Inspiração

‘Eles não estão demolindo a escola, mas sim consertando ela’, diz professor de escola ocupada

por: Vitor Paiva

A luta pela educação é o pano de fundo essencial para qualquer causa no Brasil, como combustível para um país menos desigual e mais justo. Por isso, em um momento de retrocesso político tão sombrio quanto o atual, visitar uma das ocupações em escolas no Rio de Janeiro é comovente e inspirador.

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Eu frequentei a Escola Estadual Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado, Rio de Janeiro, por um final de semana. Lá vi saraus de música e poesia lotados de juventude e ânimo, debates ricos, uma multidão de ouvidos e cabeças abertas, tudo realizado com organização coletiva impecável e pensamento comunitários.

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Aproveitei para conversar com dois professores e dois alunos diretamente envolvidos na Ocupa Amaro: Romã Duarte, professora de sociologia, Daniel Carvalho, professor de geografia, Maria Eduarda Cunha, de 16 anos, aluna do 2º ano, e Gabriel Richards, de 18 anos, da Associação de ex-alunos do Colégio. Eles dividiram conosco os propósitos da ocupação, as dificuldades e sonhos que essa resistência tão nova e forte pode trazer para a educação, a escola e o país. Essa molecada que só quer saber de aprender tem muito o que nos ensinar.

Atualização: Neste final de semana, a polícia militar retirou, com uso de violência e de forma truculenta e ilegal, a ocupação que vinha se dando na Secretaria de Educação do Rio. O mesmo tentou se fazer no próprio Amaro Cavalcanti, mas a convocação feita pelo pessoal da Ocupa Amaro trouxe a população para frente da escola e, junto com a força dos próprios alunos, o ataque da polícia não aconteceu, apesar do cerco e das intimidações. A ocupação permanece, mas a adesão e a resistência da sociedade civil como um todo são cada vez mais fundamentais para que a voz dos alunos e da educação fale mais alto que a voz do poder e do dinheiro.

Romã Duarte e Daniel Carvalho, professores do Amaro Cavalcanti Romã Duarte e Daniel Carvalho, professores do Amaro Cavalcanti

Vitor Paiva – Quais são as principais reivindicações do Ocupa Amaro?

Daniel – Melhorias na infraestrutura da escola, como a climatização das salas de aula e reformas do sistema hidráulico, entrega de uniformes e materiais didáticos para todos os alunos (há pilhas de livros encalhados no auditório). Há também a chamada pauta pedagógica, que inclui a eleição direta para diretor da unidade, o fim do SAERJ (avaliação dos alunos, que premia as escolas melhores colocadas, colocando professores e alunos sob pressão e abandonando as escolas com baixo desempenho) e do Currículo mínimo.

Gabriel – A ocupação é também uma reação a tudo que está acontecendo. Temos um crise política, econômica e moral acontecendo no país. Então a ocupação surge como um basta aos cortes de verba e a não priorização da educação. Eles investem bilhões dos cofres públicos em mega eventos, que não trazem retorno nenhum à juventude. O fim do SAERJ ao menos a gente já conseguiu.

Maria Eduarda e Gabriel, aluna e ex-aluno, membros da ocupação Maria Eduarda e Gabriel, aluna e ex-aluno, membros da ocupação

VP – Como funciona o dia a dia da ocupação? Como são tomadas as decisões?

Romã – A ocupação segue um modelo de autogestão. Logo, as decisões são tomadas coletivamente e todos respondem por elas. No Ocupa Amaro, os alunos organizam-se em comissões (limpeza, alimentação, comunicação, atividades, segurança). Diariamente fazem uma assembleia para debater as questões do dia e aparar arestas. A semana é repleta de aulas e atividades oferecidas pelos professores grevistas e convidados, como yoga, dança afro, capoeira, fotografia, oficina de turbantes, cine-debate, contemplando os três turnos.

Daniel – Há um sentimento de pertencimento muito grande ali, eles pintam a escola, cuidam, limpam o banheiro. E com isso há um resgate do sentido do público. Isso é fundamental.

VP – Muitas vezes a mídia retrata as ocupações como invasões, como baderna, algo juvenil e violento. Porém, na maioria das ocupações o que se vê é organização e cuidado – uma capacidade real de gestão. Como vocês veem essa discrepância?

Gabriel – A cara da juventude do século 21 é da auto-gestão. O que nós fazemos aqui, no Rio de Janeiro, outra escola em Arraial do Cabo também faz. A auto-gestão para essa juventude é espontânea. Estamos afirmando que isso sim funciona. Fazemos eventos, vendemos coisas, arrecadamos doações e não tivemos nenhum problema. É tudo horizontal, nada vem de cima pra baixo. Todo mundo é representado e se sente importante. Esse sentido de importância, de que somos capazes, tem atraído muita gente que estava num movimento de evasão escolar. Nós queremos resignificar o sentindo da educação pública.

