Criatividade

O que podemos aprender com a propaganda de um homem grávido que venceu o Cannes Lions em 1970

por: Brunella Nunes

Atire a primeira pedra quem nunca conheceu uma mãe solteira que não desejava gerar uma criança por conta própria. Embora o pai exista, muitas vezes ele some, desaparece sem deixar rastros e sequer é obrigado a assumir o bebê. A mãe acaba carregando pelo resto da vida responsabilidade de tudo, da transa, da gravidez e de dar à luz.

Em 1970, uma campanha de controle de natalidade ganhou destaque e prêmio no Festival Cannes Lions ao mostrar um homem grávido, com a seguinte mensagem: “você teria mais cuidado se fosse você que engravidasse?”. A questão perdura até hoje e já estamos em 2016.

Muitas pessoas, ao olhar o poster da Family Planning Association (Associação de Planejamento Familiar) de Londres, o acham chocante ou até mesmo ofensivo. Impactante, certamente é, porque é estranho para nós a imagem de um homem carregando um bebê na barriga.

Mas espera aí, quem disse que ele não fica grávido também? Pode não ser em termos físicos (por enquanto), mas o mesmo deveria encarar este período com tanta cautela e atenção quanto a mulher. Temos um quadro com várias vertentes e situações distintas, mas muitas vezes, perante inúmeras dificuldades e brigas com o tal pai que não quer assumir, é a mãe que acaba tendo um fardo para carregar. A criança, isenta de culpa, acaba sofrendo as consequências desta relação amarga ou inexistente em muitos casos. E aí?

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A contracepção foi um tabu enorme nas gerações passadas, coisa que evoluiu, mas nem tanto. Afinal, quantos caras já não falaram “camisinha é ruim, melhor não usar”, e coisas do tipo? Amigo, você corre o sério risco de ter um bebê, está sabendo? Fato ignorado na hora do sexo. Se a garota não quer que você coloque, você desiste? Ainda corre o risco de ter um filho com ela. Assim caminha a humanidade e a natureza cumpre seu devido papel. Propagandas como esta parecem até um momento de lucidez, porque sim, ainda tem homem que não se acha responsável por ter engravidado uma mulher.

Voltando ao assunto da publicidade, é interessante ver como alguns anúncios do passado conseguiam chamar a atenção masculina para o assunto da gravidez indesejada ou não planejada. É um bom exemplo do poder da propaganda, que se tornou uma referência forte no Reino Unido até os dias de hoje. Elaborado em 1969 pela agência Cramer Saatchi, que agora é Saatchi & Saatchi, a litografia em offset é simples, impactante e polêmica. A ideia inicial era colocá-la em salas de espera dos consultórios médicos, mas chegou até a revista Time e ganhou páginas em editoriais de outras mídias, que resolveram abordar o assunto. E olha ela aqui novamente, 46 anos depois, trazendo à tona o mesmíssimo tema.

No livro Saatchi & Saatchi: The Inside Story, o publicitário John Hegarty, que participou da campanha, descreve: O Homem Grávido foi mais do que uma peça de publicidade; foi a primeira vez que eu vi um trabalho que mudou para além os limites aceitos em nossas operações, comandando a atenção de um grupo muito maior de pessoas”. Assim como esta, vieram outras várias propagandas bacanas que alertavam sobre a importância do tal planejamento familiar. O choque era maior porque antigamente as coisas caminhavam diferente. Quando veio a pílula anticoncepcional em 18 de agosto de 1960, mulheres ainda se casavam com pouca idade e eram criadas para formar uma família. A pequena droga que regula hormônios trouxe não só a liberdade de escolha, como também muita polêmica, já que a igreja a considerava instrumento para aborto e, os mais conservadores/machistas lutam contra tal recurso até hoje.

“Essa é a sua atitude sobre a contracepção?” – Londres, 1986

gravidez indesejada

Revolucionária, a pílula começou a ser prescrita nas clínicas do Reino Unido em 1974, especialmente para as mulheres solteiras. A ideia de que “tudo bem” ter filhos se você é casada ou até mesmo a insistência por tê-los também continua até hoje, mesmo se o casal tampouco quiser. Mas ok, o benefício foi de que a mulher agora teria controle da situação, decisão antes dominada somente pelo homem, e poderia tomar sua pílula tranquilamente até desejar engravidar ou não. Essa questão também tem a ver com saúde, relacionamento e impacto familiar, afinal, essas são algumas das funções do controle de natalidade.

O impacto de campanhas como a do Homem Grávido foi mais além. Na época, era comum que as mulheres engravidassem com a promessa de que ganhariam um marido de presente, afinal, os próprios pais obrigavam ou insistiam para que o casal chegasse ao matrimônio o quanto antes, ainda mais se fossem gerar um filho. Segundo um estudo da Universidade de Harvard, a pílula começou a desmanchar essa promessa a medida em que era introduzida na sociedade, passando a desencorajar e diminuir a incidência de casamento relâmpago e até mesmo de se casar para poder fazer sexo. Ou seja, cheiro de liberdade no ar. Adeus, pressão!

