Arte

Conheça histórias de refugiados e brasileiros que realizaram feira multicultural no Rio de Janeiro

por: Gabo Vieira

A feira Sabores do Porto, que oferece arte e gastronomia aos visitantes da zona portuária do Rio de Janeiro, teve um tempero diferente neste sábado. Às bandeirinhas de festa junina foram somadas bandeiras de diversos países, dando uma cara internacional a um evento orgulhosamente local. Foi assim, com comida boa e generosas porções de empatia, que nasceu a primeira edição da Feira Multicultural com Refugiados.

O evento, organizado pelo Museu do Amanhã em parceria com a Cáritas RJ e a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), fez parte das celebrações pelo Dia Mundial do Refugiado. Observada anualmente a cada 20 de junho, a data evidencia ainda mais a urgência do tema. Dados divulgados pela ONU nesta segunda apontam que o número de pessoas forçadas a deixar seus lares atingiu um novo recorde: 65,3 milhões. Destes, 21,3 milhões são refugiados em terras estrangeiras.

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Quem foi à Praça Mauá no último sábado pôde perceber que cada um destes milhões carrega uma bagagem única de dor, coragem e superação. Enquanto compravam pratos típicos, roupas coloridas e peças de artesanato, os clientes conversavam com os refugiados e se surpreendiam com a força daquelas histórias de vida.

O Hypeness também esteve lá e teve a oportunidade de conhecer um pouco destas pessoas que tentam uma nova vida no Brasil, além de ouvir a opinião dos vendedores que os receberam na feira. Os refugiados contaram os motivos que os levaram a deixar seus países, as dificuldades encontradas no Rio e o que esperam do futuro. Houve ainda algumas divergências sobre a famigerada receptividade brasileira aos estrangeiros.

Confira os depoimentos a seguir.

Thezis, República Democrática do Congo

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Thezis, Maman Landu, Maman Nzuzi, Pamson e as meninas Monique e Vitoria.

Meu pai veio para o Brasil como refugiado há mais de 20 anos. Eu vim visitá-lo há quatro e consegui um visto de permanência. Aqui é legal, é um país de oportunidades, apesar da grande violência que existe. A gente vê todos os dias nos jornais que mataram alguém em tal lugar, teve um assalto não sei onde… uma violência cotidiana que é bem difícil de ver no Congo. Lá, os problemas são outros.

O Brasil é um país de muita discriminação. Até no meu trabalho eu já fui discriminado. Também na rua, no shopping… o negro brasileiro passa por isso, mas o africano muito mais. Acham que por ter um cabelo assim você é vagabundo, você não vale nada. Por isso adotei esse estilo de cabelo, deixei crescer – como afirmação. Porque na minha cabeça eu sei que sou inteligente pra caramba. Sou eletricista de rede de alta tensão. Se não fosse a energia elétrica, o mundo parava. Tenho uma profissão bem nobre. Quero que as pessoas me tratem como ser humano.

Eu penso muito em voltar para o meu país. Por isso, estou estudando mais. Não quero perder meu tempo; ficar dez anos fora e voltar sem nada. Hoje estudo para um dia chegar no meu país com uma bagagem intelectual maior.”

Nelly, Colômbia

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Estou vendendo arepas, uma comida que está presente em todas as refeições na Colômbia, do café da manhã à janta. É feita de milho cozido, depois moído, assado e com algum ingrediente de recheio. Mas como eu não tenho licença, só trabalho com comida em eventos especiais. Normalmente vendemos artesanato em uma praça na Tijuca, mas é difícil porque a polícia fica em cima. É impressionante, né? A gente foge de um país para continuar fugindo em outro.”

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Andrés ficou responsável pelo artesanato

Estou na feira com dois filhos, Andrés e Kati. Tenho mais dois, além de três netos. Eles já são carioquinhas, falam português muito bem. “Eu gosto do Brasil, é um país tranquilo. Nós deixamos a Colômbia por conflitos com grupos armados. Minha ideia é ficar por aqui, quero que minha família esteja em segurança.”

