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Fui no 6º Festival PopPorn e vi muito mais do que peitinhos e pirocas

por: Brunella Nunes

Tudo começou num email inocente que chegou na minha caixa de entrada. Era um resumo do que ia rolar na 6ª edição do Festival PopPorn, nos dias 10, 11 e 12 de junho em São Paulo. Eu já tinha ouvido falar sobre ele várias vezes, então acho que já era hora da gente se conhecer. O que eu não fazia ideia mesmo é que seria um encontro tão maluco e tão rico em informações.

A ideia do festival é promover a pornografia e a liberdade sexual de forma nada heteronormativa. Aí você pensa: “pornografia, aquele mercado imundo e do mau?”, bom, não vamos entrar nesse mérito – ainda – porque esse evento carrega consigo uma essência muito melhor do que a putaria em si. Ele tem o propósito de ser uma plataforma de informação sobre temas dos quais ninguém quer falar sobre, especialmente os mais conservadores que acham pecado dar, ser gay e etc. Basicamente serve pra avisar que: o corpo é meu e eu vou usar da maneira que me for conveniente.

Idealizado pela já falecida jornalista e agitadora cultural Suzy Capó, que também idealizou o Festival Mix Brasil, ligado ao público LGBTT, era uma ativista ligada fortemente com as questões culturais da diversidade sexual e disseminou a temática dentro do campo audiovisual. Então sim, isso é importante e elaborado por uma mulher que dedicou boa parte da vida a incluir essa galera, tocar em feridas que a sociedade insiste em não assumir e oferecer um espaço seguro para que as pessoas explorem seus fetiches. 

Dito isso, vamos continuar ao relato da minha saga. Eu não sou a pessoa mais indicada pra um evento desses, não porque eu sou “bela, recatada e do lar”, mas porque só de pensar na ideia de que teria pessoas levando chicotadas na minha frente já me dava vergonha no nível timidez da palavra e não moralista. Então é,  talvez eu seja a pessoa mais indicada mesmo, até porque fora isso (e fora Temer, obrigada!), nasci com a curiosidade aguçada o suficiente pra encarar desafios. Superação, amigs.

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Foto: divulgação/edição 2015

Nesse frio bizarro que faz em São Paulo, escolhi o sábado para sair da toca e conhecer o festival. Puta desafio! A programação se resumia em alguns filmes pornôs, esposições, workshops, debates e festas em 72 horas de cultura erótica. Cheguei e me deparei com o Pop Market logo na entrada, onde havia umas coisinhas para comprar, como chicote, algemas, coleira e umas camisetas para os menos BDSM da parada. Atravessando uma cortina, enquanto eu avistei a exposição de fotos na parede, o boy que estava comigo já observou lá no fundão no salão que tinha uma mina pelada.

Eu com aquele carão de “eita” falei pra gente ir lá ver o que tava acontecendo. Confesso que fiquei uns minutos sem entender até chegar na ponta do palco com a minha câmera fotográfica e notar que a peladona posou pra mim. Mostrando o cu. Sim…lá estava essa que vos escreve tendo seu primeiro contato ao vivo e a cores com o cu alheio. Fiquei sem graça e devo ter feito a cara de “eita!” pela segunda vez, mas fiz a gentileza de tirar foto e um jóinha de agradecimento tão fofo quanto o de uma senhora de 80 anos. Me sentei pra ver o que estava por vir e depois dessa atitude tão desprendida da atriz, nada mais me impressionava. 

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Nisso surge não um cara, mas três, com o pinto pra fora, e mais um – de roupas e com uma câmera de vídeo na mão. Aí tudo fez sentido! Era o workshop de Pornô: Faça Você Mesmo versão hétero (teve a versão gay também, é claro). Aí você já imagina o que rolou…uma chupação somada a ensenação e cenas interrompidas pra gravarem outra coisa. Acho que o sexo mais explícito mesmo só acontecia numa sala atrás do palco, que tinha a porta aberta pra quem quisesse espiar. Descobri isso quando subi a escada rumo a uma das salas de exibição de filme e provavelmente fiz a cara de “eita” pela terceira vez, mas foda-se.

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Os filmes eram focados não naquela temática tosca que todo mundo já viu na vida e sim em temas mais amplos, com uma pegada mais artística e que explora as fantasias sexuais de cada um. Exemplos: “Cunetinho de Ouro”, uma releitura muito queer do conto de Cinderella; “Quando estamos juntxs, podemos estar em todos os lugares”, um filme sobre amizade e sexo; “Drone Ereto”, primeiro auto entitulado pornô filmado exclusivamente através de drone; “Jokenpô”, uma comédia pornô; “Sim, A Gente Fode!”,  documentário que quer abordar a sexualidade de pessoas com diversidade funcional, os chamados decapitados; uma sessão dedicada a taras fetichistas alemãs e até a estreia de Dennis Cooper no cinema, com o filme “Como gado em direção ao brilho” estavam inclusos na programação.

Não sei dizer quais filmes eu cheguei a assistir algum trecho, mas não era a minha ideia ficar dentro da sala e sim acompanhando o que tava acontecendo fora dela. Aos que pensam que o festival é uma grande putaria libertina, digo que não, não é. Ao menos eu não vi ninguém se pegando nas salas e tampouco no salão. A coisa ferve mesmo durante as festas pós evento, que servem exatamente pro povo se jogar e a palavra diversidade realmente prevalece por ali, porque tem de tudo, carinhas de biquínis, mascarados, patricinhas, fantasiados, pelados e ursos (entendedores entenderão).

