Arte

A incrível história do navio fantasma que atracou em Cabo Verde e revolucionou a música local

01 • 06 • 2016 às 10:06
Atualizada em 02 • 03 • 2022 às 18:01
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Corria o mês de março de 1968 quando um misterioso capricho do destino trouxe às águas do arquipélago de Cabo Verde, a 570 km da costa ocidental do continente africano, o futuro da música do país. Não era um novo movimento que surgia ou um artista em excursão que visitava o país, mas sim, centenas dos mais modernos teclados e sintetizadores de então, abarrotados em um navio fantasma que atracou feito um milagre na costa da então colônia portuguesa.

O equipamento saiu de Baltimore, nos EUA, rumo ao Brasil, para uma exposição de instrumentos que aconteceria no Rio de Janeiro. Apesar do mar tranquilo e da promessa de uma viagem calma, no mesmo dia em que iniciou a travessia o navio simplesmente desapareceu dos radares, ressurgindo meses depois em Cabo Verde, sem sinal sequer de qualquer membro da tripulação ou indícios do que teria ocorrido, mas com seu carregamento de instrumentos eletrônicos intacto.

O cantor Paulino Vieira utilizando o equipamento

O cantor Paulino Vieira utilizando parte do equipamento

Quando descobriu qual era o conteúdo que o misterioso navio trazia, o histórico líder anticolonial Amilcar Cabral não vacilou: distribuiu os teclados e sintetizados igualmente entre as escolas de Cabo Verde. Assim, além de liderar o movimento que viria a alcançar a independência tanto de Cabo Verde quanto de Guiné Bissau, Amilcar em um decreto sacramentou o rico futuro da música popular cabo-verdiana, que pode ser medido e ouvido até hoje.

Selo em homenagem a Amilcar Cabral

Selo comemorativo em homenagem a Amilcar Cabral

Da noite para o dia, uma geração inteira de jovens do país passou a ter acesso ao mais moderno equipamento musical de sua época. Cabo Verde, que já era conhecida como “Pequeno Brasil” por sua rica cultura musical, passou então a misturar seus diversos ritmos tradicionais, como mornas, coladeira, funaná e ferrinho, com a psicodelia futurista e a sonoridade dançante que se revelava possível a partir do uso daquele equipamento.

 

O resultado desse incrível processo foi compilado no histórico disco Space Echo: The Mystery Behind The Cosmic Sound Of Cabo Verde Finally Revealed, lançado recentemente pelo selo Analog Africa. Estão na coletânea artistas como Abel Lima, Antonio Dos Santos, Elisio Vieira, Americo Brito, Os Apolos, João Cirilo, Tchiss Lopes, Quirino Do Canto, Pedrinho, Fany Havest, Bana, José Casimiro, Dionisio Maio e António Sanches, artistas que puderam desenvolver e ressignificar seus trabalhos a partir de tal inesperada e inusitada mistura. 

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Capa do disco Space Echo: The Mystery Behind The Cosmic Sound Of Cabo Verde Finally Revealed

Hoje a música cabo-verdiana dos anos 1970 e 1980 cada vez mais provoca interesse e espanto por sua originalidade e força. Para os arqueólogos da música pop mundial, e para quem tem quadris, animo e coração, é um prato cheio de algumas das mais interessantes e excitantes alquimias sonoras já registradas – que poderiam simplesmente não ter acontecido, não fosse essa misteriosa operação do acaso, e um navio fantasma que desviou sua rota para a costa cabo-verdiana como se esse devesse ser seu verdadeiro destino. 

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© imagens: divulgação


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