Matéria Especial Hypeness

Especial Hypeness: “É preciso explodir essa merda toda”, diz ‘herdeiro do punk’ sobre os 40 anos do movimento

por: Vitor Paiva

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Para comemorar os 40 anos do surgimento do movimento punk, o governo inglês e a rainha em pessoa declararam que 2016 seria o “Ano do Punk” no Reino Unido. Mas peraí! O “sistema” sempre foi um dos maiores inimigos de tudo que o punk representa!

Mas não foi só você que achou estranho. Esse título soou mais como um desafio do que um convite. Para Joe Corré, filho de Viviane Westwood e Malcom Maclaren e, portanto, herdeiro direto de um dos legados centrais da história do punk, ouvir a rainha dando sua benção oficial para essa comemoração foi “uma das coisas mais assustadoras” de sua vida.

Malcom McLaren e Viviane Westwood Malcom McLaren e Viviane Westwood

As comemorações, batizadas de “Punk London” e patrocinadas por instituições como a Biblioteca de Londres, o Museu de Londres e o próprio governo, são, para Corré, um perfeito exemplo do movimento sendo sequestrado pelo establishment político e cultural – os principais inimigos do punk. “No lugar de clamar por mudanças, o punk foi transformado em uma peça de museu”, declarou Corré. “É preciso explodir essa merda toda”.

Em resposta, Joe Corré decidiu simplesmente queimar todas suas memorabílias e coleções, herdadas de seu pai e mãe – e avaliadas em mais de 5 milhões de libras. O gesto é, para ele, uma declaração de repúdio ao sentido das comemorações. E ele convida outras pessoas a queimarem também suas coleções, em protesto. A fogueira pública acontecerá dia 26 de novembro, data do aniversário do lançamento do compacto de Anarchy in The UK na Inglaterra, em 1976.

Joe Corré Joe Corré

Muito maior do que qualquer regra de conduta, estética ou sonoridade, a liberdade e a franqueza, a sede pela independência de pensamento e ação são ainda hoje a grande herança – e por isso, por essa libertação, é que o punk é tão influente.

É impossível pensar em tudo que aconteceu de relevante nos anos 1980 e 1990 em termos culturais, até mesmo na internet e na revolução digital (que permite que um conteúdo seja produzido em casa e distribuído para o mundo inteiro sem precisar do apoio direto de uma grande corporação) sem lembrar do lema do movimento punk. Faça você mesmo. Até hoje, um convite à liberdade – o que nos move à novidade, àquilo que pode nos trazer uma voz própria, um sentido próprio, contra tudo e todos, do jeito que quisermos. A verdade, mesmo que ela não agrade. Vamos relembrar um pouco dessa história?

O CBGB, em Nova Iorque, espécie de meca do Punk, onde grande parte das bandas seminais do movimento se apresentou, no final dos anos 1970 O CBGB, em Nova Iorque, espécie de meca do Punk, onde grande parte das bandas seminais do movimento se apresentou, no final dos anos 1970

Origens

Como todo acontecimento artístico relevante, não é possível apontar uma origem única para um movimento. Afinal, ainda que oficialmente o Punk tenha ganhado os ouvidos e corações em 1976, como negar que a banda Death já era Punk em 1971? Quem pode dizer que Kick Out The Jams, do MC5, não é um disco proto-punk? Como não dizer o mesmo dos New York Dolls? E os Stooges, ou o Velvet Underground, em 1967? My Generation, do The Who, em 1965 já não apontava certa essência do que viria a ser? E You Really Got Me, do Kinks? Seria Louie, Louie, dos Kingsman, em 1963 o verdadeiro pontapé inicial?

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Ramones, Pistols e Clash

O punk é de certa forma nada mais do que o paroxismo do que fez do rock algo singular: a força caótica e contundente de corações juvenis em fúria. Aqui, porém, trataremos do surgimento do que viria a ser sua santíssima trindade do punk; as três bandas que mais e melhor encarnaram o espírito, o discurso, a estética e a sonoridade desse que é o momento mais influente e impactante da história do rock depois dos Beatles: Ramones, Sex Pistols e The Clash.

Ramones Ramones

Sex Pistols Sex Pistols

The Clash The Clash

É justo mencionar logo de cara que a grandiosidade dessa trindade não eclipsa outras grandes bandas ligadas ao movimento (e que poderiam também ser usadas como veículo para ilustrar essa história). Nomes como Television, Buzzcocks, Patti Smith, Richard Hell, Misfits, The Damned, Black Flag, Blondie, Dead Boys, The Violent Femmes, Minor Threat, Bad Brains, Talking Heads, Dead Kennedys e Descendents, entre tantas outras, apontam o amplo campo de ação estético e discursivo, o poder dessas primeiras dentições do que o punk veio a ser.

