Inspiração

‘Ainda na concentração, levei uma bela cacetada na perna, sem mais nem menos’, relata jornalista

por: Clara Caldeira

Raphael Sanz é jornalista, tem 28 anos, se autointitula ‘midiativista’ e apoiador de movimentos sociais (autônomos ou não). Atua no Correio da Cidadania, na Rádio Cidadã FM e no Sefras. A redação do Hypeness conversou com ele para saber um pouco sobre como está sendo o trabalho dos jornalistas durante a cobertura dos atos contra o aumento da tarifa.

Hypeness (H) – Você cobriu os últimos atos? Quais as datas/locais? Pra qual veículo?

Raphael Sanz (RS) – Cobri os dois atos que foram realizados neste ano, um no dia 8 e outro no dia 12 de janeiro, e hoje (dia 14) cobrirei o terceiro. O ato do dia 8 foi no centro de São Paulo, na região do vale do Anhangabaú e o do dia 12 foi na esquina das avenidas Paulista e Consolação. Cobri ambos para o Correio da Cidadania e para a Rádio Cidadã FM.

H – Durante essas coberturas, como foi a abordagem policial em relação à imprensa? A liberdade de imprensa foi respeitada? Algum jornalista foi preso ou ferido?

RS – Para começar, é preciso informar que a polícia não respeita ninguém, apenas os interesses escusos que ditam as regras do nosso jogo político, econômico e social. Eu soube de prisões de jornalistas nas redes, mas felizmente não presenciei nenhuma. Posso falar mais do ato do dia 12, que foi mais intenso.

“Ainda na concentração, levei uma bela cacetada na perna de graça, sem mais nem menos.”

Ainda na concentração, antes de começarem os ataques, eu estava conversando com o fotógrafo Sérgio Silva, aquele que perdeu um olho para a PM em 2013, e levei uma bela cacetada na perna do Soldado Vergino, de graça, sem mais nem menos. Relatei aos observadores legais e tirei uma foto do agressor. Mas isso foi algo pequeno perto do que aconteceu depois.

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No dia 12 de janeiro, a PM começou a jogar as bombas às 19h em ponto, “coincidentemente” o horário em que os jornais noturnos começa a entrar no ar, como bem lembrou um manifestante que tivemos a oportunidade de filmar.

Nesse momento, parte da imprensa estava do lado de fora do bloqueio policial, na Avenida Consolação sentido Rebouças, tanto imprensa convencional quanto alternativa, e eles simplesmente não permitiam que os repórteres, fotógrafos e cinegrafistas voltassem para dentro da área onde estava ocorrendo o massacre.

“O Caldeirão de Hamburgo é uma tática de repressão proibida por convenção internacional que consiste no encurralamento de um grupo de pessoas para prendê-las ou agredi-las.”

Resumindo a tática: inutilizaram pelo menos 40% das câmeras profissionais, para ficarem mais à vontade na promoção da barbárie. E o jornalista que tentasse argumentar era ameaçado de uma força ostensiva e agressiva. Como já apanhei deles uma vez (em 2013, enquanto fazia meu trabalho de jornalista e observador), e me desfiguraram literalmente, preferi ficar na minha e apenas tomar nota do que acontecia.

Pessoas eram presas, agredidas e houve uma série de abusos, um deles eu presenciei da pior forma possível: o caldeirão de Hamburgo. O Caldeirão de Hamburgo, para quem não sabe, é uma tática de repressão proibida por convenção internacional. Consiste no encurralamento de um grupo de pessoas em determinada rua – neste caso, a Rua Sergipe, em Higienopolis – para prendê-las ou agredi-las.

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Neste caso, ficamos emboscados na rua Sergipe entres a esquina da rua Itacolomi e uma outra que não me lembro o nome, e, sem ter para onde correr, recebemos umas dezenas de bombas ali no meio. Quando a fumaça começou a dissipar, eles entraram na rua, com a agressividade que lhes é peculiar, mandando todo mundo “calar a boca”, “se fuder” e por aí vai.

Dois alunos do Colégio Fernão Dias (o Pedro e a Renata) foram espancados por homens da tropa do braço e levados para delegacias sob falsas acusações de desacato. Eu estava lá e vi: os estudantes não faltaram com respeito aos policiais, o contrário não só ocorreu, como também houve agressões.

“Dois alunos do Colégio Fernão Dias foram espancados por homens da tropa do braço e levados para delegacias sob falsas acusações de desacato.”

A mim não fizeram nada, me perguntaram se eu era da imprensa, falei que sim, e me mandaram “sumir dali, antes que eles perdessem a paciência”. Obviamente não sumi de lá. Fiquei até a última pessoa ser liberada e os advogados serem acionados para os dois estudantes brutalizados e injustamente presos.

H – Ainda sobre cobertura, o que você pôde observar durante os atos? Havia muitos veículos cobrindo? Alguns deles independentes?

RS – Toda a cobertura real do que aconteceu foi feita por veículos independentes. Estavam lá a VICE, o Brasil de Fato, a Revista Caros Amigos, o Outras Palavras, a Agencia Publica, o PONTE.org, Passa Palavra, Centro de Midia Independente (fazendo transmissão ao vivo), Rede Brasil Atual, e outros que agora não me lembro.

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H – Os jornalistas que trabalhavam na cobertura tinham que usar algum tipo de proteção/identificação? Qual?

RS – Sempre bom usar proteção, mas não é obrigatório. O mesmo em relação à identificação de jornalista. Eu, particularmente, não uso identificação porque acredito que o jornalista não é um ser destacado da realidade. Estamos pegando ônibus ou metrô todos os dias, e é um prazer enorme cobrir uma manifestação que luta por mim e pelo meu interesse.

Todas as imagens: Raphael Sanz

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Clara Caldeira
Jornalista, comunicóloga, frenética, dona de brechó frustrada, mora no meio do mato e gosta mais de comer que de dormir. Acredita em ET, saci e horóscopo, mas duvida de um monte de outras coisas que se diz por aí. Gosta mais de arte que de lasanha (contradição?) e acredita que a cultura pode salvar o mundo.

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