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Sister Rosetta Tharpe: e se uma das inventoras do Rock for uma mulher negra dos anos 1940?

Vitor Paiva - 08/03/2016 | Atualizada em - 17/08/2021

É impossível de fato cravar um começo objetivo de um movimento tão amplo e complexo quanto o rock n’ roll, mas uma de suas criadoras é incontestavelmente a cantora e guitarrista estadunidense Sister Rosetta Tharpe. A história oficial diz que o R&B negro entrou em colisão com o country branco nos EUA em velocidade e intensidade altas, e assim nasceu o que se convencionou chamar de rock n’ roll. Pela voz, os quadris e a branquitude de Elvis Presley e em um país e contexto profundamente racista, a força sem igual da música negra pôde invadir os lares da classe média branca dos EUA e do mundo e assim, se tornar verdadeiramente popular – levando os jovens ao delírio e a família tradicional à loucura

E tudo isso é verdade. O rock, no entanto, para além de seu título e naquilo que tem de essencial, já existia muito antes de se tornar popular – e há décadas. Não é possível ou preciso apontar de fato um único inventor para tal surgimento, mas é sim possível reconhecer uma complexa e extensa árvore genealógica, sem pai nem mãe, do estilo – e nessa incrível confusão originária, uma das mais pioneiras e mais radicais vozes do gênero foi Sister Rosetta Tharpe, uma mulher negra com uma guitarra nas mãos – o que justifica muito provavelmente a razão dela ser tão pouco mencionada como parte tão importante dessa história. O rock é negro, portanto, e também essencialmente feminino.

A cantora e guitarrista Sister Rosetta Tharpe

A cantora e guitarrista Sister Rosetta Tharpe com sua Gibson SG

Sister Rosetta Tharpe é uma guitarrista de rock em todos os sentidos possíveis dessa nomenclatura – e das melhores; mais pungentes e cheias de atitude, incendiando um ritmo com solos e riffs viscerais. Entre os muitos gestos pioneiros da artista, Tharpe foi uma das primeiras guitarristas a usar uma distorção forte e rasgada no instrumento, antevendo em décadas o que se tornaria marca inconteste da força do rock. O agravante, portanto, é que sua música se tornou popular nos EUA ainda nos anos 1940 – muitos anos antes do surgimento oficial do que seria compreendido como rock n’ roll. 

Biografia

Nascida Rosetta Nubin em 1915 de mãe e pai catadores de algodão – em uma cidade inclusive chamada Cotton Plant, ou “algodoeiro”, em tradução livre, no estado de Arkansas, no sul dos EUA – pouco se sabe sobre seu pai, a não ser que ele também era cantor. Como na absoluta maioria dos casos, seu início na música se deu dentro das igrejas, e rapidamente seu talento para a guitarra se revelou feito um milagre. A primeira gravação se deu quando Sister Rosetta Tharpe tinha 23 anos, e entre as quatro canções gravadas para a gravadora Decca estava “Rock Me”, considerado ponto fundamental do início do rock e do próprio batismo do gênero e do movimento que viria.

Sister Rosetta Tharpe com uma Les Paul

Além da SG, Tharpe também tocava com um icônico modelo Les Paul

Durante décadas a artista foi simplesmente considerada “gospel”, ou no máximo a “madrinha” do surgimento do rock, mas todos os artistas reconhecidos como criadores do estilo apontam para ela como influência direta: nas palavras dos próprios, não haveria Elvis, não haveria Chuck Berry, não haveria Johnny Cash, não haveria Little Richard sem Rosetta – o próprio Little Richard costumava aponta-la como sua cantora preferida ao longo de sua juventude. Sister Rosetta Tharpe faleceu em 1973 aos 58 anos em decorrência de um derrame: em 2017 ela seria incluída no Hall da Fama do Rock como uma das influências fundadoras do gênero.

O fato, portanto, é que Sister Rosetta Tharpe é uma das grandes criadoras da música no século XX, e merece mais do que alguns parágrafos, e não há motivos fora dos preconceitos e machismos habituais para não vê-la como uma das inventoras diretas do estilo. Estava tudo lá: a atitude, a profundidade na voz e na interpretação, o ritmo sincopado, veloz e dançante, a mistura de estilos, os solos estalados, a sonoridade distorcida da guitarra, e até os instrumento propriamente, em modelos como uma Gibson Les Paul ou SG, que viriam a se tornar símbolos do rock então por vir.

É evidente que ser mulher, e uma mulher negra em um contexto absolutamente masculino, afetou diretamente tal necessário reconhecimento, mas acima das justificativas estão os fatos, ou melhor: o som. Basta ouvir para entender que muitas das raizes do que amamos e nos arrepiamos com o rock já estava lá – e ainda está.

SISTER5

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© fotos: arquivo


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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