Matéria Especial Hypeness

Especial topless: o tabu dos mamilos no país do fio dental

por: Mari Dutra

Se engana quem pensa que o topless é algo moderníssimo. A ideia existe há pelo menos dois milênios, mesmo que um pouco diferente do que conhecemos hoje. Foi na Grécia Antiga que as mulheres de Creta decidiram – talvez pela primeira vez – usar vestidos com mangas e saias, mas que deixavam os seios à mostra [1].


A prática do topless rodou o mundo, se popularizou na França em meados do século passado e só chegou ao Rio de Janeiro por volta dos anos 1970. Foi graças a isso que, nos anos 1980, a moda recém-chegada fez com que banhistas quase linchassem algumas jovens que faziam topless nas areias de Ipanema. Elas foram enxotadas da praia sob os gritos de “joga areia na Geni“, em uma alusão à música de Chico Buarque.

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O bronzeado e o status social

Mais de 30 anos se passaram, mas pouca coisa mudou e os seios à mostra continuam não sendo bem-vindos no país do fio dental. De qualquer forma, é quase impossível resgatar a história do topless moderno sem pensar em como surgiu o hábito de bronzear-se.

Nessa hora, vale lembrar que, até a primeira metade do século 20, ter a pele bronzeada era sinal de trabalho e ninguém queria ser associado a essa tarefa quase indigna aos olhos da sociedade da época. Em um momento em que o legal mesmo era nascer rico, trabalhar “pegava mal” e a pele branquinha significava que você não precisava se expor aos raios solares, quase um atestado de riqueza.

Foi em um processo de liberação do corpo feminino, ocorrido ainda na primeira metade do século passado, que o bronzeado começou a entrar na moda – e uma das precursoras da ideia foi a charmosíssima Coco Chanel, que já arrasava desfilando seu bronze nos salões da alta sociedade francesa. Mais ou menos na mesma época, a pele corada passou a ser associada à saúde.

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Mesmo assim, engana-se quem pensa que a moda deixou de ser elitista: a pele bronzeada passou a ser associada ao tempo livre. Pegar um bronze agora era como dizer “eu posso passar a tarde na praia, pois não preciso ganhar dinheiro“. Enquanto isso, os branquelos representavam o trabalho burocrático em escritórios, aquele estilo das-9-às-6, em que é praticamente impossível ver a cor do sol. E é mais ou menos aí que entra a marquinha do biquíni – ou a falta dela.

É que, por mais que no Brasil a famosa marquinha seja considerada até mesmo sexy, em muitos países ela é apenas cafona. Breguelê total. E, se é verdade que não existe pecado ao sul do Equador, como cantava Caetano, o topless ainda é mal visto nas praias brazucas, enquanto a bunda, “””nosso símbolo nacional”””, é exibida em minúsculos biquínis fio-dental. Mas qual é a questão com os seios afinal??

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Na tese Brasil à Moda da Casa, a antropóloga Débora Leitão dá uma indicação do porquê: “Uma possível interpretação para o particular gosto pelas marquinhas de biquíni no Brasil é, como sugere mesmo uma revista de moda francesa, a possibilidade de mostrar e demonstrar, através delas, a pele branca que se esconde por detrás do bronzeado. A marquinha seria, nesse sentido, uma marca e sinal, impressos no corpo, de distinção étnica“. Lembra bastante a história do bronzeado, não?

Débora vai além ao lembrar que essa distinção também é econômica, sendo a marquinha uma maneira de diferenciar as pessoas que se bronzeiam por trabalhar ao sol daquelas que o fazem propositalmente, com o único intuito de cuidar o corpo. Mas, independente disso, no Brasil a marquinha ainda parece ser uma obrigatoriedade para quem quer pegar sol na praia.

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Fotos © Jordan Matter

Toda nudez será castigada

No verão de 2000, um episódio trouxe o topless de volta às páginas policiais quando a vendedora Rosemeri Moura da Costa foi detida pela polícia por “mostrar demais” nas praias cariocas [2]. Na época, houveram protestos, inclusive com grande adesão masculina, para que a prática passasse a ser encarada como algo normal nas praias e não como um gesto obsceno. Foi declarado o verão do topless!

