Arte

A música transcendental e a vida iluminada de Alice Coltrane

por: Vitor Paiva

Se a música estadunidense se resumisse aos artistas vindos da cidade de Detroit, no estado do Michigan, os EUA ainda assim seriam um dos maiores produtores de música popular do mundo. Varando as sonoridades mais diversas como local de origem da gravadora Motown nos anos 1960, do techno no fim dos 1980 e um dos berços do punk no país, a música de Detroit se multiplica entre o clássico, o blues, o jazz, o gospel, 0 rock, 0 pop, o punk, o soul, o eletrônico, o hip-hop e além. De lá vieram nomes como Aretha Franklin, The Temptations, The White Stripes, The Supremes, Four Tops, Eminem, MC5, Diana Ross e todo o elenco da Motown, The Stooges, Big Sean e outros – muitos outros: na medida de sua música, Detroit sozinha é um país.

A cidade de Detroit nos anos 1950

A cidade de Detroit nos anos 1950

A explicação para esse tipo de ebulição geográfica quase sempre reside na mistura de culturas, principalmente através da presença massiva de populações negras no local – como se dá, por exemplo, no estado da Bahia, que por  também garantiria sozinho a presença do Brasil entre os grandes da música popular mundial. No meio dessa constelação de criadores e interpretes da vasta música popular dos EUA, uma artista se sobressai em Detroit pela singularidade e a qualidade de sua música, ressoando sob a sombra do peso de seu sobrenome: Alice Coltrane.

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Alice Coltrane

Por ser a segunda esposa do maior saxofonista da história do jazz,  todo o foco de sua história poderia pousar sobre John Coltrane – mas esse não é o caso de Alice. Quando Coltrane a conheceu, ainda chamada Alice McLeod, ela já era uma pianista profissional de alto quilate: após se casarem, em 1965, Alice se tornaria pianista da banda de Coltrane até a morte do saxofonista, em 1967.

Alice antes de se casar e tocar com John Coltrane:

A banda de Coltrane, com Alice, em frente ao lendário Village Vanguard, em NY

A banda de Coltrane com Alice em frente ao lendário Village Vanguard, em NY

Substituir o grande McCoy Tyner no piano já seria tarefa para poucos – garantindo olhares tortos e severa expectativa por parte da crítica e dos aficionados em jazz – em qualquer banda do mundo. Cometer tal ousadia em uma dos mais revolucionários grupos na história do estilo, sendo casada com seu líder e, mais ainda, sendo uma mulher de 26 anos de idade há quarenta anos transformaria para a maioria o desafio em martírio. Mas Alice Coltrane topou a empreitada com naturalidade, e saiu dela respeitada e admirada.

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John e Alice

Alice e John Coltrane trabalhando juntos

Alice e John Coltrane trabalhando juntos

 Quando tornou-se pianista da banda de Coltrane, o saxofonista lutava para abandonar por completo as ortodoxas amarras do jazz, na direção de uma musica abstrata que, carregada pelo interesse cada vez mais intenso pela sonoridade e a filosofia indiana, se aproximava de uma sonoridade tão meditativa quanto louca – e Alice seria uma grande parceira nesse processo, tocando piano como se estivesse num transe delirante, como uma base ambiental perfeita para os solos de seu marido. A sonoridade criada pela banda nos últimos anos de vida de Coltrane viria a se revelar profundamente influente para diversas vanguardas posteriores.

 

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Ser mulher de Coltrane, sua pianista e ainda de Detroit não era, portanto, simples encargo, mas sim tarefa de vida. Todos os adornos biográficos de Alice poderiam ter sido fantasmas incontornáveis de sua trajetória – que, contra qualquer prisão, encontrou sua direção no hinduísmo, na filosofia oriental, na vida comunitária e, claro, na sua própria música.

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Passada a morte de Coltrane, Alice se engajou cada vez mais na religiosidade propriamente, convertendo-se de vez ao hinduísmo e fundando o Vedantic Center, a primeira comunidade espiritual hindu da Califórnia, localizada no Vale de San Fernando. Alice tornou-se uma swami, espécie de líder e professora hindu, mas jamais deixou de lado sua musica e nem o legado de seu falecido marido.

