Seleção Hypeness

Seleção Hypeness: 8 poetas contemporâneas que você precisa conhecer

por: Redação Hypeness

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Quem for um dia estudar a poesia brasileira dessa segunda década do século XXI invariavelmente se verá diante de um fato: a mais impactante poesia realizada nesse momento é feita por mulheres.

As idades são diversas, assim como as origens e os estilos, mas o lugar de onde falam é o mesmo. Falam como mulheres, com suas peculiaridades e diferenças, sem emular sentimentalidades ou traços de escrita masculinas, trazendo um frescor necessário e revigorante para a cena literária e poética nacional.

Naturalmente que toda lista é pessoal, e são muitos os nomes que poderiam constar aqui. Porém, mais importante é a afirmação de que a melhor poesia brasileira atual é feminina. Nesse 8 de março, separamos 8 nomes que merecem mais do que nossa atenção; merecem aplausos, lágrimas e o agradecimento que há poesia deve receber, por fazer a vida se ampliar, a fim de tentar tornar mais plenas nossas emoções, sentidos e desejos. Conheça aqui um pouco dessas poetas e de seus poemas.

Alice Sant’Anna

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Sob a influência de Ana Cristina César, a carioca Alice Sant’Anna lançou Dobradura, seu primeiro livro, em 2008 – considerado na época o livro do ano pelo Jornal do Brasil. De lá pra cá publicou Pingue –Pongue, (2012), em parceria com Armando Freitas Filho, e Rabo de Baleia (2013). Alice é dona de uma poética delicada e serena, com uma contundência intensa ainda que quase silenciosa.

um enorme rabo de baleia
cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

Ana Martins Marques

POETAS8

A poeta mineira Ana Martins Marques é autora dos livros A Vida Submarina (2009), Da Arte das Armadilhas (2011) e O Livro das Semelhanças (2015). Finalista do prêmio Portugal Telecom e vencedora dos prêmios Biblioteca Nacional e Alphounsus de Guimaraens, a autora afirma uma poética despojada porém rigorosa, que nos leva às profundidas da vida cotidiana.

Dentro do armário

do seu quarto de dormir

deve haver um espelho

Se você sai

e deixa o armário aberto

durante todo o dia

o espelho reflete

um pedaço da sua cama

desfeita

Se você sai

e deixa a porta fechada

durante todo o dia

o espelho reflete o escuro

do seu armário de roupas,

a luz contida dos vidros

de perfume

Do outro lado do poema

não há nada

Ana Guadalupe

POETAS1

Ana Guadalupe é uma poeta sintética com influências pop, sem jamais porém perder a densidade da alta literatura de vista, tratando do agridoce efeito do tempo, da memória, das dores e graças da vida. Paranaense que adotou São Paulo como sua casa, Ana é autora dos livros Relógio de pulso (2011) e Não conheço ninguém que não seja artista (2015).

Passé composé

subiu as escadas
para perguntar sobre as palavras
derrubadas pelo meu sotaque

afirmei que meu amor é
enorme, um móbile
perdido entre arandelas;

disse que meu amor é
firme, retorna com maçãs
e canela das pernas;

se perguntasse sobre a
fertilidade, os perni-
longos, a falta de sorte,

responderia que meu amor é
forte, chacoalha as árvores
sempre que parte.

Angélica Freitas

POETAS5

Dona de uma poética humorada e crítica, a obra da gaúcha Angélica Freitas é vigorosa, feminina e original – tanto nos temas quanto na abordagem e no caminho de sua autocrítica de alvo universal. Uma das mais celebradas poetas da safra, Angélica é autora dos livros Rilke Shake (2007) e Um útero é do tamanho de um punho (2013).

sereia a sério

o cruel era que por mais bela
por mais que os rasgos ostentassem
fidelíssimas genéticas aristocráticas
e as mãos fossem hábeis
no manejo de bordados e frangos assados
e os cabelos atestassem
pentes de tartaruga e grande cuidado

a perplexidade seria sempre
com o rabo da sereia

não quero contar a história
depois de andersen & co.
todos conhecem as agruras
primeiro o desejo impossível
pelo príncipe (boneco em traje de gala)
depois a consciência
de uma macumba poderosa

em troca deixa-se algo
a voz, o hímen elástico
a carteira de sócia do méditerranée

são duros os procedimentos

bípedes femininas se enganam
imputando a saltos altos
a dor mais acertada à altivez
pois
a sereia pisa em facas quando usa os pés

e quem a leva a sério?
melhor seria um final
em que voltasse ao rabo original
e jamais se depilasse

em vez do elefante dançando no cérebro
quando ela encontra o príncipe
e dos 36 dedos
que brotam quando ela estende a mão

