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‘Ocupação Glauco’ revela o legado do cartunista e sátiras mais atuais do que nunca

por: Brunella Nunes

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O Glauco era um cara diferente, que vivia num universo onde tudo e todos poderiam virar personagem para suas tirinhas (ou tiradas). Ao lado de Laerte e Angeli, formava não só a HQ Los 3 Amigos, mas a tríplice aliança do humor em quadrinhos brasileiros. Filho de mãe desenhista e bem humorada e irmão do também cartunista Pelicano, não poderia haver outro destino para ele a não ser nos fazer rir, mesmo que a vontade seja de chorar diante dos problemas políticos, sociais e cotidianos retratados nas páginas de jornais. Na mostra Ocupação Glauco, em cartaz no Itaú Cultural de São Paulo, sua trajetória da ilustração ao Santo Daime é deliciosamente revelada.

Com traços rápidos, Glauco Vilas Boas desenhou mais de 200 obras ao longo de 30 anos de trabalho e o acervo fica em mãos de Beatriz Veniss, sua companheira por 15 anos, interrompidos pela sua morte inesperada em 2010. Na cenografia da pequena porém recheada exposição, mergulhamos através de seus personagens, conhecemos seus amigos mais íntimos, passeamos pelo Céu de Maria – igreja do santo-daime criada por ele – e até aprendemos a desenhar e montar tirinhas numa mesa interativa.

Um dos personagens mais famosos é o Geraldão, marmanjo de 30 anos que ainda mora com a mãe, é cheio de vícios e, no ápice da virgindade, conta apenas com uma boneca inflável para desbravar o corpo feminino. A revista que carregava seu nome era editada quando ainda não havia computadores. As tirinhas mais ousadas só podem ser vistas através de um buraco de fechadura – referência à capa da primeira revista do personagem, que insistia em espiar a mãe no banheiro.

O sucesso foi tanto, que Glauco fez uma versão infantil para o suplemento Folhinha do jornal Folha de S. Paulo. Mais light, o Geraldinho já dava indícios de uma vida desregrada: não gostava de tomar banho, tinha horror à escola e era viciado em sorvete.

O humor ácido aparece nas sátiras aos políticos brasileiros, que por incrível que pareça, não mudaram desde os primeiros esboços do artista até as artes serem finalizadas. A corrupção, a simbólica pizza que pontua os esquemas descobertos e a cara de pau são os principais elementos retratados por Glauco. A risada diante das tirinhas é inevitável, mesmo que a situação continue trágica.

Já as tirinhas do personagem Faquinha, um pequeno marginal, trazem reflexão sobre crimes e injustiça social. O Casal Neuras é também um reflexo de muitos relacionamentos, onde o ciúme domina tanto quanto às reconciliações. O Zé do Apocalipse vive a anunciar suas profecias, mesmo que não condizem com a realidade. E a Dona Marta, que assusta o machismo com tanta atitude, foi inspirada em uma amiga do autor.

Nos esboços, observamos não só sua mente trabalhando, mas traços de sua personalidade através de recadinhos que enviava para os colegas da edição e da arte final. Laerte e Angeli contam, em vídeo, capítulos de suas sagas juntos, assim como faz PelicanoNilson Azevedo, com quem dividiu moradia ao lado de Henfil.

O lado daimista aflorado fez nascer o Céu de Maria, em Osasco, onde Glauco se transformou num reconhecido e devoto líder espiritual. Foi ali onde renasceu e infelizmente faleceu assassinado junto ao filho Raoni. Seu legado, agora registrado em exposição, revela também o quanto a perda foi grande e o quanto ele faz falta no mundo.

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Foto © Marjorie Luz

Ocupação Glauco @ Itaú Cultural | Até 21 de agosto de 2016
Av. Paulista, 149 – Bela Vista/São Paulo
Horários: terça-feira a sexta-feira, das 9h às 20h; sábado, domingo e feriado, das 11h às 20h.

Entrada livre e gratuita, sem a necessidade de retirar ingressos.

Todas as fotos © Brunella Nunes

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.


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