O centro hindu criado por Alice na década de 1970

O centro hindu criado por Alice na década de 1970

Por quatro décadas ela cuidou da memória e da obra de John, eventualmente se apresentando ao lado de Ravi e Oran, dois de seus filhos com o saxofonista.

Seus discos na década de 1970 refletiam filosófica e musicalmente esse mergulho espiritual que guiou sua vida após a morte do marido. Tal qual Coltrane moldou sua obra-prima A Love Supreme como um disco espiritual em agradecimento às forças superiores que guiavam seu instrumento, Alice regeu sua própria sonoridade na direção de escalas e estruturas cada vez mais orientais – significando a natureza religiosa que seria o norte da vida da pianista até seu fim, como uma música de ligação com o divino.

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Parte da atração entre Alice e John certamente se deu pela inclinação de ambos à cultura, à sonoridade e às religiões orientais, assim como do suporte que ofereciam um ao outro ao longo de tal busca. Foi Alice quem, por exemplo, cuidou das crianças e da casa durante os cinco dias em que Coltrane meditou e rezou isolado para a composição de A Love Supreme.

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Alice Coltrane tocando harpa

A morte de Coltrane quase significou também o fim da vida de Alice que, segundo a própria, mal dormiu ou se alimentou durante dois anos. Foi colocando o vazio e a dor em sua música que ela conseguiu se salvar, para se tornar uma iluminada guia espiritual de sua própria congregação hindu.

Alice sabia, assim como sabia John, que a busca por iluminação através da música necessariamente lhe obrigaria a correr riscos – estéticos, sonoros, musicais. Seus primeiro discos, A Monastic Trio (1968), Huntington Ashram Monastery (1969), Ptah the El Daoud (1970) e Journey in Satchidananda (1970), serviram como degraus para que ela chegasse à sua obra-prima, Universal Consciousness, de 1971, na qual estreou como organista.

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Os elementos e sonoridades diversos e a mistura de ritmos e estilos de certa forma funda, com ao menos dez anos de antecedência, aquilo que viria ser conhecido como World Music, uma ideia de música do mundo, não restrita às influências natais de um estilo ou artista.

Diferentemente, porém, de certa tendência inofensiva que tomaria conta dessa chamada World Music, Universal Consciousness é um trabalho forte, expressivo, cheio de energia e discurso – como a exposição de extremos para significar as tais forças espirituais. A crítica reconheceu o disco como uma grande obra, como que feita em parceria com forças ocultas em uma espécie de jazz transcendental.

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Ser uma mulher negra e, por isso, viver a dureza de se tornar senhora de si e a grande artista e líder que viria a ser, não foram assuntos que passaram incólumes na vida de Alice. “As mulheres foram excluídas e limitadas por séculos. A criação não poderia ser enredada, não poderia sequer ser considerada, muito menos acontecer sem a mulher. Ela é principal, uma energia poderosa. A mulher vem primeiro”, afirmou a pianista.

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Alice Coltrane em apresentação nos seus últimos anos de vida

Alice viria a falecer em 2007 e, ainda que suas apresentações tenham se tornado cada vez mais raras ao longo da década de 1990 e 2000, ela jamais deixou de subir aos palcos – como pianista, organista ou harpista, para honrar a memória de John, sua própria obra e, sempre, o caminho da espiritualidade e da iluminação. “A maioria das pessoas não tem o tipo de paciência ou crença que tinha minha mãe. Ela não controlava seu próprio instrumento. Ela deixava o universo fazê-lo”, definiu sua filha, Miki Coltrane.

E o universo o fez, deixando como herança não só uma fina música vinda de Detroit (que se tornaria uma música do mundo), como uma trajetória de inspiração para muito além do que pode haver de mero nesse mundo: na direção da música como caminho para a iluminação.

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© fotos: divulgação

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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