Arte

E se uma das inventoras do Rock tiver sido uma mulher negra dos anos 1940?

Vitor Paiva - 08/03/2016 | Atualizada em - 07/02/2021

A história oficial diz que em meados dos anos 1950 o R&B negro entrou em colisão com o country branco nos EUA, e assim nasceu o Rock n’ Roll que, pela voz, os quadris e a branquitude de Elvis em um país e contexto profundamente racista, pôde levar a força da música negra para os lares das famílias brancas, e assim se tornar verdadeiramente popular – levando a família tradicional à loucura.

E todos esses fatos são verdadeiros. O rock, no entanto, para além de seu título, naquilo que tem de essencial, no entanto já existia antes de se tornar popular – e há décadas. A verdade é que não é possível apontar um inventor somente, mas sim uma complexa e extensa árvore genealógica sem pai nem mãe – e nessa confusão originária, uma das mais pioneiras e radicais vozes do rock foi uma mulher negra – o que justifica muito provavelmente a razão dela ser tão pouco mencionada como parte tão importante dessa história.

SISTER1

A cantora e guitarrista Sister Rosetta Tharpe

Sister Rosetta Tharpe é uma guitarrista de rock em todos os sentidos possíveis dessa nomenclatura – e das melhores; mais pungentes e cheias de atitude, incendiando um ritmo com solos e riffs viscerais. O agravante, no entanto, é que sua música se tornou popular nos EUA ainda nos anos 1940 – quase 20 anos antes do surgimento oficial do que seria compreendido como rock n’ roll. 

Sister Rosetta Tharpe

Estava tudo lá: a atitude, a profundidade na voz e na interpretação, o ritmo sincopado, veloz e dançante, a mistura de estilos, os solos estalados, a sonoridade de guitarra, e até os instrumento propriamente, em modelos como uma Gibson Les Paul ou SG, que viria se tornar símbolos do rock então ainda por vir.

Sister Rosetta Tharpe é uma das criadoras da música do século XX, e merece mais do que alguns parágrafos. Ainda que seja sempre lembrada indiretamente como uma espécie de madrinha do gênero, não há motivos concretos para não vê-la como uma das inventoras diretas desse estilo.

É evidente que ser mulher, e uma mulher negra em um contexto absolutamente masculino, não ajudou no processo desse necessário reconhecimento, mas acima das justificativas estão os fatos – ou melhor: o som. Basta ouvir para entender que muitas das raizes do que amamos e nos arrepiamos com o rock já estava lá – e ainda está.

SISTER5

Imagens: arquivo

Publicidade


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutor em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

Warning: file_put_contents(/var/www/html/wordpress/wp-content/themes/hypeness-new/functions/cache/twitter-stream-hypeness.txt): failed to open stream: Permission denied in /var/www/html/wordpress/wp-content/themes/hypeness-new/functions/social.php on line 410


X
Próxima notícia Hypeness:
Rita Lee e Roberto de Carvalho: amor unido com música