Infelizmente, a euforia durou pouco e, em 2013, uma repressão similar teve como alvo a atriz Cristina Flores, que tirou a blusa para uma foto de divulgação da peça Cosmocartas, estrelada por ela. O episódio lembra outra manchete que estampou os jornais brasileiros há algum tempo – desta vez nas páginas de cultura: a estréia, em 1965, da peça Toda a nudez será castigada, de Nelson Rodrigues, cujo título parece ter antevisto o futuro dos seios brasileiros.

Como contraponto à repressão sofrida pela artista, foi realizado um protesto intitulado Toplessaço no mesmo ano, que contou com 8 mil pessoas confirmadas através das redes sociais, apesar de um índice de adesão bastante baixo. Mesmo assim, a ideia teve uma forte repercussão na mídia nacional e internacional e deu origem ao movimento ToplessInRio, protagonizado pela jornalista Ana Paula Nogueira.

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O tabu sobre o assunto ficou ainda mais evidente enquanto estive buscando pessoas para falar sobre topless: quase ninguém parecia ter interesse em se expor. Ana Paula foi uma das únicas mulheres a topar uma entrevista com a gente, assim como foi uma das únicas a tirar a parte de cima do biquíni durante o protesto de 2013. “Eu vivi em Lisboa e tinha acabado de voltar de Portugal, que eu achava um país muito conservador e religioso. Apesar disso, eu fazia topless nas praias de lá e ao meu lado também haviam velhinhas de topless. Era tudo muito normal“, conta ela.

Se em terras brazucas a prática é vista como uma exposição do corpo, por aqui também vale o ditado que diz que “o que é bonito é pra se mostrar“, quase como um pedido para que peitos fora do padrão se abstenham do topless mesmo nos poucos lugares em que a prática é vista como aceitável.

Sobre o fenômeno, conversamos com o doutor em antropologia francês e professor da USP Stéphane Malysse, que estuda a idolatria ao corpo nas praias cariocas. Ele cita o livro Corpos de mulheres e olhares de homem: Sociologia do topless, do antropólogo Jean-Claude Kaufmann e lembra que mesmo no contexto francês, onde o topless é mais liberado e comum, a ditadura do belo seio é o que dita os comportamentos femininos”.

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Malysse comenta ainda que “as francesas que popularizaram essa prática nos anos 1960 a praticam cada vez menos“. Sobre o assunto, uma reportagem publicada recentemente pelo jornal francês L’express divulga que, atualmente, apenas 12% das mulheres francesas fazem topless regularmente na praia [3]. Nesse sentido, além da banalização da transgressão, o artigo sugere que o uso de smartphones nas praias tornou a prática menos agradável, pois muitas mulheres sentem que podem ter seus seios fotografados na areia. “Considerando que antes nudez era sinônimo de um bronzeado perfeito, a nu agora podem deixar marcas indeléveis“, conclui a publicação.

O Toplessaço

Para Ana Paula, este foi um dos problemas enfrentados pelo Toplessaço de 2013, pois muitas mulheres ficaram com medo, já que o evento contou com um grande número de fotógrafos e curiosos, além de uma grande repercussão na mídia. Desde então, o protesto ganhou edições anuais, sempre em janeiro, na praia de Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. “Todo mundo dizia para fazermos o Toplessaço no Arpoador, onde há muitos artistas e estrangeiros e muita gente faz topless depois das 17 h, mas fizemos no Posto 9, em Ipanema, por ser mais emblemático, porque lá vem gente de todas as partes do Rio“, diz.

Uma das propostas do movimento é naturalizar um gesto tão simples quanto bronzear os seios. Por isso mesmo, a briga do ToplessInRio é pela dessexualização do gesto, pela igualdade de gênero e pelo respeito ao corpo feminino. No dia em que fizermos um Toplessaço e não vier nenhum fotógrafo ou jornalista, aí sim teremos conseguido o que queríamos, avisa Ana Paula. Até lá, a manifestação continuará acontecendo e lutando contra a tal ditadura do belo seio.