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Apesar de tantas raízes espalhadas pelo tempo – o termo “punk” já era usado no século XVI para se referir às prostituas, e até Shakespeare o utiliza nas peças Medida por Medida e As Alegres Senhoras de Windsor -, foram os Ramones, com seu disco de estreia, quem primeiro sintetizou as bases rítmicas, temáticas e sensíveis desse espírito. Feito alquimistas, transformaram desilusão, alienação, não pertencimento e a suposta falta de talento para tocar em força estética e comportamental – um discurso e um som que matariam a sede de milhões de outros jovens deslocados e desiludidos pelo mundo.

Liberdade agora

Baixo, guitarras e bateria, em canções simples e rápidas, poucos acordes, letras cruas, formatadas no direto ao ponto de quem tem pressa para berrar as intempéries do próprio coração. Garotos enlouquecendo, cheirando cola para terem o que fazer, assustados com o que pode haver nos porões de suas casas e de suas cabeças, procurando respostas para perguntas que somente sentem e nem sabem enunciar. Faça você mesmo, é o que diz o lema do movimento: não dependa de profissionais ou especialistas para fazer sua banda, sua revista, sua vida. Faça você mesmo. Os Ramones e o movimento punk sem querer compreenderam e definiram o espírito, o temperamento, o sentimento e sentido daquele período histórico – o chamado zeitgeist da segunda metade dos anos 1970.

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Pois agora as canções teriam de falar diretamente sobre o que sentiam, nas ruas, em casa, em oposição absoluta às canções polidas e limpas que costumam dominar o cenário comercial. A partir e na direção desses sentimentos crus e verdadeiros, na tal parresía do primeiro parágrafo, era preciso dizer a verdade, soar de verdade, custasse o que custasse.

E a verdade era que o conservadorismo emergente da década de 1970, a recessão econômica, o cinismo individualista vigente e a elevação dos artistas à condição de deuses milionários e inalcançáveis fez da vida dos jovens, principalmente os que tinha dinheiro de menos e coração demais, uma sonora porcaria. Mais importante do que ficar feliz é se sentir vivo, representado, pulsando, e foi isso que o punk fez então pela molecada.

Revolução estética

A capa do primeiro disco dos Ramones é uma das mais icônicas da história do rock – fotografada por Roberta Bayley, da revista-zine Punk, publicação fundamental e que mereceria um especial a parte. O despojamento dos quatro membros da banda, postados diante de um muro nova-iorquino, uniformizados, os faz parecer uma gangue, com suas indumentárias de couro, jeans, camisetas curtas sobre as figuras mais estranhas que o rock já havia visto – em especial Joey Ramone, um homem de quase dois metros de altura e cabelos cobrindo seu igualmente estranho rosto, um garoto gigante com cara de velho e voz de adolescente, cantando canções velozes sob melodias furiosamente doces.

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O visual da banda parecia naturalmente emanar todo o discurso e a postura que o som viria a significar, entre o ingênuo e o profético, a bobagem absoluta e a verdade mais contundente. Os Ramones não se pareciam com nada do que estávamos acostumados – especialmente porque, por debaixo de pose, eles se pareciam com qualquer um de nós. O disco, batizado com o nome da banda, foi lançado em 23 de abril de 1976, e é o marco zero dessa virada de página.

De volta à terra da rainha…

Enquanto isso, do outro lado do atlântico, a greve geral dos lixeiros em Londres fazia o jovem John Lydon sorrir. Acostumado a se vestir com sacos de lixo, a sujeira generalizada que tomava conta da cidade, assim como a depressão econômica da época, fez, segundo o próprio, pela primeira vez com que Londres se parecesse de fato com sua própria vida. O momento parecia apropriado para o surgimento de algo como o punk na Inglaterra.

O jovem John Lydon O jovem John Lydon

John Lydon era um dos assíduos frequentadores da loja de roupas SEX, em Londres, da estilista Viviane Westwood e seu marido Malcom MaClaren, que viria a ser empresário dos Pistols. Espécie de ponto de encontro dessa juventude perdida, foi na SEX que a banda nasceu. Lydon foi rebatizado como Johnny Rotten (Joãozinho Podre) e os Sex Pistols passaram a existir em sua encarnação histórica.

