Inspiração

‘Preto, confiante; meu nome, minha religião. Se acostumem comigo’, o adeus a Muhammad Ali

por: Vitor Paiva

O tempo de vida de uma borboleta é em geral de algumas semanas. O mesmo vivem as abelhas operárias. Muhammad Ali, híbrido de lutador de boxe, rei, abelha e borboleta, viveu 74 anos. Um lutador ao mesmo tempo que um pacifista e humanista – sete décadas e meia de lutas ininterruptas.

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Ali disse não à pobreza, não ao racismo, não aos limites do esporte, não à guerra do Vietnã, não às federações de boxe, não ao próprio nome de batismo, para poder dizer sim para si e os seus. Sua história se confunde com a história do século 20, e sua vida, dentro ou fora dos ringues, foi do tamanho do mundo. Nenhum outro atleta personificou melhor seu tempo, seu contexto e seus sonhos do que Muhammad Ali, o maior lutador de boxe de todos os tempos, uma das maiores personalidades do século, que faleceu na última sexta-feira.

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Ali com os Beatles, após ganhar o primeiros de seus três títulos mundiais Ali com os Beatles, após ganhar o primeiros de seus três títulos mundiais

Parkinson, um adversário impiedoso

Ainda que parecesse imbatível e destemido, Muhammad Ali era ainda humano. Desde muito cedo em sua carreira os médicos lhe alertavam de que não devia se submeter a tantos golpes nos treinos e lutas, principalmente contra a cabeça. Mas era assim que Ali funcionava, entre o martírio e o milagre, como se de fato pudesse aguentar tudo.

Muhammad Ali Knocks Out Liston

O Mal de Parkinson que lhe acometeria nas suas três últimas décadas de vida serviu como lembrete de sua humanidade, mas não foi capaz de apagar em nada o carisma, a força, a beleza, o talento e a inteligência que formaram tanto o atleta quanto o ativista.

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Pois para se alcançar a excelência em qualquer esporte a inteligência é força essencial. E quando esse atleta extraordinário reconhece, domina e utiliza a própria inteligência e singularidade a seu favor, ele então se torna ainda maior. Foi o caso de Ali. Uma vitória sua não se resumia à técnica, à força, ao timing ou à resistência – não se resumia sequer ao boxe.

Ali poeta

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Suas conquistas se davam também pelo carisma, a dança, a poesia, a psicologia, o humor, o grito, o artista que foi. Um peso pesado que bailava leve, confundindo seus adversários, braços tombados e sorriso no rosto, convidando e incentivando o golpe, para que de repente, a borboleta que parecia voar frágil se transformasse em uma abelha de 1,91 de altura e quase 2 metros de envergadura, para trucidar o adversário sem piedade e sem perder a elegância – sem perder o tempo da dança.

Veja Ali desviando de 21 socos em 10 segundos, cheio de estilo:

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“Eu não tenho que ser quem você quer que eu seja”. Ali se dizia o mais bonito, o mais rápido, o mais forte, o melhor, o maior – provocando adversários ao extremo, falando e cantando como um rapper ou um repentista sobre como seria um massacre a luta que ainda estava por vir.

Muhammad Ali v Sonny Liston

De fato foi um poeta (podia ser visto, entre treinos, falando poemas em saraus nos cafés de Nova Iorque no início da década de 1960) e não supor a presença desse refinamento sua habilidade atlética seria simplesmente negar o algo mais, o mistério e a luz que o talento sobrenatural nos oferece. Era um poeta quem lutava, era um poeta quem desviava de todo e qualquer soco, era um poeta quem se movia na velocidade da luz, era um poeta quem “voava como uma borboleta, e picava como uma abelha”.

As danças de Muhammad Ali no ringue:

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Seu nome de batismo, Cassius Marcelus Clay Jr., era para ele um nome escravo, enquanto Muhammad Ali – nome que escolheu para si depois de se converter ao islamismo – era o nome de um homem livre. “Eu sou os EUA. Eu sou a parte que vocês não reconhecem. Mas se acostumem comigo. Preto, confiante, arrogante; meu nome, não o seu; minha religião, não a sua; meu próprio objetivo. Se acostumem comigo.”

Ali vencendo a medalha de ouro, nas olimpíadas de Roma, em 1960 Ali vencendo a medalha de ouro, nas olimpíadas de Roma, em 1960

Luta fora dos ringues

Após voltar das olimpíadas de Roma com a medalha de ouro, em 1960, e ainda assim uma garçonete se recusar a lhe atender por Ali ser negro, ele próprio contava a lenda de que havia atirado a medalha no Rio Ohio. Nascia então o ativista Muhammad Ali.

O atleta, após se recusar a ir à Guerra do Vietnã O atleta, após se recusar a ir à Guerra do Vietnã.