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Enfim, atravessando o salão novamente me deparo com um bombeiro vindo. Fiquei esperando ele tirar a roupa, óbvio, mas era só um bombeiro de verdade que estava circulando pra apagar o fogo de verdade, se tivesse. Dias difíceis para quem queria ver um strip masculino acontecendo do nada, mas ok. Ando até o bar e vejo que acima de mim tem uma vitrine safadinha. Sim, sob a minha cabeça estavam dois caras se amassando numa cadeira, resultado de algum dos sexercícios da programação. Subindo as escadas rolavam workshops e como já tinha começado, esperei o próximo pra não atrapalhar essa vibe toda.

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Entre as oficinas dos três dias, rolou Manual do Cu, para você-sabe-oque, aulas sobre masturbação e sexo tântrico. Estive presente nessa última e aprendi umas coisas teóricas interessantes. Por exemplo: alimentos afrodisíacos são compostos por zinco, selênio e magnésio, que são o mesmo material da porra masculina, olha só que curioso. Mas voltando ao tal sexo tântrico, que é muito mais ligado ao afeto do que à genitália, não é tão difícil quanto parece. Enquanto homens ficam naquela punhetação frenética – e alguns de fato chegam a esfolar o próprio pênis -, a prática do tantra exige paciência, tempo, desconstrução, mente vazia, autoconhecimento e de presente te dá orgasmos mais longos, intensos e expansão da consciência.

A primeira dica é fazer torções no pênis e movimentos de sobe e desce no clítoris (usar os dedos no formato “paz e amor”, manja? assim o sangue circula e a excitação aumenta) quando for se tocar ou tocar o (a) parceiro (a). Ou seja, nada de movimentos circulares, mulherada! Outra coisa é expandir o seu tesão. Ao invés de ir direto ao ponto, dá uma relaxada, espalhe essa energia tocando várias partes do corpo com a ponta dos dedos, assim você transforma seu corpo inteiro numa zona erógena e esquece aquelas dicas falidas de “como alcançar o orgasmo em três segundos”. Explorar-se é a palavra. Antes de conhecer o corpo alheio, conheça o seu.

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Papo vai, papo vem, era hora do debate sobre neutralidade de gênero. Esse tema deveria estar na grade escolar, mas como ainda não chegamos a este nível, é sempre bom se atualizar com quem manja do assunto. Quem abriu os trabalhos foi a psicóloga Juny Kraiczyk, que é diretora da Ecos: Comunicação em Sexualidade e integra o núcleo de pesquisa em gênero e saúde da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa. No geral, a sociedade julga as identidades de gênero de travestis e transexuais como femininas ou masculinas). Mas também podem ser fluidas, não binárias e fazem do seu corpo um instrumento de resistência micropolítica.

Resumindo, nas condições que vivemos desde sempre, a sociedade nos impõe o heteronormativo desde o primeiro ultrassom, quando revelam o sexo do bebê. Aí na hora do enxoval, a mãe e o pai escolhe cores e objetos de menina ou de menino, e o mesmo é feito com o nome da criança. Assim crescem a maioria dos seres humanos. “Somos vigiados o tempo todo. Se você é homem, independente da sua orientação sexual, mas não reproduz essa ordem esquemática de falar e se vestir de uma determinada forma, você é punido (…) Não basta nascer homem, você tem que se colocar como tal o tempo todo, disse. O mesmo vale para as mulheres.

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As trans vão na contramão desse pensamento tradicional de gênero e basicamente zoam a ordem social, o que é maravilhoso e ao mesmo tempo triste, pois vem com um fardo tão pesado que se observa num dado vergonhoso e alarmante: o Brasil é o país que mais mata travestis. Ao mesmo tempo, é o tema pornô mais pesquisado no Google. Ou seja, que crime “passional” maluco é esse? Aparentemente, tudo indica que os brasileiros querem foder e depois matar as mulheres trans e travestis. Coisa de psicopata, amores. Aliás, existem políticos que promovem essa violência e preconceito através de pequenas grandes atitudes. Jair Bolsonaro, citado no debate, é um dos que querem tirar o direito ao nome social.

Sim, se você nasceu Jair e quer ser Jade, atualmente você pode não apenas ser, mas exercer o nome que gostaria de ser chamada ou chamado. Bolsonaro é um dos que querem acabar com isso, como se fosse de grande importância na vida dele, como se isso tornasse alguém pior, impactasse no meio ambiente ou refletisse nos males da sociedade. Mas o que esperar de um ser desses, que quer atropelar direitos básicos somente para satisfazer seu lado sádico? Acho que ele precisa de uma sessões de Spanking que rolou no PopPorn pra dar uma espareicida. Se joga, bee!

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A exposição Nós, as Mulheres mostrava um retrato da Betania Santos, prostituta ativista da Daspu. A luta dela é pela regulamentação da profissão, que se estivesse em dia, já ia garantir a aposentadoria dela. “Aqui todas somos prestadoras de serviço. Ninguém é vítima, ninguém é criminosa”. 

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Todas as fotos © Brunella Nunes

E agora…a parte menos “light” do rolê, porque se você chegou até aqui, merece. As fotos da festa ficaram ótimas.jpg

Debate sobre feminismo periférico mediado por Eliane Dias, advogada, coordenadora do SOS Racismo e produtora do Racionais MC’s.

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Fotos: © Lex Chux

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Fotos: © Filipe Marques

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Fotos: © Victor Vivacqua

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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