A boutique SEX, de Viviane Westwood e Malcom McLaren A boutique SEX, de Viviane Westwood e Malcom McLaren

A banda durou dois anos e meio somente, lançando um punhado de compactos e um único disco, o clássico Nevermind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols, mas foram os Pistols quem cunhou a estética indefectível do punk inglês: cabelos espetados, roupas rasgadas com alfinetes, a iconoclastia absoluta, o ataque frontal a toda e qualquer instituição, política ou comportamental.

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Ainda que um tanto caricaturais – a banda foi planejada por Malcom McLaren e Viviane Westwood para abalar os valores estéticos e morais da sociedade britânica de então – os Pistols foram uma versão mais diretamente política do discurso iniciado pelos Ramones. Basta lembrar que Anarchy In The UK, o primeiro compacto da banda, lançado também em 1976, propagandeava a anarquia como única solução para o Reino Unido. Em seguida lançaram God Save The Queen, um hino de escárnio à rainha que, segundo a canção, “não é humana”.

Capa do compacto de 'God Save The Queen' Capa do compacto de ‘God Save The Queen’

Vicious

O que os Ramones tinham de charmosos e atraentes, os Pistols tinham de provocadores e torpes. Sujos, falando palavrões e xingando a tudo e a todos, a banda procurava ser o mais obsceno e repulsivo possível – o que se agravou com a entrada de Sid Vicious na banda, que tinha o singelo hábito de se cortar até sangrar no palco e cuspir na platéia. Sid viria a matar a namorada, Nancy Spungen, durante um momento de delírio e intoxicação dentro de lendário Chelsea Hotel, em Nova Iorque, parar morrer pouco tempo depois, de overdose, aos 21 anos.

Sid e Nancy Sid e Nancy

A singela presença de Sid e seus cortes em um show dos Pistols A singela presença de Sid e seus cortes em um show dos Pistols

As músicas dos Pistols, assim como no caso dos Ramones – e apesar da rudeza das letras – eram deliciosamente palatáveis, feitas com precisão para serem lembradas após uma única audição, tanto por sua originalidade quanto pelo aspecto melódico e o impacto do som mais sujo feito até então. Canções igualmente simples, turbinadas pela impressionante expressividade vocal que fez de Johnny Rotten um dos mais influentes e memoráveis vocalistas de rock de sua época.

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London Calling

Foi também em 1976 que o Clash realizou seu primeiro show. Se os Ramones foram para o punk o que Elvis foi para o Rock n’ roll, o Clash foi o equivalente aos Beatles.

The Clash The Clash

De certa forma o Clash era o adulto dessa tríade, especialmente diante de seu terceiro disco, o imbatível London Calling – um álbum duplo, misturando punk com jazz, reggae, ska, rockabilly, pop e R&B em letras elaboradas e politizadas. Até hoje o disco se sustenta como um dos mais importantes e estimulantes da história do rock.

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Depois do London Calling, a banda foi ainda mais longe, com Sandinista!, um LP triplo, com 36 canções, misturando ainda mais ritmos e sonoridades, como se o Clash pudesse trabalhar com qualquer musicalidade, sempre com a pungência do faça-você-mesmo, da urgência vital como motor dessas misturas. London Calling foi o Sgt. Pepper’s do movimento punk, e Sandinista! foi o Álbum Branco.

The Clash.

Politizados de forma muito mais consciente do que o cinismo quase aleatório da anarquia dos Pistols, o título de “a única banda que importa” dado ao Clash faz todo sentido. De uma maneira difícil de explicar mas fácil de sentir, o punk encontra sua maturidade mais sólida, seu melhor fruto, seu produto final nesses dois discos.

‘Panqui’

No Brasil, o fim dos anos 1970 eram também o início do fim da ditadura militar, que se arrastava já há quase 15 anos, massacrando os direitos e as liberdades da população. O punk ganhou força por aqui alguns anos depois, já no início dos anos 1980. A banda Restos de Nada é considerada a primeira banda punk do Brasil, ainda que outras bandas, como Joelho de Porco, apontassem já para essa sonoridade no início dos anos 1970. Da Restos de Nada surgiu Os Inocentes, e em seguida outros nomes, como Cólera, Olho Seco, Ratos de Porão e as primeiras bandas do que viria a ser o rock de Brasília confirmaram a chegada do punk por aqui.

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Em novembro de 1982 aconteceu no SESC Pompéia, em São Paulo, o festival Começo do Fim do Mundo, foi o primeiro grande evento ao redor do movimento no Brasil. Quem quiser saber mais, recomenda-se o documentário Botinada: a origem do Punk no Brasil.

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Todas as imagens: Reprodução

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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