Debate

9 expressões populares com origens ligadas à escravidão e você nem imaginava

Vitor Paiva - 30/09/2016 às 13:52 | Atualizada em 18/01/2022 às 17:39

Certas expressões populares se tornam parte de nosso vocabulário e repertório de tal forma, que é como se sempre tivessem existido. Dor de cotovelo, chorar as pitangas, dar com os burros n’água, engolir um sapo ou salvo pelo gongo, tudo é dito como se fosse a coisa mais natural do mundo. O que poucos recordam é que todos esses termos tem uma origem e árvore etimológica própria.

Muitas das expressões que usamos no dia a dia, por exemplo, provêm de um vergonhoso e longo período da história do Brasil: a escravidão. Ainda que os sentidos originais tenham se diluído em algo trivial, é importante conhecê-los e entender como eles se formaram e ainda influenciam a realidade presente.

Por esse motivo, explicamos abaixo o significado e a origem de nove expressões populares criadas durante o período escravocrata no Brasil.

Fazenda Retiro, 1881, óleo sobre tela.

1. Tem caroço nesse angu

A expressão “Tem caroço nesse angu” significa que alguém está escondendo algo e se originou a partir de um truque realizado pelos escravos para se alimentarem melhor. Se muitas vezes o prato servido era composto exclusivamente de uma porção de angu de fubá, a escravizada responsável pro servi-los às vezes conseguia esconder um pedaço de carne ou alguns torresmos embaixo do angu. A expressão nasceu dos comentários de alguns escravizados a respeito de um prato que lhes parecesse suspeito.

2. A dar com pau

“Pau” é um substantivo utilizado em algumas expressões brasileiras e tem sua origem nos navios negreiros. Muitos negros capturados preferiam morrer a serem escravizados e, durante a travessia do continente africano para o Brasil, faziam greve de fome. Para resolver a situação, foi criado então o “pau de comer”, uma espécie de colher que era enfiada na boca de pessoas aprisionadas por onde se jogava comida até alimentá-las. A população acabou incorporando a expressão.

A única foto que se tem notícia de um navio negreiro, tirada por Marc Ferrez

A única foto que se tem notícia de um navio negreiro, tirada por Marc Ferrez.

3. Disputar a nega

“Disputar a nega” significa disputar mais uma partida de qualquer jogo para desempatá-lo. A expressão se originou durante o período escravocrata e ainda tem base na misoginia e no estupro. Sua história é simples e intuitiva: quase sempre, quando os senhores de engenho jogavam algum esporte ou jogo, o prêmio era uma mulher escravizada.

Escrava trabalhando mesmo que com o filho a tiracolo

Mulher escravizada trabalhando com o filho a tiracolo.

4. Nas coxas

“Nas coxas” é usada para descrever algo mal feito, realizado sem capricho. A expressão tem origem imprecisa: não há consenso sobre ela ter nascido de fato durante o período da escravidão. De todo modo, a vertente mais popular afirma que o termo viria do hábito dos escravizados moldarem as telhas nas próprias coxas que, por possuírem tamanhos e formatos diferentes, acabavam irregulares e mal encaixadas.

5. Espírito de porco

A origem inicial de “espírito de porco” vem da associação do animal a sujeira e a falta de higiene. Mas essa má fama é oriunda de princípios religiosos. Durante o período escravocrata, os escravizados eram obrigados a matar porcos para que eles servissem de alimento, mas muitos se recusavam. O motivo? Acreditavam que o espírito do animal abatido permaneceria no corpo de quem o matasse pelo resto da vida. Além disso, o choro do porco é considerado semelhante ao lamento humano, o que tornava a prática ainda mais assustadora.

6. Para inglês ver

“Para inglês ver” tem origem tanto na escravidão quanto no mal hábito brasileiro de aprovar leis que as pessoas não cumprem e não são punidas por isso. Em 1830, a Inglaterra exigiu que o Brasil criasse um esforço para acabar com o tráfico de escravos, e impusesse enfim leis que coibissem tal prática. O país acatou a exigência inglesa, mas as autoridades daqui sabiam que a lei simplesmente não seria respeitada — eram leis existentes somente no papel, “para inglês ver”.

Pintura retratando o fim do período escravocrata no Brasil.

7. Bucho cheio ou Encher o bucho

As expressões “bucho cheio” e “encher o bucho” eram mais comuns no estado de Minas Gerais e usadas tanto pelos escravos quanto por seus exploradores, mas com uma conotação diferente da que se usa hoje. Se atualmente elas significam estar bem alimentado ou de barriga cheia, na época, faziam referência a obrigação que os trabalhadores escravizados das minas de ouro tinham de preencher com o metal precioso um buraco na parede, conhecido como “bucho”, para só então receber uma tigela de comida.

Escravos trabalhando em Minas, em rara foto da época

Homens escravizados trabalhando em Minas, em rara foto da época.

8. Meia tigela

A partir da expressão anterior, a história seguiu e deu origem a expressão “meia tigela”. Ela significa algo sem valor, medíocre, desimportante. Quando o escravizado não conseguia preencher o “bucho” da mina com ouro, ele só recebia metade de uma tigela de comida. Muitas vezes, aqueles que frequentemente não conseguia alcançar essa “meta” ganhava esse apelido. Esses hábitos não eram, porém, restritos às minas e a punição era bastante comum para a maioria das obrigações dos escravizados.

9. Lavei a égua

Por fim, a expressão “lavar a égua” quer dizer aproveitar, se dar bem, se redimir em algo. Ela também se origina da exploração do ouro, quando os escravizados mais corajosos tentavam esconder algumas pepitas debaixo da crina do animal, ou esfregavam ouro em pó em sua pele. Depois, pediam para lavar o animal para recuperar o ouro escondido e tentar comprar a própria liberdade. Os que eram descobertos, porém, poderiam ser açoitados até a morte.

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Foto 1: Pintura de Georg Grimm

Fotos 2, 3 e 5: Arquivo/Marc Ferrez

Foto 4: Pintura de Auguste François Biard/WikimediaCommons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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