Rosane, Brasil

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Aqui nós vendemos carne de sol com aipim e angu à baiana. O movimento hoje melhorou bem, está tão corrido que ainda não deu para conversar direito com o pessoal dos refugiados. Mas pretendemos estar juntos mais vezes. Tomara que sim.

Nós somos brasileiros, né, sempre abrimos os braços. É coisa de brasileiro mesmo, de carioca, sempre abraçando. Estou achando legal! Poder conhecer a cultura deles, as coisas deles, que são muito bacanas. E aprender também, porque eles têm muito para ensinar.”

Rami, Síria

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Osama, Mohamad e Rami

O Brasil é um país maravilhoso, mas a vida aqui é difícil. Os salários são baixos, o custo de vida é alto, a cultura é diferente, não conheço quase ninguém… é complicado. Não temos uma comunidade síria forte no Rio, a maioria das pessoas está chegando agora. Eu estou aqui há dois anos e já sou um veterano.

Fiz faculdade de História na Síria. Aqui é difícil encontrar emprego na área, ainda mais porque a História que estudei lá é bem diferente. Então eu faço os salgados com amigos e vendo na rua. Hoje as vendas estão sendo boas, a feira está bem legal. Mesmo com as dificuldades, acho que o povo do Brasil é maravilhoso. A minha família está toda em Damasco, mas hoje a vida lá é impossível. Tenho pai, mãe, irmão, sobrinhos… quero muito trazê-los para cá.

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Claudine, República Democrática do Congo

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Eu fazia parte de uma associação que trabalhava para evitar que os jovens se integrassem às forças rebeldes armadas. O chefe da rebelião passou a ter problemas comigo, então fugi para o Brasil. Aqui encontrei muita hospitalidade, mas como eu não sabia nada de português, só pude trabalhar fazendo faxina.

É o que faço até hoje, mas sou formada como estilista. Quando expliquei isso ao Cáritas, uma família me deu de presente uma máquina de costura. Então todos puderam ver o meu trabalho e hoje me procuram para comprar comigo. Esta é a primeira vez que vendo em uma feira, normalmente vendo na minha casa, em Bangu, ou sob encomenda. Minha ideia é ficar no Brasil e me tornar uma grande estilista.”

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O telefone para encomendar uma peça original de Claudine é (21)979597019.

Tia Lúcia, Brasil

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Sou artista plástica e contadora de histórias – falo tudo que vier à cabeça. Do que eu gosto, eu falo. E se não gosto eu falo também. Sou baiana, mas vim para o Rio ainda criança e nunca mais voltei.

A feira hoje foi boa, principalmente porque teve gente que precisava, gente que foi obrigada a vir. Um pessoal de outro lugar. Eu acho que tem que ser assim mesmo, né? Dar a mão a quem precisa.”

Ninibe, Colômbia

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As pessoas não dão muito crédito para refugiados da Colômbia, dizem que o país está em paz. Acontece que é um processo de pacificação mentiroso, tanto que o país já é o líder mundial em deslocamento forçado dentro das próprias fronteiras. Eu e meu marido sempre fomos artistas plásticos. Tivemos que deixar o país quando ele passou a receber ameaças de grupos armados. Viemos com os três filhos em um carro pequeno até o Rio de Janeiro. Foi uma viagem difícil, sentíamos medo e quase não tínhamos dinheiro.

Hoje somos solicitantes de refúgio, vivemos em uma igreja em Botafogo. Estamos correndo atrás de permissão para vender nossos quadros em Copacabana, mas não tem sido fácil. Tínhamos uma vida confortável e perdemos quase tudo. Pelo menos as crianças estão na escola, melhorando no idioma. Apesar das dificuldades, os bens materiais nunca significaram tão pouco. Depois do susto, só o fato de estar vivo em algum lugar já é um grande lucro.

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Ninibe e Leo

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Você pode acompanhar (e comprar!) o trabalho de Ninibe e Leo na página Expressarte Libre.

Todas as fotos © Gabo Vieira

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