O deputado Jean Wyllys participou de um dos debates. O deputado Jean Wyllys participou de um dos debates.

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VP – As ocupações costumam expandir bastante o conteúdo e a natureza das aulas. Essa mudança acende o interesse de alunos que não costumavam participar das atividades na escola?

Maria Eduarda – Sim. Pois o que a gente propõe aqui são aulas de fora do nosso cotidiano. Coisas interessantes e novas, que temos curiosidade de vivenciar, de saber como são. O Vitor é um aluno daqui que nunca gostou de estudar, por exemplo. Ele fala isso o tempo todo. Ele está presente nas atividades, participa. Cada hora aqui a gente aprende uma coisa nova, inclusive de gostar de estudar. De se envolver. Há debates. O formato é diferente, não só o conteúdo. A gente consegue escutar a opinião dos outros, e não só evitar o debate pra continuar a aula.

Gabriel – Agora o professor não é visto como um depositador de conhecimento, mas sim alguém igual a gente. Não à toa as aulas estão mais interativas. A gente senta no chão, em círculo, com um contato maior. Tivemos física com música, por exemplo. Foi uma combinação que deu certo.

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A comissão de limpeza em ação A comissão de limpeza em ação

VP – As ocupações tem sido vistas como um foco de esperança em um momento político tão sombrio. É possível transformar a política institucional através de uma micro política coletiva?

Daniel – Eu não diria mudar a política institucional, mas sim a forma de fazer política. Essa forma de ação, longe do gabinete, em ação direta de ocupação do espaço público, é certamente uma novidade. É uma garotada nova, de luta, que tá disposta a meter a mão na massa e mudar as coisas pra valer.

Romã – A vivência da ocupação está sendo uma oportunidade histórica de alunos e professores viverem a prática de conceitos que muitas vezes só repetimos. É no dia-a-dia da ocupação que eles estão espontaneamente discutindo formas de organização, respeito à diversidade, influência da mídia tradicional, questões de gênero, modelo de educação, entre outros temas – algo extremamente difícil em um sistema de ensino anacrônico, baseado na passividade de aluno. Sinto como um despertar coletivo, em que professores e alunos estamos recriando nossas relações uns com os outros e com o ambiente escolar. É de emocionar mesmo!

Maria Eduarda – Eu já venho militando há um ano, e acho que isso só vai aumentar. Veremos sair jovens militantes daqui. Isso influencia a cabeça de muita gente que a gente conhece, que não sabia nada de política e nem se interessava, e hoje está discutindo, botando a cara a tapa. É muito importante essa relação. Estamos vivendo um momento histórico, e eu vou levar isso pra minha vida.

Gabriel – A ocupação existe, e não adianta, não vai ser apagada. Pode até ser escondida, mas apagada não. Daqui pra frente, eu, enquanto cidadão, vou respeitar muito mais a democracia do que antes. Tomar um cuidado muito maior com a política.

Uma assembléia na Ocupa Amaro Uma assembléia na Ocupa Amaro

VP – O que esperar para depois da ocupação? Qual pode ser a grande herança das ocupações?

Gabriel – O modelo de educação que queremos será democrático, libertário, no qual a gente terá voz, protagonismo. Que a gente possa também fazer a educação, sabe? Que isso não fique reservado aos professores, diretores, secretários de educação, ao governo, ao estado. Troca de experiências, é o que está acontecendo aqui, e a gente não quer que isso acabe. A gente não quer mais ser só um depósito.

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VP – Como uma ocupação permanente? Escolas auto-gestadas, pautadas e dirigidas pelos alunos e professores em uma relação horizontal?

Gabriel – Sim. Que a gente possa estar aqui dentro, trabalhando. A escola é nossa, o espaço é nosso. A gente tem que ter o direito de ir e vir e participar de decisões sobre tudo.

Romã – Acredito que as decisões devem ser tomadas cada vez mais coletivamente. Acho importante também a valorização de saberes artísticos e desportivos. A escola precisa voltar a fazer sentido na vida desses jovens. O pontapé inicial foi dado, é necessário que a sociedade civil permaneça presente e atuante nas escolas públicas após as ocupações, e que nós todos sigamos na luta por uma educação emancipadora e autônoma. Certamente nada será como antes.

Daniel – Eu sou particularmente simpático a ideia de auto gestão comunitária. Isso parte de uma concepção de escola libertária. Muita gente considera utópico, mas esses meninos e meninas tão provando que é um horizonte possível. Eles não estão demolindo a escola, como previam alguns teóricos, mas sim consertando ela.

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© imagens: Facebook/Vitor Paiva/ Gabriel Pardal

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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