Roteiro Hypeness

Demos um rolê a pé para retomar a história do hip-hop em SP

por: Brunella Nunes

O Centro de São Paulo tem de tudo, mas de tudo mesmo. Em termos musicais, a premissa continua, passando pelo samba, forró, rock, música eletrônica, pop e o rap, que podem ser ouvidos por aquelas ruas. Não por acaso, foi exatamente na esquina da 24 de Maio com a Dom José de Barros onde nasceu a cultura hip-hop na década de 1980.

Os jovens da periferia fizeram da região central seu palco de criação e apresentação. Os espaços de mármore no chão eram ideais para a dança. Foi neste endereço que o irreverente Nelson Triunfo e sua trupe da Funk Cia deram os primeiros passos de break em 1983, antes de ganhar fama ao participar da abertura da novela Partido Alto (1984), da TV Globo.

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Ali foi colocada uma homenagem ao grupo, por meio da Secretaria de Cultura e do Triunfo, que formalizava o local como o ‘Marco Zero do Hip-hop‘. Embora esteja extremamente degradada, quase ilegível, a pedra ainda registra os nomes Nelson Triunfo, Roneyoyo, Pepeu, Alam Beat e MC Jack. Há planos de refazerem a placa, no mesmo local. Vale a pena assistir o documentário de mesmo nome, dirigido por Pedro Gomes.

No dia 30 de abril, passei por alguns pontos marcantes ao lado de uma galera de peso que ainda representa o hip-hop dentro da cidade: os dançarinos de break Rooneyoyo, Stax e Aranha, o MC Max B.O, DJ Groovy e DJ Man (Filosofia de Rua). O passeio fez parte das ações do projeto Tribo Urbana, do Sesc SP. Ao longo do caminho, Rooney foi contando alguns detalhes de sua trajetória, que acompanha os passos da rima e da dança.

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A primeira parada foi na Praça Roosevelt, antro de skatistas que foi reformado há cerca de cinco anos. Nos anos 1990 começou o movimento de dançarinos neste espaço, por sugestão do rapper Jr. Blaw após um dia cheio de dança na São Bento. Era ponto de encontro de amigos e conhecidos, onde trocavam informações e faziam empréstimos de coisas entre eles.

Foi então fundado, por Rooneyoyo, o Sindicato Negro de São Paulo, em 1992, a primeira posse de rap brasileiro para promover o estilo em termos artísticos. “Depois de dois anos o grupo se desfez, mas o conceito e a ideia ficou na cabeça, está até hoje. É uma história de coletivo, de várias pessoas juntas para poderem atingir o bem comum. Isso eu acho uma coisa bem bacana, que deveria existir nas escolas, faculdades, prédios, entre vizinhos. Deveria acontecer mais no cotidiano de todo mundo”.

Na época, havia muita repressão com essa galera, que era parada pela polícia para averiguação o tempo todo. Este era apenas um dos reflexos do preconceito, que acabavam se tornando desabafo ao longo das músicas. O rap trouxe novas vertentes para a música nacional, dando voz à periferia e aos problemas que ninguém quer ver ou falar sobre, como prostituição, consumismo, preconceito, militarismo e violência.

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MC Jack em 1987 já cantava rap e junto com a Zamba fez uma música chamada “Espero que um dia todo mundo acredite em mim”. Como trabalhava de office boy perto do Rooney, que era funcionário do banco Bamerindus, no centro da cidade, eles se conheceram e passaram a se encontrar durante o dia pra trocar ideia, fazer rima e etc. A dupla assinou músicas juntos como MC Jack e DJ Ninja.

Foi da São Bento que nasceu o primeiro disco de rap brasileiro, em 1988: Hip-Hop Cultura de Rua, coletânea que inclui nomes como Thaíde, DJ Hum, Código 13, O Credo e MC Jack. É desse material que vem a frase “escutar o Hip Hop é coisa normal, entender o Hip Hop é onde está o mal”, do Código 13, que se tornou um clássico e foi usada de sample em várias músicas. Com o sucesso, a gravadora Eldorado lançou um EP em 1990, destacando o grupo de MCs Koryac, DJs Def Kid e Eduardo, D e Black J, e também MC Jack.

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De maneira geral, a São Bento é considerada o berço da cultura hip-hop, porque é ali onde surgiu muita coisa que permanece viva até hoje. O coletivo São Bento Força Break surgiu em 1985, reunindo bboys e colecionadores de rádio gravador, também chamado de boombox. Os encontros continuam rolando e o lugar segue como antro da street dance, reunindo uma galera todo último sábado de cada mês para dançar. E, pasmem, no dia 30 de abril de 2016 aconteceu algo histórico: foi a primeira vez que houve autorização para usar energia elétrica do local.

Em 1989 ainda dançavam na São Bento, mas eram expulsos pelos seguranças. Então migravam para o entorno e as escadas do Theatro Municipal, e do edifício do extinto Mappin (foto abaixo). Ali abriam a roda de dança e passavam o chapéu para levantar alguns trocos. A busca por espaço é uma constante.

