Desafio Hypeness

Como fui dos 106Kg aos 10Km em sete meses

por: Bruna Rasmussen

Duas camisetas, um casaco, luvas e uma espécie de cachecol: passavam das sete da noite, mas não passavam dos dois graus. Em qualquer outra noite de inverno como aquela, eu provavelmente estaria debaixo das cobertas macias e quentinhas, comendo algum lanche ultracalórico supersaboroso com quantidades obscenas de açúcar, sódio ou manteiga – ou talvez os três juntos. Mas não, naquele 15 de junho eu estava em um parque, determinada a começar a correr.

Com três dígitos na balança, fazer qualquer coisa além de andar não era uma tarefa exatamente fácil e exigiria uma dose generosa de persistência. Eu não corria nem atrás do ônibus, mas precisava começar de alguma forma.

No primeiro dia, caminhei em passos firmes, mais ligeiros do que as pernas estavam habituadas, e corri em alguns trechos, pouco mais de 50 metros por vez. Cerca de três semanas depois, colegas gravaram o momento em que, quase sem fôlego, eu completava o que pode-se chamar de os primeiros 500 metros contínuos de corrida de toda a minha vida. Com pouco menos de dois meses, já conseguia correr a volta completa do parque sem pausas. Passados sete meses, muitos quilômetros e litros de suor, eu completava minha primeira prova de 10K. Eu era, enfim, uma corredora.

Mas por que diabos eu, obesa em meus 106 kg, decidi sair de casa para tentar correr, machucar os joelhos, estropiar as articulações, suar horrores, passando vergonha, e colocar minha saúde em risco em pleno inverno curitibano? Pois é, me perguntaram tudo isso. A verdade é que chegar aos 106 kg é muito fácil. Você apenas vai… fazendo escolhas alimentares que não têm sentido, mantendo uma relação problemática com a comida, dando desculpas o tempo todo e abraçando o sedentarismo. E quando você percebe, andar 20 minutos é tipo ir à guerra, as roupas não servem mais, não há posição para dormir e, por mais que você tenha uma relação cética com o seu médico, é difícil não se preocupar quando ele explica que gordura abdominal infiltra nos órgãos e que, bem, isso é problemático – além de ser meio, ugh, nojento?

Não me lembro se cheguei antes aos 106 kg ou aos 24 anos, mas eu tinha de fazer algo sobre isso.

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No primeiro mês de exercícios. Começar é sempre a parte mais difícil!

Minha história de vida é a clássica história de gordo: sempre fui gordinha, desde pequena, já passei pela mão de trocentas nutricionistas e endocrinologistas, achei que todos os meus problemas estavam resolvidos quando fui diagnosticada com hipotireoidismo e descobri, para meu azar, que não era bem assim. Já emagreci um bocado algumas vezes na vida e voltei a engordar. Já fiz dieta da lua, da sopa, dos pontos, da proteína, do gengibre, e a maioria durou três dias e não resolveu nada. Já tomei fórmula, fiz jejum, chorei, neguei, fiquei triste porque tinha engordado, e comi porque estava triste, e engordei mais, e não resolveu nada.

Descobri então que um cara que estudou comigo na faculdade havia emagrecido incríveis 57 kg só com exercício físico e readequação alimentar e que estava, junto a profissionais de Educação Física e Nutrição, ajudando pessoas obesas em um programa de emagrecimento na linha “come direito e corre“. Pra quem já havia tentado tanta coisa, partir para uma solução mais racional, longe das promessas mágicas, fazia sentido. Afinal, correr e comer direito é um bocado mais sensato que “perca 3 kg com água de berinjela” – ainda que mais demorado e difícil.

A menos que você tenha alguma contraindicação médica, tornar-se um corredor é questão de treino. “A corrida é o esporte mais democrático que existe, você não precisa de mais pessoas ou equipamentos super específicos para realizar a atividade, basta ter vontade”, afirma o personal trainer Guilherme Souza, um dos profissionais que me ajudou nessa jornada.