Foi nesse mesmo período, meados dos anos 1960 e 1970 – também fértil para o movimento feminista -, que as dinâmicas de relacionamento mudaram, os casais passaram a juntar as escovas de dentes sem aquele compromisso todo, dando o primeiro passo fora dos princípios conservadores e religiosos. Estima-se que no Reino Unido, havia menos de um em cada 100 adultos abaixo dos 50 anos a ter feito isso, enquanto hoje o valor é de uma em cada seis pessoas moram juntas. Com a pílula, notou-se também a diminuição de crianças em abrigos, pois já não havia mais tanta gravidez indesejada quanto nos anos 1920, onde mulheres que não arrumavam um marido acabavam optando por deixar os filhos em orfanatos ou até mesmo por não ter condições de criá-los sozinhas. Ainda assim, o jogo continuava virando contra a mulher. 

Os homens automaticamente passaram a jogar a responsabilidade para as mulheres e se libertaram de ter tal controle sobre a gravidez. Ou seja, engravidou? “Ah, é porque você não se cuidou, mocinha. Não tomou a pílula!”, papo esse que surge até hoje em tantos sofás de casa. Não é por acaso que protestos pró-aborto passaram a ocupar as ruas nos anos 70, seja pela liberdade de escolha sobre o próprio corpo ou pela insegurança de criar um filho. Há muitas questões a serem pontuadas e ainda resolvidas dentro destes termos. E é uma questão urgente.

“Se a sua namorada fica grávida, você também!” – Utah (EUA), 1980 

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Hoje, existem muitas formas de repensar o assunto, mas é preciso incentivar esse debate. Mulheres ainda têm de assumir uma responsabilidade gigante de uma coisa que não depende somente delas; homens constantemente abandonam suas parceiras ou até mesmo aquele casinho de uma noite só após descobrirem a gravidez; não existe no mercado a tal pílula masculina ainda; e ainda é precária a campanha de prevenir e combater a gravidez indesejada. Aborto é uma solução legal? Bom, já dá a opção de escolha, mas acreditem, é um trauma muito grande, além de ser um perigo quando feito de forma ilegal, com métodos bizarros ou clínicas sem as mínimas condições. Fora o julgamento em cima da mulher que decidiu abortar, além da culpa que pode surgir após o procedimento. Ou seja, evitar situações como essa ainda é o melhor remédio e atualmente existem muitos métodos que vão além da pílula.

“Um direito da mulher escolher o aborto. Defenda o direito pelo aborto em NY” – Nova York, 1972

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Foto via

Reimaginar essa ação de marketing nos dias atuais poderia, inclusive, ter de fato um personagem real, o primeiro homem a ficar grávido no mundo, Thomas Beatie. Com a mudança de gêneros e o avanço científico, um homem trans poderia ser o alvo de uma propaganda, alegando até mesmo uma mensagem positiva, já que hoje é possível formar família de um jeito nada tradicional. Ainda existe uma necessidade também de despertar uma consciência maior sobre a gravidez, especialmente na adolescência e há dados que ilustram bem o tamanho do problema: segundo um relatório feito em 2013 pela Organização Mundial de Saúde e a ONU, o número chegou a 7,3 milhões, sendo 2 milhões de meninas abaixo dos 15 anos de idade. Fora esse dado gigantesco, 200 mil mulheres jovens morrem a cada dia ao redor do globo devido problemas no parto.

A publicidade também é uma ferramenta poderosa dentro deste termos. Tem um alcance enorme, tem recursos e grandes ideias como o Homem Grávido para ajudar a conscientizar a população, transformar a sociedade por meio de seu impacto e espalhar mensagens que ajudem nesse propósito. Os anos 1970 foram ótimos para vários avanços, dentro e fora da comunicação, mas 2016 adiante pode ser muito melhor.

“Abra com cuidado. É da sua conta, claro…até alguém engravidar. Tome precauções ou faça alguma coisa” – Queensland, 1980 

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“Planejamento familiar não é apenas um problema da mulher ou um problema do homem. É para ambos” – Caribe

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“Cuidado! Não dê um passo sem estar calçado. Para o momento de decidir, há muito por onde escolher” – México, 1995

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“Homens! O poder de prevenir o nascimento está em suas mãos” – anúncio incentivando o uso da camisinha na Índia, 1969

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“Controle da natalidade está ao redor há 4 mil anos. Não estava na hora de você saber disso?” – Londres, 1970

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“Recordar é viver…tranquilo” – México

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Imagens via

*Como não poderia deixar de ser, o Hypeness está presente no Cannes Lions e fazendo a cobertura do melhor que rola por lá. Vale a pena seguir nosso Snapachat em @hypenessoficial.

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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