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Precisamos falar sobre ‘consentimento’: você sabe o que ela quer?

por: Redação Hypeness

“Com essa saia desse tamanho, ela tava querendo algo, né?”. “Será mesmo que ela não queria?” “Ah, não venha me dizer que ela mudou de ideia no meio…como é que é isso?! Quis e não quis mais? Sei.” “Será mesmo que ela tá dizendo a verdade sobre ter sido estuprada? Porque, veja bem, ela foi até a casa dele. Ela queria de algum jeito.”

Estamos muito acostumados a ver a mulher sendo o sujeito da “sacanagem” que é feita com elas, como se ela saísse de casa desejando provocar desejo. A culpa é dela por não ter se cuidado, por ter vestido tal roupa, por ter ido até a casa de um amigo estudar. A gente percebe, nesses casos, que tem outro sujeito que age nessa história, que é o homem. E esse homem tem escolha, sim.

Numa consulta rápida ao meu Aurélio aqui, encontrei os seguintes significados para o verbo consentir: permitir, concordar, tolerar, admitir e dar licença. Então, consentimento seria uma permissão ou concordância com algo, tolerância a algo. Tanto o verbo consentir quanto seus sinônimos/significados nos reforçam a ideia de que o consentimento está ligado a um outro. A gente sempre consente ou não uma ação de alguém.

Baixa a bola amigo 😉

Por conta dos últimos acontecimentos (divulgados) de violência contra a mulher, muito tem sido discutido a esse respeito. Infelizmente situações como a da garota com os 33 estupradores tem que acontecer para que se possa conversar e pensar nessa temática, como se não bastasse tudo que já se desenrolou na história nada breve da existência da mulher na face da Terra.

Mas, veja bem… Será mesmo que toda mulher sai às ruas pensando em usar determinada roupa pra macho ver, comentar, querer ou fazer algo?

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Acho que não né? Tem mina que sai de casa como sai por se sentir mais confortável. Conheço também quem passe horas escolhendo o modelito, pra se sentir a mais bonita do trabalho, da festa, do metrô. Ou porque quer usar aquela roupa incríveeeel e pronto!

E aí é que tá o “pulo do gato”: sentir-se a mais bonita, confortável é uma sensação/sentimento da mulher com ela mesma. Então, não, não necessariamente ela se veste para causar algo em alguém – que não seja ela mesma. Assim como ela anda por onde anda porque assim o quer. Mulheres são seres independentes, sabe?! Com vontade própria e tal, que não são orientadas na direção dos homens (ou mesmo de outras mulheres) como se estes fossem ímãs.

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Pra quem?

Por outro lado, já acompanhei histórias nas minhas poltronas de mulheres que queriam impactar determinado homem. Aquele crush e tal. Manter aquele namorado, sustentar aquela relação. E para isso elas faziam de tudo: usavam determinadas roupas, já vi situações em que cirurgias plásticas (!) foram feitas para agradar o outro, sincronizavam suas agendas em torno da vida dos caras…e o resultado? Sofrimento. Só sofrimento.

Não teve uma história em que não houvesse sofrimento quando a vida da mulher estava voltada pra fora dela. Portanto, minhas queridas, cuidem de vocês do jeito que lhes fizer bem. Eu sei, não é fácil, é quase nadar contra a correnteza. Força!

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– Bom, mas aí, Laiz, a mina ta lá, toda gata e tal… Sei que ela não fez isso pra mim, pensando em mim, entendo o espaço dela. O que eu faço??

Daí a gente chega de novo numa palavrinha muito polêmica, que é consentimento. Volta lá pro começo do texto e dá um confere! 😉

O corpo é dela, as regras também

No meu consultório várias vezes eu já discuti com meus pacientes a respeito das coisas que a gente tem que (ou não) fazer. Os padrões de comportamento, do que é aceitável ou não, existem muito mais como guias do que como a realidade. O mundo ideal fica só nas ideias mesmo. Cada um é de uma forma e, nesse sentido, ninguém ‘tem que’ nada nessa vida, a não ser se responsabilizar pelas escolhas que faz e ações que promove no mundo.

Então, cara pálida, se a mocinha vai até a sua casa, ela não tem que ficar com você. Assim como você não tem que ficar com ela porque-se-ela-foi-na-sua-casa-ela-tá-querendo. Se a mulher usa uma saia curta, você não tem que assobiar porque homem faz isso e olha mesmo e pronto.

– Mas, Laiz, e se ela quer e ele não? E se ele quer e ela não? Como saber disso? Quem quer o quê?!

É simples: per-gun-te. Investigue. Como eu disse mais acima, cada um é de um jeito. Cada um foi construído no mundo de uma forma e, então, ninguém concorda, aceita, permite, dá licença para as mesmas coisas. Mulheres não são todas iguais. Homens também não. Relacionar-se é um jogo de ir percebendo o que o outro mostra de suas vontades e que vontades temos, e ir negociando nesse sentido.

– Mas, Laiz… Nem sempre é possível investigar, né. E se não for possível perguntar?

Ora, se não for possível perguntar, não faça. É sinal de que falta intimidade, passo anterior na construção de qualquer aproximação. Volte algumas casas e comece de novo. 😉

* Laiz Chohfi trabalha como psicóloga na Universidade de São Paulo (USP). É pesquisadora no LEFE-USP (Laboratório de Estudos em Fenomenologia Existencial e Prática em Psicologia), professora na Universidade Paulista (UNIP) e atende em consultório particular. Mãe de dois gatos, é amante de (dirigir) bons carros e está constantemente pensando na próxima tatuagem.

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