Felipão, meu veterano da faculdade e hoje companheiro de corridas, pesava 151 kg quando começou a caminhar e correr trechos curtos. Com reeducação alimentar e muito exercício, perdeu mais de 50 kg em seis meses e hoje é maratonista. Lá no projeto, que leva o nome de #VAIFELIPÃO, já passaram homens e mulheres de todas as idades e níveis de obesidade. Chegam obesos sedentários, saem corredores saudáveis.

Ninguém vai do sedentarismo à maratona em um mês. Começar a correr é uma prazerosa jornada de superação que exige determinação e paciência. O mais indicado é começar intercalando entre caminhada e corrida. “Normalmente se faz uma progressão nos exercícios, aumentando as cargas de treino. Na corrida, as cargas seriam velocidades, tempo e distância. Esse aumento progressivo nos leva a entender que a melhor forma de iniciar a corrida seria intercalando com caminhadas. Por exemplo, dividir o tempo total de exercícios em blocos de 5 minutos, em que se corre durante 2 minutos e se caminha durante 3 minutos, aumentando os tempos de corrida até atingir a corrida em tempo total”, orienta o personal.

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Essa é a proposta de alguns programas como o famoso C25K (Couch to 5K ou Do sofá aos 5K). A brincadeira é intercalar corrida e caminhada até que você consiga correr 5 km (5K) continuamente. Seguindo o programa padrão, disponibilizado online gratuitamente, isso é possível em 9 semanas. E acredite, é possível! Isso não quer dizer que você vá conseguir correr os 5K em 30 minutos, mas você vai conseguir correr os 5K. E no fim das contas, é isso que importa: devagar e sempre; o que não vale é desistir no meio do caminho.

Fui do estágio “não penso em correr nem atrás do ônibus” para “acordei com vontade de correr” em seis meses. Na corrida encontrei uma forma de extravasar o estresse e toda a ansiedade do dia a dia – que confesso não ser pouca. Se antes eu chegava em casa cansada ao fim de um dia complicado e me acabava numa pizza (média, inteira, com borda recheada e refri), hoje eu saio correr para esvaziar a cabeça e acalmar o corpo – é incrivelmente terapêutico.

Com a corrida, ganhei também amigos incríveis e a possibilidade de uma vida completamente nova, com saúde e muito mais disposição. Sim, hoje faço parte daquele grupo de malucos que acorda 5h30 da manhã de um domingo para correr 10K em uma prova que tem largada às 7h, que acha graça quando tem bolhas no pé (mesmo quando tá doendo pra caramba) e que coleciona medalhas na parede da sala.


A primeira prova de 10K a gente nunca esquece 🙂

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Galera do #VAIFELIPÃO

Em breve, completarei 1 ano de corridas e alimentação saudável. Ainda não cheguei a uma maratona, mas as conquistas já são muitas: deixei mais de 20 kg para trás, os exames médicos estão excelentes, consigo correr 10K tranquilamente, ganhei disposição e saúde, na parede já há 5 medalhas e posso dizer que tenho uma vida nova – os prazeres vão de comprar uma calça 42 até conseguir ir de bike ao escritório. Esquece água de berinjela, churrasco de melancia, óleo de coco, suplemento e shake: não há atalhos para uma vida saudável. Não fiquei com corpo de Panicat (e nem tenho intenção!) ou me tornei uma super atleta, mas me livrei da obesidade, adquiri hábitos positivos e, finalmente, sinto-me feliz e bem 🙂

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Quando comecei a correr (esq.) e após minha corrida mais recente, fechando 10K em 01:08:47, recorde pessoal nos 10K até agora 🙂

Finalizo este relato com algumas dicas para quem tem vontade de começar a correr ou ser mais saudável:

Os primeiros 400 metros são sempre os piores: “que diabos eu vim fazer?” e “deveria ter ficado em casa” pensamentos que não raro surgem durante os primeiros 400 metros de uma corrida. Os primeiros metros são sempre os mais difíceis, mas continue a correr que logo passa. É sério!