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Na mesma época, roupas coloridas do New Wave passam a influenciar e a vestir os grupos de hip-hop. “Eu lembro que pegava meus tênis slippon e pintava tudo de colorido, quadriculado, em casa mesmo, pra ter algo personalizado. O hip-hop sempre modificou as coisas, sempre teve algo diferenciado”, recordou Rooneyoyo.

O mais engraçado é que a medida em que adentrávamos no Centro, iam surgindo mais e mais pessoas que conheciam essa galera que estava comigo, o que significa que essa cultura está enraizada na região central de São Paulo desde os seus primórdios no Brasil.

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Aliás, não há lugar melhor do que a rua para vivenciar tudo isso. Enquanto conversava com Max B.O, constatei que há um crescimento constante no interesse das pessoas pelos fragmentos do hip-hop. “As coisas que estão sendo retomadas da música, da arte, da moda. Já estavam acontecendo, mas estavam um pouco escondidas. Na cultura hip-hop principalmente. Os grandes nomes do graffiti, por exemplo, são pessoas que fazem isso há muito tempo”. Embora seja sucesso hoje, a arte urbana começou em São Paulo em 1980.

Nessa mesma época, na Galeria do Rock, 70% das lojas eram dedicadas ao vinil, outro item que está caindo novamente nas graças da população, incluindo soul, jazz e rap. No subsolo, dedicado à cultura negra, conhecemos a loja Ant Dopyn e a Nostalgia, que de fato é um dos lugares mais nostálgicos que eu já entrei na minha vida. O acervo dedicado a black music inclui vários discos dessa época, como Valeu a Experiência (1994), do Filosofia de Rua; e Ameaça ao Sistema (1992), do grupo Radicais do Peso, formado por Mc Jack, Rooneyoyo, Alam beat, Nigga Dre, Criminal D e o Dj Hélio Branco.

A apenas 50 metros dali está o Centro Comercial Presidente, conhecido como Galeria Black, que é um dos principais points da cultura negra em São Paulo. O lugar é ponto de encontro da galera black power desde os anos 1960 e reúne, entre tantas coisas, vários salões de cabeleireiros de onde saem dreads, tranças e alongamentos.

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Ecobravo Rap frequentou a São Bento de 1985 a 1998, dando seus primeiros passos no break em 1995, quando tinha 21 anos. Essa paixão foi levada adiante até 2010, quando parou de dançar, mas nem por isso deixou de frequentar a região, tanto que ele e Rooney se encontraram por acaso no rolê.

Ele afirma com todas as letras de que o hip-hop mudou tudo em sua vida e o resgatou. Antes de tudo, quando estava indo fazer um assalto, sentiu que ia morrer naquele dia. No caminho, acabou parando numa roda de break, atividade da qual seu irmão já era adepto e se entregou à dança e depois ao rap. “Sou prova viva dessa cultura, porque eu era um cara entregue a morte. O hip-hop me deu visão e salvação, me disse, com a mesma empolgação que o motivou há mais de 20 anos.

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Viver de rap, break e hip-hop é correria e exige muita, mas muita persistência e determinação. Enquanto houver ruas para agregar, trocar, falar, protestar, dançar e fazer batalha de rima, essa cultura vai estar lá. Abaixo você encontra algumas referências desse passeio pela Praça Roosevelt, Rua 24 de Maio e Largo São Bento.

M.T Bronk’s: inspiração para a galera do hip-hop. Todos queriam ser um pouquinho dele

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Black Junior’s – 1984 – hit “mas que linda estás” dominou SP

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Código 13 e Mc Jack lançaram os primeiros videoclipes de rap do Brasil em 1988, filmado por uma turma de skate chamada Grito da Rua, que queria unir o esporte e a música

Rooneyoyo se apaixonou pelo iô-iô aos 14 anos e foi campeão em 1995 após treinar por 17 anos; na foto, ele exibe parte de seu acervo cultural enquanto falava sobre hip-hop na Praça Roosevelt

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Camiseta das antigas personalizada a mão pelo Rooneyoyo com o nome de um ídolo: L L Cool J.
A customização sempre andou lado a lado com o hip-hop

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Subsolo da Galeria do Rock é onde ainda pulsa a cultura negra

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Dentro da loja de discos Nostalgia

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Vitrine da loja Ant Dopyn com um belo exemplo de boombox, os rádio gravadores que fascinam dançarinos e fãs da cultura hip-hop

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Edifício da Galeria Presidente, conhecida como Galeria Black

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Skate e rap: sempre andando de mãos dadas

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Ata do Sindicato Negro, primeira posse de Rap do Brasil feita em 1992

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Foto: Max B.O

Rodas de break da São Bento: encontros sempre no último sábado de cada mês

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A revista “Dance o Break”, de 1984, trazia Nelson Triunfo ensinando passos da dança

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Abertura da novela Partido Alto, de 1984, levou o break de Nelson Triunfo para a TV

Documentário de Pedro Gomes que reúne lendas vivas do Hip-Hop brasileiro

Todas as fotos © Brunella Nunes

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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