Em 1966, ao se recusar a ir à Guerra do Vietnã, Ali ajudou a instaurar o movimento pacifista, tornando-se assim mais do que um ícone do esporte, um ícone cultural. “Minha consciência não permite que atire em meu irmão, ou em pessoas mais escuras, pessoas pobres e famintas vivendo na lama, em nome da grande e poderosa América. E atirar neles pelo quê? Eles nunca me chamaram de ‘nigger’, nunca me lincharam, ou me atiraram aos cães, nunca roubaram minha nacionalidade, estupraram ou mataram minha mãe ou meu pai… Como eu poderia atirar nessas pobres pessoas? Podem me levar preso”, ele disse.

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O custo, porem, foi alto: perdeu sua licença, o título mundial que havia conquistado em 1964, e foi impedido de lutar por quase quatro anos, no auge de sua carreira. Nesse período, tornou-se palestrante, percorrendo universidades, debates e programas de TV, falando com quase a mesma contundência de seus punhos cerrados.

O efeito de tais posicionamentos sobre a identidade coletiva e a autoestima dos negros na América, no entanto, foi gigantesco. De certa forma, Ali utilizou a desigualdade e a exclusão impostas aos negros como um caminho para a autonomia, a insubordinação, a insurreição e a definição de uma força identitária que poderia superar o racismo.

Muhammad Ali ao lado do reverendo Martin Luther King Jr. Muhammad Ali ao lado do reverendo Martin Luther King Jr.

Se todos o viam como um negro antes de um americano, antes de um ser humano, que isso então servisse como caminho para a autonomia, o orgulho próprio e a liberdade.

Muhammad Ali com o líder negro Malcom X Muhammad Ali com o líder negro Malcom X

Rumble of the Jungle

O campeão só recuperaria o título que lhe foi tirado dez anos depois de o ter conquistado, em 1974, contra George Foreman, então detentor do cinturão. A luta, realizada no Zaire, em plena África negra, ficou conhecida como “Rumble of the Jungle” (Luta na Floresta, em tradução livre) e tornou-se possivelmente o maior evento da história do boxe. Até um festival de música foi realizado para anunciar o combate, com shows do quilate de James Brown, B.B. King e Miriam Makeba.

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No ringue, Ali fez de tudo: desviou de socos feito um personagem impossível de desenhos animados, bailou na velocidade da luz, provocou Foreman em cada round falando sem parar. E bateu – mas também apanhou. Muhammad Ali apanhou de Foreman ao longo de todo o embate, e, ao perceber que não teria chance no confronto direto, o que poderia selar seu destino se tornou sua tática – entre o martírio e o milagre, a inteligência e a loucura. Foreman era mais forte e mais jovem, mas Ali era mais inteligente, experiente e resistente.

Muhammad Ali Vs. George Foreman Muhammad Ali Vs. George Foreman

Aos poucos, Foreman começou a se cansar, a ralentar, a perder a confiança. Foi quando a abelha começou a surgir, e Ali passou a provoca-lo ainda mais: “Me disseram que você sabia bater, George! Que você batia tão forte quanto Joe Luis!”, ele disse. Os muitos golpes de Foreman pareciam não surtir efeito em Ali, que passou a bater cada vez mais e mais rápido. Foreman admitiu que soube que perderia a luta quando, ao acertar um gancho perfeito, digno de um nocaute, ouviu de Ali, sussurrado em seu ouvido: “Isso é tudo que você tem, George?” (Veja a cena, aos 5:07 minutos do vídeo abaixo)

No oitavo round, sem marcas no rosto e perfeitamente ereto, Ali derrubou um Foreman exausto, tonto como um bêbado, e recuperou enfim seu cinturão.

E Foreman cai E Foreman cai

Ali viria a perder e reconquistar o cinturão ainda mais uma vez, e lutaria por mais sete anos após a épica batalha da floresta. Mesmo com o declínio na carreira e a doença que lhe acometeu, ele permaneceu um símbolo sólido de força, resistência e luta. Seguiu um ativista contra guerras, injustiças e racismos, inspirando o mundo e, assim mantendo-se jovem e belo em nossos sonhos.

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Perder, tremer, envelhecer, até mesmo morrer significam pouco diante de alguém que, contra tudo e todos, se elevou acima da injustiça e da dor, e nos carregou junto.

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Morre com Ali um pouco do sonho de que podemos, inspirados, mudar o mundo. E assim, mesmo que ingênuos, de uma maneira ou de outra, de fato mudamos com Muhammad Ali. Uma parte de algum mundo melhor, mais justo e menos desigual, mais charmoso e divertido, nós devemos a ele. – essa borboleta, graciosa e letal, que enfim deixou de bater asas, mas que segue, imbatível, dançando no ar.

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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