Correr é um UFC mental: quando você vê aquela subida gigantesca te esperando, o cérebro te sabota e diz: “você não vai conseguir”. Pois bem, o grande desafio da corrida é você teimar e dizer pra ele: “fica na tua aí que vou conseguir, sim”. Na corrida, você compete com o cérebro; o jogo é mais mental que físico.

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A importância do tênis: antes de começar a correr, vá até uma loja especializada e faça um teste de pisada. Comprar um tênis adequado ao seu jeito de pisar é fun-da-men-tal para evitar lesões. Invista em um bom tênis e o resto é resto! E falando em lesões…

Fortalecimento muscular: principalmente para quem tem bastante peso para perder, aliar as corridas a um treino de fortalecimento muscular é muito importante. Como afirma Guilherme, “a musculação pode dar o suporte muscular que o corpo precisa para evitar lesões causadas por impacto, atrito ou compensações musculares”.

Água, água e água: sabe aqueles 2 litros de água que mandam a gente tomar? Dependendo do seu peso, 2 litros é pouco! A fórmula tida como ideal, hoje, para definir a quantidade de água a ser consumida diariamente é a seguinte: 35 ml a 40 ml de água por quilo de peso. Tá com vontade de doce? Toma água. Tá com sono? Toma água. Tá nervoso? Toma água. “Nós somos feitos de 65-70% de água. Todas as reações químicas celulares ocorrem em meio aquoso. E sim, somos orquestrados pelas células! Um ambiente celular melhor hidratado faz toda a célula trabalhar melhor. A água também é um excelente controlador do apetite e ativador do metabolismo. O centro de fome/sede/saciedade são próximos no cérebro e às vezes esses estímulos se confundem”, afirma a nutricionista Naiara Belmont (CRN 86774).

Escolhas saudáveis: optar por um pacote de bolacha de aveia com nome fit ou por uma bolacha com recheio duplo e muito chocolate? Nem uma, nem outra. Saudável mesmo são alimentos naturais. A nutricionista dá a dica: “reduza ao máximo o consumo de alimentos industrializados. Cozinhe sua comida sempre que possível”. Isso significa trocar a barrinha de cereal por castanhas e frutas secas, o pão de pacote por um pão integral feito em casa, o suco de caixinha por suco natural e deixar os congelados prontos bem longe da sua geladeira. Isso não quer dizer que nunca mais na vida você vai comer uma coxinha ou uma pizza, mas as “gordices” devem ser o cardápio da exceção; o vez em quando. “Ter uma relação saudável com a comida é, principalmente, comer sem culpa! É saber que você pode comer algo diferente como doces, frituras e cerveja de vez em quando e que seu peso não vai se alterar por conta disso. É saber lidar com emoções sem usar a comida para isso”, afirma Naiara.

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Lendo rótulos: uma das coisas mais interessantes e úteis que aprendi no que diz respeito à alimentação nesse período foi a leitura de rótulos. Basicamente, ao escolher um alimento, o primeiro cuidado deve ser ler a lista de ingredientes. A ordem é sempre decrescente, ou seja, os primeiros ingredientes da lista são os que vêm em maior quantidade no alimento. Dessa forma, se a barrinha de cereal que se diz fit tem como primeiro ou segundo ingrediente o açúcar, fuja dela! O mesmo vale para pães que se dizem integrais mas que trazem como primeiro ingrediente a farinha de trigo comum. Eventualmente, você vai aprender que produtos “normais” podem ser inclusive melhores que suas versões light/zero. Afinal, trocar algumas calorias por doses assombrosas de sódio nem sempre faz sentido. Caloria e peso na balança não é tudo!

E aí, #partiu corrida?

Nota: recomendamos que, além das dicas acima, antes de iniciar a prática de qualquer atividade física, visite o seu médico e confira seu estado de saúde. Depois sim, é hora de aproveitar todas as vantagens de uma vida ativa 🙂

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Bruna Rasmussen
Bruna escreve para a internet desde 2008 e tem paixão por consumir informação e descobrir coisas. Adora gatos, inovação e é curitibana – fala “duas vinas”, mas dá “bom dia” no elevador.

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