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Hiperssexualização

Para Stéphane Malysse, a sexualidade exagerada com a qual vemos o corpo feminino faz parte do problema. O antropólogo cita o artigo Olhares franceses nos bastidores da corpolatria carioca, publicado pela RECORD no livro Nu & Vestido e explica que “o topless não é uma pratica comum no Brasil por conta da hiperssexualização do corpo femininoe cita ainda a falta de controle dos homens “que reagem (com tensão/tesão) aos corpos femininos sem o top, ou seja o seio é visto como órgão sexual e não como simples parte da anatomia feminina“.

Porém, há quem justifique que a prática do topless seja até mesmo ilegal no Brasil. Para isso, a base é uma lei dos anos 1940, que estipula que crimes de ato obsceno teriam pena de três meses a um ano de prisão, podendo ser substituída por uma multa. Ironicamente, o biquíni foi inventado na mesma década pelo engenheiro mecânico francês Louis Réard – mas a peça era considerada como uma “roupa de strippers” até os anos 60, embora atrizes como Marilyn Monroe, Brigitte Bardot e Anita Ekberg já houvessem adotado o modelo, que chegou a ser proibido nas praias cariocas pelo presidente Jânio Quadros.

Naquela época, o biquíni era considerado um ato obsceno. E, enquanto por aqui as brasileiras ainda tinham que se preocupar com a barriguinha de fora, as francesas já arrasavam exibindo os seios nas praias, inspiradas na musa Brigitte Bardot.

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Fotos: Divulgação ToplessInRio

O Apartheid do corpo

Se para mulheres quem tem muito peito e morrem de orgulho deles o topless ainda é um tabu, a situação pode ser bem mais complexa quando pensamos na experiência de um homem trans. Afinal, é na praia que todas as desigualdades de gênero se tornam mais explícitas, “como um Apartheid: pessoas com pênis usam sunga e pessoas com vagina usam biquíni“, escreveu Ariel Nobre para o site Os Entendidos, da Revista Fórum.

Ariel é homem, embora tenha nascido no corpo de uma mulher. E, por isso mesmo, a experiência de ir à praia acabava sendo complicada para ele: Antes eu ia de biquíni, era uma experiência desagradável, conta. “Eu fui querendo tirar a camiseta antes de me ligar que eu era trans. Foi tirando a camiseta que eu vi que eu era trans“, lembra Ariel, que é natural do Rio de Janeiro, mas vive atualmente em São Paulo.

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Ele falou sobre essa experiência com a gente: Eu tinha que estar disposto a andar mais, pra ver um lugar que tinha mais mulheres, ficar perto delas ou numa turma grande. Se antes Ariel precisava estar acompanhado para evitar qualquer confusão na areia, conta que hoje, vivendo em São Paulo, a coisa ficou ainda mais difícil, podendo tirar a camisa apenas em manifestações.

É uma necessidade de estar com uma roupa que tá alinhada com meu gênero, com como eu me sinto bem, na questão de gênero, né? Eu não tenho cirurgia, eu não tomo hormônio, então a roupa é minha principal ferramenta para viver minha vida de homem trans“, ressalta ele, mostrando que a proibição dos seios é muito mais complexa do que pode parecer.

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A quantidade de questões e polêmicas relacionadas à simples exposição da parte superior do corpo feminino mostra a importância de discutirmos a questão. Desde os sombrios tempos da inquisição, o corpo feminino está – em maior ou menor grau – associado ao pecado, mas já não seria a hora (passada) de romper com esse rótulo? Enquanto isso, no Brasil, o fica do entranho paradoxo “fio dental pode, topless não” e o incomodo da hipocrisia, que continua a repousar confortavelmente em cangas e cadeiras pelas praia do país.

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Mari Dutra
Especialista em conteúdos digitais, Mariana vive na Espanha, de onde destila textos sobre turismo, sustentabilidade e outros mistérios da vida. Além de contribuir para o Hypeness desde 2014, também compartilha roteiros e reflexões mundo afora no blog e no Instagram do Quase Nômade.

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