Bruna Beber

POETAS9

A carioca Bruna Beber traz sua infância no município de São João de Meriti (RJ), e a nostalgia idílica desse passado como a voz que se mistura ao seu humor debochado e lírico diante do banal. Autora dos livros A fila sem fim dos demônios descontentes (2006), Balés (2009), Rapapés & Apupos (2010) e Rua da Padaria (2013), Bruna foi vencedora do prêmio Quem Acontece na categoria Revelação Literária de 2008.

todo urubu titia gritava
urubu urubu, sua casa
tá pegando fogo

todo estrondo na rua
papai dizia eita porra
aposto qué bujão de gás

todo avião vovó acenava
é seu tio! desquentrou preronáutica
num tenho mais sossego

temi e ainda temo toda espécie
inflamável lamentei tanto urubu
desabrigado desejei o fim
da força aérea brasileira

só custei a entender mamãe
e o que queria dizer com seu irmão
não vem mais brincar com você
papai do céu levou.

Laura Liuzzi

POETAS3

Na poesia de Laura Liuzzi ressaltam o gosto pelas sonoridades, a discrição e delicadeza e uma confessional investigação de si, que nos leva a poéticas universais. Procurando poesia nos detalhes, seu texto é jovem, mas sem perder o peso de uma experiência que se dá para além da idade. Carioca, Laura publicou os livros Calcanhar (2010) e Desalinho (2014).

GRAVIDADE

Não são os meus pés na areia
nem a insistência das manhãs
é a interferência da saudade
e um homem sentado na franja da praia
tremelicando
é o silêncio das ilhas fixando o oceano
distraindo essa inevitável vontade de escapar
é o andaime erguido na frente da janela
saída de incêndio ou emergência –
você era o meu ponto de fuga
um anjo disfarçado
meio curinga
com perigo de correnteza
e se eu me arrastar
vou te dizer que sou um transatlântico
inabalável
altiva, com pálpebras pelo meio dos olhos.
Não são os meus pés na rua
eu te garanto que navios não têm pés.
É uma alma de astronauta.

Matilde Campilho

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Sabemos que Matilde é portuguesa, mas tanto viveu no Rio e se misturou de tal forma com a cidade que naturalmente entrou na lista. Jóquei, seu único livro, de 2014, percorre em sua prosa poética justamente uma aflição cosmopolita, enraizada em suas origens lusitanas, ainda que dando o sentido de não ter raiz alguma, pertencendo a toda parte e sendo estrangeira em todo lugar.

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR

Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.

Marília Garcia

POETAS2

Marília Garcia é carioca e autora dos livros 20 poemas para o seu walkman (2007), Engano Geográfico (2012) e Um teste de resistores (2014). Seus poemas se constroem em tons quase ensaísticos, mergulhando em si por caminhos ao mesmo tempo anedóticos e filosóficos, que pulsam com originalidade e vigor.

plano b

hola, spleen, disse. nos cruzamos em

uma lagoa de atol. sentada no banco de trás

olhava pelo vidro azul cobalto

a 3000 quilômetros do ponto em

que o deixara.

hola, spleen, disse. você ainda vai me ver

três vezes antes do fim. uma linha esconde

outra linha, a voz esconde o que pré-

existe entre os dois. pensava na carta sem remetente

em alguma maneira de dizer pensava nas

esculturas sonoras (não havia

um plano c? para onde

seguia)

era como descobrir o sulco

fechado de um disco e ficar

rodando no loop daquela melodia

circular. precisa de uma língua

que defina isso

hola, spleen, disse.

mas não falava da latitude

no mapa, eram peixes

no fundo do oceano com a cartilagem

luminosa derretendo nos olhos

e a única preocupação quando

entrou era o som por detrás da voz dela:

saber se está triste há um ano

ou há 24 horas.

(na volta, passa a colecionar

objetos. a vingança começa num

aquário:

é como furar a realidade

com a realidade, ele dizia, ficar no quarto

medindo o nível do mar

para descobrir onde pôr

os peixes)

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Redação Hypeness
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