Arte

A história do punk feminista em 10 músicas

por: Vitor Paiva

Definir o que é ‘punk’ e o que é ‘feminista’ não é tarefa simples, considerando a abrangência que ambos os termos podem possuir. A lista abaixo (inspirada em matéria da Pitchfork) tenta reunir canções que possuam os dois espíritos ao mesmo tempo: o punk como uma forma de expressão musical rebelde, crua e direita, e o feminismo como a afirmação da mulher que procura explorar, questionar e destruir estereótipos de gênero e paradigmas tradicionais dentro desse tema.

A partir da definição do punk supracitada, as artistas presentes nessa lista não necessariamente fizeram parte do movimento punk propriamente, muitas sendo posteriores ao momento (algumas ligadas ao que ficou conhecido como movimento Riot Girrrrrl, de bandas femininas de rock dos anos 1990). O importante, portanto, é o espírito punk, para além do rótulo ou da época, aliado ao discurso e à postura rebelde e questionadora sobre o lugar da mulher e a voz feminina em nossa sociedade.

Patti Smith – Land

É impossível imaginar o Punk, e ainda mais o punk feminista, sem Patti Smith. Ainda que Land conte, na primeira parte de seus 10 minutos de canção, a história de um menino abusado sexualmente, logo a música se transforma na história da própria Patti – e o grito pela liberdade se impõe. De qualquer forma, a verdade é que qualquer música de Patti poderia abrir essa lista – o importante é te-la como força fundadora.

The Raincoats – No One’s little Girl

No início dos anos 1980 as Raincoats já se auto-intitulavam feministas punk – o que era um gesto simbólico e objetivo sem precedentes. No One’s Little Girl coloca desejos normalmente masculinos na voz e força de uma mulher, que quer viver uma vida livre, boêmia, sem olhar pra trás, fazer as próprias escolhas e se aventurar – como uma mulher.

Sonic Youth – Flower

Ainda que o Sonic Youth nunca tenha sido exatamente uma banda punk, em termos de postura, sonoridade e agressividade eles definitivamente não devem nada. Em Flower a baixista e vocalista Kim Gordon canta um quase mantra bastante objetivo: apoie o poder da mulher/ use o poder do homem/ Apoie o poder da mulher/ Use a palavra ‘Fuck’. A música não possui nada de sutil – e é por isso que entra nessa lista como um hino.

Bikini Kill – Feels Blind

“Feels Blind” canta um belo poema sobre sororidade e sobrevivência, se valendo da abrangência e abertura da poesia para permanecer contundente com o passar dos anos. ‘Como mulher eu fui ensinada a sempre permanecer faminta’, canta a letra de Kathleen Hanna, e conclui: ‘Nós podemos até engolir seu ódio como amor’. Precisa de mais?

7 year bitch – Dead Man Don’t Rape

O título dessa música da banda de Seattle, oriunda da mesma cena grunge do Nirvana, é bastante claro e direto: homens mortos não estupram. A letra segue em sua agressividade frontal: Eu não sinto pena, nenhuma lágrima/Para os que sentem alegria através do medo de uma mulher. A música ganhou sentido ainda mais contundente um ano depois de seu lançamento, em 1993, quando a vocalista da banda Gits (e amiga da banda) foi estuprada e morta.

L7 – Pretend We’re Dead

Uma das canções comercialmente mais bem sucedidas da lista (tendo entrado no top 10 dos EUA em 1992, quando do seu lançamento), Pretend We’re Dead ilustra o cenário econômico e sociopolítico que exclui e marginaliza a mulher. A solução proposta é uma só: virar a mesa pela união das mulheres. Apesar da simplicidade da canção, seu apelo traz uma mensagem bastante contundente escondida.

PJ Harvey – 50ft. Queenie

A jovem PJ Harvey vai ao extremo do gesto poético nessa canção de 1993: Curve-se, Casanova/Sem suor, estou limpa/Nada pode me parar. Ainda que PJ tenha resistido aos métodos de outras artistas feministas – e tenha trabalhado e oferecido tributo a ícones masculinos como os Rolling Stones e Nick Cave -, em 50ft. Queenie ela arrebenta essa estrutura masculina com uma poética sem lubrificante.

Hole – Violet

Você pode até não gostar de Courtney Love, e pode achar que o Hole é uma banda comercial, mas a força vocal e a qualidade da própria canção em Violet é inegável – assim como certo espírito punk que jamais abandonou Courtney. A canção urra sobre exploração sexual, desigualdade e amor do ponto de vista de uma mulher, e permanece como foi nos anos 1990 – uma força feminina em vísceras expostas.

Le Tigre – Hot Topic

Ainda que seja uma banda de sonoridade dançante, o Le Tigre tem Kathleen Hanna, depois de deixar para trás o Bikini Kill, à sua frente, gritando sobre política e feminismo na pista de dança – e isso a qualifica para essa lista. Em Hot Topic ela lista um grande elenco de feministas e artistas queer, para por fim lhes pedir que não parem – pois ela não poderia viver se eles pararem.

Dominatrix – Meu Corpo é Meu

Nome brasileiro dessa lista, a banda Dominatrix é a primeira ligada no Brasil ao movimento Riot Girrrrrl, em 1995. Inicialmente cantando em inglês, a banda migrou para o português justamente para poder falar com mais clareza suas mensagens políticas e feministas. Meu Corpo é Meu é uma canção sobre aborto, sobre o direito da mulher sobre o próprio corpo, com uma letra direta e reta, sem atalhos: Puta é aquela que se dá pra quem se dá sem o seu aval misógino/ mas meu corpo é meu.

© fotos: divulgação

Recentemente o Hypeness contou a história da cantora Betty Davis, feminista, negra e revolucionária. Relembre.

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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