Inspiração

Um viva à alegria e inteligência de Elke Maravilha e sua colorida liberdade

por: Vitor Paiva

O imaginário brasileiro é feito de pessoas e influências do mundo todo. Assim como Carmem Miranda nasceu em Portugal para se tornar um símbolo do Brasil, Elke Maravilha calhou de nascer na Rússia, um país em quase tudo oposto a este que hoje, mais do que lamentar sua morte, comemora sua vida e espírito. Antes de se tornar Maravilha, nasceu Elke Georgievna Grunnupp, ou melhor, Элке Георгевна Груннупп no alfabeto cirílico original, na histórica cidade de São Petersburgo, então conhecida como Leningrado.

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Sua entrada no mundo já se deu feito uma estreia – dura e histórica, iluminada sob os holofotes da segunda guerra mundial. Elke nasceu no dia 22 de fevereiro de 1945, um dia antes dos americanos levantarem sua bandeira na ilha de Iwo Jima, no Japão, e curiosamente, um dia depois dos pracinhas brasileiros vencerem sua principal batalha no conflito, em Monte Castello, na Itália. Sete meses depois de seu nascimento, a guerra enfim terminaria.

Elke, ainda criança, no colo de sua mãe Elke, ainda criança, no colo de sua mãe

Nascer em uma cidade conhecida por ter bravamente resistido às investidas nazistas por quase três anos parece ter se tornado espécie de destino atávico para Elke. Resistir foi para ela um ofício de vida. Seu pai havia sido prisioneiro em um campo russo na Sibéria, e sua família deixou de ser bem vinda no próprio país.

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Criança, foi trazida para o Brasil por seus pais para viverem em Itabira, interior de Minas Gerais, cidade onde nasceu e cresceu o poeta Carlos Drummond de Andrade. A decisão de não migrar para uma colônia foi pensada: queriam se misturar, e aprender a ser de fato brasileiros. Foi assim que Elke conheceu pessoas de etnias, orientações sexuais, ideologias políticas e origens diversas. Essa convivência com diferenças raças e naturezas humanas ela dizia que havia adocicado a dureza russa de sua origem. – a mistura que justamente não havia em seu país, e que se tornaria essencial para a persona Maravilha que ainda dormia dentro da jovem Elke.

A jovem Elke Maravilha

Tendo saído de uma das cidades mais emblemáticas do planeta para o interior de Minas Gerais, o mundo inteiro jamais deixou de estar contido dentro de Elke, que ainda jovem falava nove línguas: russo, português, alemão, italiano, espanhol, francês, inglês, grego e latim. Formou-se em Letras, trabalhou como professora, bancaria, secretária e bibliotecária, mas só começou a se encontrar com seu destino quando lhe foi sugerido que trabalhasse como modelo, por sua beleza exótica e sua altura peculiar. Quando estilistas encantaram-se por Elke, a agora modelo começou a alcançar reconhecimento, tornando-se uma das mais emblemáticas manequins do país. Entre estas estilistas, estava sua amiga Zuzu Angel.

Elke em seu início de carreira Elke em seu início de carreira

Anarquista como orientação política e filosofia de vida, Elke viveria para não se submeter a nada: nem homens, patrões, padrões, ditaduras ou mesmo nações. No ano de 1972 foi presa no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, depois de rasgar aos gritos de “covardes” e “assassinos” cartazes que colocavam Stuart Angel, o filho de sua amiga Zuzu Angel, como “procurado”, enquanto todos sabiam que Stuart já estava morto na base do Galeão, depois de intermináveis sessões de tortura. Zuzu também viria a ser assassinada pelo regime.

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Elke já havia perdido sua nacionalidade russa e, por ser enquadrada na Lei de Segurança Nacional da Ditadura brasileira, depois de seis dias ela saiu da prisão para descobrir que não era mais de nação alguma; sua nacionalidade brasileira havia também sido cassada. Permaneceu como cidadã do mundo, e de lugar nenhum, por muitos anos, quando enfim pediu cidadania alemã. Elke jamais quis retomar nem sua identidade russa nem brasileira, como uma espécie de resistência permanente e solitária.

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As perucas, maquiagem pesada e os infinitos acessórios entraram em cena quando se tornou jurada do programa do Chacrinha – e enfim o personagem nascia por completo. Chacrinha teve a presença de espírito de entender que aquela personalidade exuberante e livre poderia ser assimilada – e amada – até mesmo pela tradicional família brasileira de frente à televisão. Chacrinha tinha razão.

Elke e seu "painho", Chacrinha Elke e seu “painho”, Chacrinha

Com Pedro de Lara no Programa do Chacrinha Com Pedro de Lara como jurada no Programa do Chacrinha

Por seu jeito de se vestir e agir, Elke conta que apanhou na rua, com direito a cuspidas e cicatrizes, mas que jamais recuou, pois essa era sua verdade. Ainda que tenha sido modelo, jurada, atriz e apresentadora, é difícil, no entanto, enquadra-la em uma profissão específica, dessas que facilitam a definição sobre uma pessoa. A verdade é que Elke Maravilha foi Elke Maravilha, uma artista sem sombra de dúvidas – e qualquer outro rótulo será menor.

A atriz Elke Maravilha em cena do filme "Pixote - a lei do mais fraco", de Hector Babenco (1981) A atriz Elke Maravilha em cena do filme “Pixote – a lei do mais fraco”, de Hector Babenco (1981)

Quando alguém consegue em uma só vida incomodar o regime soviético, o regime ditatorial brasileiro, a moral e os bons costumes e o machismo, duas coisas são indiscutíveis: esse alguém está do lado certo da luta, e a liberdade é sua única opção. Assim, Elke casou-se oito vezes e se tornou uma defensora incorrigível da comunidade LGBT, dos direitos das mulheres, da liberação do aborto e das drogas. Sua maneira de agir e se vestir, que a alinhou como uma espécie extra-gênero de travesti – ela mesma dizia que não era mulher nem homem – garantiu a ela a simpatia das minorias. “A grande arte não é viver, é conviver”, dizia.

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Dois de seus últimos trabalhos mostram o quanto o espírito de Elke permanecia aceso, contundente e atual: ela foi uma das garota-propagandas de uma campanha recente da Avon pela diversidade.

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Além disso, há pouco Elke participou do filme Lua em Sagitário, de Marcia Paraíso – uma história de amor, rock e liberdade, que estreia em setembro nos cinemas brasileiros.

Elke em cena do filme "Lua em Sagitário" Elke em cena do filme “Lua em Sagitário”

A grande psicanalista brasileira Nise da Silveira dizia que Elke Maravilha era uma sacerdotisa dionisíaca, que aquecia os corações com sua alegria. Sempre contra as caretices vigentes, de boca escancarada Elke Maravilha jamais permitiu ser confinada em rótulos, definições, preconceitos ou mesmo na tristeza que o trágico da vida, que ela conheceu bem, as vezes parece impor.

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Seu carisma inegável e sua personalidade exuberante e múltipla foram as características essenciais de sua maravilha. Elke foi muitas, e em todas foi livre, libertária, senhora de si e em luta. Porém, para além das perucas, dos colares, do sorriso quilométrico e da beleza, sua principal herança há de ser a confirmação de que inteligência e liberdade são necessariamente complementares – não existem um sem o outro.

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© fotos: divulgação

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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