Debate

A incrível geração que não quer mudar o mundo

por: Redação Hypeness

Recentemente li um texto da Ruth Manus, do Estadão, cujo título se referia à incrível geração que teria encontrado felicidade na demissão. Li, reli e me senti contemplado, visto que ter sido demitido em 2014 e pedir demissão em 2015 foram ações que mudaram o rumo da minha vida.

Hoje eu sou mais um dos jovens de 20 e poucos anos que considerou um caminho diferente para viver a vida. Sem aquela coisa de nascer, crescer, trabalhar e morrer. Sem a sensação de que a gente vive para trabalhar e trabalha para sobreviver numa rotina insana que não oferece qualidade de vida ou coisa do tipo.

Não conto com a ajuda dos meus pais, rebolo muito para conseguir minha grana e me bancar na cidade grande, entro no cheque especial todo mês, mas tenho uma vida bem bacana e não tenho do que reclamar. Tenho privilégios como ter sido bancado a vida inteira pelos meus pais, ter estudado em colégio e universidade federal, ter tido uma vida social bastante interativa e cheia de contatos que me puseram onde estou. Não foi mérito, foram condições sociais.

E por que eu toco neste assunto? Vi muitos amigos ofendidos com o ponto defendido pela Ruth, de que as pessoas estão trocando carreiras estáveis e empregos de sucesso para correr atrás dos seus sonhos de vida. Ouvi de muita gente como isso é injusto e passa uma ideia completamente errada da “nossa geração”. Em primeiro lugar, entendo que quando se fala em geração, nós cometemos o erro de generalizar a vida de um monte de gente baseada nas nossas. Você fala de uma geração, mas a verdade é que fala dos seus amigos próximos, de gente que trabalhou com você, do colega de Facebook que posta textão sobre os prazeres da liberdade. É um equívoco comum, mas também seria impossível para qualquer pessoa colocar em duas folhas de papel todas as exceções e concessões. Então ela aceita o risco de errar quando generaliza.

Além disso, o tal texto fala sobre como temos mais oportunidades de arriscar, fugir da Matrix, não precisar de um emprego formal para perseguir a vida dos sonhos, ainda que isso signifique trabalhar por horas em outra coisa para subsidiar o sonho. Sinto dizer: isso não é possível a todo mundo da “nossa geração”. Tem gente que mal consegue se manter no sistema público de ensino fundamental por condições de vida, tem gente que não consegue juntar dinheiro e se afoga em dívidas apenas para pagar seu aluguel, tem gente desempregada há dois anos na atual crise financeira do país. Tem gente que nunca vai conseguir largar tudo, mesmo que se esforce a vida toda, porque não teve a mesma oportunidade que eu – de estudar, de ter contatos, de trabalhar com algo que não exija presença -, e essa gente também faz parte da “nossa geração”.

Lendo o livro “Romance Moderno”, do Aziz Ansari, outro ponto salta aos olhos: vivemos um tempo diferente dos anos 50. Enquanto nossos avós só tinham uma ou duas escolhas grandes na vida, nós temos mil portas abertas num corredor. Para alguns, essas portas estarão abertas e resultarão numa indecisão canalha do que escolher. Para outros, muitas dessas portas estarão fechadas e hasta la vista seguir seu sonho.

Ainda assim, no primeiro grupo, tem gente que não quer – e tá muito feliz – com seu emprego formal, com suas oito horas por dia, com seus plantões médicos, com a vida que nossos pais e avós tiveram. Eles querem comprar casas, casar, ter filhos, adquirir bens, construir patrimônios, viajar uma vez por ano nas férias. Têm pavor à ideia de abrir mão disso para ir atrás do que todo mundo diz que eles precisam ir atrás e seguir seus corações. Seus corações já sabem onde querem estar, e muito obrigado pela sua preocupação com eles. Eles também fazem parte da “nossa geração” e não têm a menor intenção de mudar o mundo, subverter valores, correr vinte países em trinta dias etc e tal.

E a geração que quer mudar o mundo deveria agradecer – e muito – a eles. Porque se não houvesse gente fazendo o trabalho penoso, chato, batendo cartão, batendo cimento, passando horas em empregos simples e mal pagos, passando horas em escritórios engravatados, essa galera (me incluo) não teria a menor possibilidade de consumir e ter acesso a serviços e condições que, pasmem, são incrivelmente necessárias para manter o tal mundo girando.

ass_danihype

Para conhecer o trabalho do Daniel Bovolento, siga este link.

Todas as fotos © Daniel Serva

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