao invés de disciplinas isoladas, o ensino na Escola da Ponte é dividido em seis dimensões, apoiadas por docentes, pedagogos e psicólogos: Linguística (Língua portuguesa, inglesa, francesa e alemã), Lógico-matemática (Matemática), Naturalista (Estudo do meio, Ciências naturais, Físico-Química e Geografia), Identitária (História e Geografia de Portugal e História), Artística (Expressão musical, dramática, plástica e motora, Educação física, Educação visual e tecnológica – E.V.T., Educação musical, Educação visual e Educação tecnológica), e Pessoal e social (Formação pessoal, Ensino especial e Psicologia). Dessa forma, as matérias tradicionais não são abolidas, mas sim reinseridas em um contexto mais livre e de maior atuação para os alunos, ao lado de outras matérias que normalmente não constariam em uma grade de ensino tradicional.

Há também, como parte fundamental da estrutura da escola – da mesma forma que nas ocupações de São Paulo – assembleias de alunos, nas quais se discutem e se votam medidas para o dia a dia, comissões especiais para casos graves – sempre com o incentivo total pela autonomia do aluno em questionar as estruturas, os métodos de ensino, pedir ajuda, ensinar, e até se auto-avaliar. É o aluno quem diz quando ele está pronto para ser avaliado, o que deve melhorar e o que está bom na relação com a escola.

Apesar desse método de ensino ter no brasileiro Paulo Freire um de seus fundadores e principais pedagogos, no Brasil tais experiências ainda são incipientes e poucas, mesmo que bastante bem sucedidas. A Escola Experimental de Picaranga, na Bahia, é um raro exemplo que segue moldes tão experimentais quanto os da Escola da Ponte, procurando oferecer aos alunos a possibilidade de aprender por interesse próprio e não por obrigação. O mesmo acontece na escola Lumiar, na capital paulista. Nessas instituições o processo de aprendizagem se dá sempre de forma lúdica e diferenciada, respeitando o tempo individual de cada aluno.

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Fotos: Divulgação

Ainda assim, só o maior dos otimistas pode imaginar que o governo de São Paulo, depois de tantas demonstrações de truculência, vá realmente se interessar pelas propostas que esses jovens realizaram de maneira tão ordenada, eficiente e contundente. Mas não é mera coincidência que o que eles propuseram por conta própria tenha se dado de forma tão semelhante aos projetos mais vanguardistas de ensino pelo mundo. A natureza desses projetos é justamente de se interessar pelo aluno, a fim de combater a apatia, o desinteresse e a falta de estímulo.

Mesmo com o recuo recente anunciado pelo governo de São Paulo, suspendendo o plano de reorganização, as ocupações continuam. Os estudantes querem a garantia de que, mais do que suspensa, a reorganização seja cancelada, assim como a liberação dos jovens detidos pela polícia e, principalmente, querem ser ouvidos em planos futuros para reformas de ensino.

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Fotos © Bia Parreiras

E, a exemplo do que recentemente fizeram as mulheres, esse grito de resistência e transformação foi estendido para a grande mídia. Utilizando o hashtag #OcupaEstudante, alguns alunos vêm ocupando o espaço de colunistas de diversas mídias, com textos sobre as ocupações e as questões do ensino brasileiro vistas de dentro, ditas com suas próprias palavras – ampliando ainda mais o campo desse debate e as vozes desses estudantes.

Não é difícil concluir que dar espaço de fala e ouvidos aos mais afetados pelos problemas do ensino público no Brasil são caminhos necessários para melhor se compreender quais são as carências e atrasos em nosso ensino. Escutar e ouvir os alunos, não só sobre matérias, classes ou provas, mas também – e, nesse caso, principalmente – sobre o significado e as consequências da tal reorganização proposta pelo governo de São Paulo teria poupado muita dor de cabeça, violência, tempo e dinheiro dos envolvidos.

Em compensação, é muitas vezes do horror e do descaso que nascem as melhores flores: temos agora a oportunidade e a obrigação de olhar para esses alunos, que tanto querem aprender, e que, ao mesmo tempo, tem tanto para ensinar.

Matéria da Caros Amigos sobre as ocupações:

Matéria dos Jornalistas Livres:

Tempos atrás mostramos aqui no Hypeness 15 escolas inovadoras que inspiram um mundo melhor. Vale a pena relembrar seguindo este link.

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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