Inspiração

Carol Kaye é uma das maiores baixistas da história da música pop; e você provavelmente nunca ouviu falar dela

por: Vitor Paiva

Provavelmente você nunca ouviu o nome de Carol Kaye, mas é certo que você já ouviu sua música. Mais precisamente, o som de seu baixo. Sob o disfarce de uma simpática e jovial senhora de 81 anos esconde-se a identidade secreta de uma das mais prolíficas e influentes baixistas da história da música popular. Carol participou de nada menos que em torno de 10 mil gravações ao longo de seus mais de 50 anos de carreira, gravitando ao redor do centro da música pop e das melhores trilhas sonoras de cinema por toda a era dourada da década de 1960.

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Você possivelmente nunca escutou falar em Carol por um motivo simples: ao longo de tantos anos ela foi majoritariamente uma musicista de estúdio – alguém que participa das gravações de um compacto ou disco, e não das apresentações ou propriamente das bandas. Carol foi uma pioneira não só como uma mulher em uma indústria composta quase que integralmente por homens, mas também propriamente por sua sonoridade e suas linhas de baixo.

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Sua participação na formação da sonoridade mais importante da história do rock, o som da década de 1960 é fundamental, numa época, porém, em que músicos de estúdio eram contratados como funcionários, em sistemas abusivos, e simplesmente não recebiam crédito. Eram pagos por sessão de gravação, e na maioria dos casos seus nomes sequer apareciam na arte dos discos. Músicos de estúdio não eram estrelas. Carol, mais do que todos, é sistematicamente questionada, até hoje, sobre a veracidade de suas participações. A razão disso, ela responde sem pestanejar: por ser mulher. O porquê dos nomes serem excluídos era essencialmente comercial. Afinal, quem queria saber que sua banda preferida na realidade não tocava nos discos? E que seus discos de estimação eram muitas vezes executados por pessoas da idade de seus pais?

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Pois o quase inconcebível portfólio de Carol é também um mostruário da mais fina música americana de sua época: é ela quem toca baixo ou guitarra em, “Good Vibrations” e todo o mitológico álbum Pet Sounds, dos Beach Boys, em ”Unchained Melody” e “You Lost That Lovin’ Feelin’”, dos Righteous Brothers (duas das gravações mais executadas da história da música popular), “La Bamba”, de Richie Valens, “The Beat Goes On” e “I Got You Babe”, de Sonny e Cher, “River Deep – Mountain High”, de Ike e Tina Turner, “Somethin’ Stupid”, de Frank e Nancy Sinatra, os lendários temas de “Missão Impossível”, “Mash” e “Família Addams” – e mais um sem fim de participações em gravações de outros artistas como Simon and Garfunkel, Joe Cocker, The Doors, Isley Brothers, Paul Anka, Harry Nilsson, Sarah Vaughn, Chat Baker, Mel Tormé, The Monkees, Ray Charles, Nancy Sinatra, Barbra Streisand, Neil Young, Frank Zappa (guitarra no disco Freak Out! e em algumas faixas do disco Absolutely Free), Chris Montez, Love e mais – muito mais.

Carol em estúdio Carol em estúdio

Veja aqui um trailer de um documentário sobre Carol não finalizado:

Nascida no estado de Washington em 1935 e filha de dois músicos, Carol Kaye já era profissional aos 14 anos – tocando bepop jazz em clubes de Los Angeles, ainda como guitarrista, antes de descobrir e se apaixonar pelas quatro cordas graves do baixo. Aos 22 anos ela entrou em um estúdio pela primeira vez, em 1957, para gravar com o lendário Sam Cooke – com quem já vinha gravando, na mesma época em que começou a tocar com Richie Valens, com quem tocaria guitarra na gravação do clássico La Bamba. Entre as quatro paredes estofadas e acusticamente isoladas de um estúdio de gravação em Hollywood ela encontrou seu habitat natural, onde faria sua história e a história da música americana da segunda metade do século XX.

A jovem Carol, ainda nos anos 1950 A jovem Carol, ainda nos anos 1950

Um dia, em 1963, no imponente estúdio da gravadora Capitol, em Los Angeles, um baixista faltou à gravação, e Carol se ofereceu para tocar o baixo em seu lugar. Em pouco mais de um ano ela se transformaria na mais requisitada baixista da indústria fonográfica americana da época, gravando sob a direção dos maiores produtores e compositores de então, como Phil Spector, Michel Legrand, Quincy Jones, Lalo Schifrin, Brian Wilson e John Williams.

Brian Wilson e Carol Kaye Brian Wilson, dos Beach Boys, e Carol Kaye, em foto mais recente

Ao encontrar seu caminho principal no baixo, Carol Kaye encontrou também seu lugar cativo em um grupo de músicos de estúdio responsável por milhares de gravações históricas dos anos 1960, que ficou conhecido como The Wrecking Crew, ou a Turma Destruidora – apelido derivado da maneira como a velha guarda dos músicos de estúdio da época, acostumados a engravatadas gravações austeras e seríssimas via aqueles jovens tocando de calça e camisa, descontraídos, criando junto dos artistas e se divertindo ao fazê-lo.

Carol com o Wrecking Crew, durante as gravações do Pet Sounds Carol com o Wrecking Crew, durante as gravações do Pet Sounds

Carol era a única mulher nesse enorme grupo de homens, que vieram de fato para destruir a dureza e a solenidade com que se fazia música até a década de 1960, para deleite dos nossos ouvidos e corações (há um maravilhoso documentário sobre o Wrecking Crew no Netflix, contando a história do grupo, com participação de Carol).

“Eu fui criada por pais musicistas, e cresci com a música ao meu redor. Éramos pobres, mas quando havia música, era como um brilho em nossa vida. E o brilho permanece, tantos anos depois de todas as gravações que fizemos. Basta eu ligar o rádio e lá estão meus companheiros de música. Eu me afeiçoei a tantos, estávamos todos juntos, trabalhando por um hit, e adorávamos tocar juntos. O visual, o sentimento das músicas, as piadas internas, tudo criou um caloroso afeto entre nós”.

O guitarrista Tommy Tedesco com Carol O guitarrista Tommy Tedesco com Carol

E, de fato, poucas bandas souberam encarnar o sentimento dessa época (e que época) com a mesma competência e força musical do que os músicos do Wrecking Crew. Inicialmente foram conhecidos como a orquestra de Phil Spector, por terem realizado o conceito de Parede Sonora criado pelo genial (e louco) produtor americano – uma sonoridade densa, forte, que soasse perfeitamente nas rádios, nos discos e nas jukeboxes da época; um som que “mesmo que a canção não fosse a melhor, a sonoridade seria capaz de carregar a música”, afirmou Phil Spector, que passou a dobrar ou triplicar os instrumentos nas gravações, a fim de alcançar a tal parede sonora com que sonhou.

 Carol Kaye and Bill Pitman Carol Kaye e o guitarrista Bill Pitman

O Wrecking Crew era formado por dezenas de músicos, que variavam nas formações para cada gravação – mas Carol era a baixista oficial do grupo. A quantidade de gravações realizadas por eles parece de fato inconcebível. “As máquinas de café e de comida trabalhavam um bocado também, e às vezes tínhamos de comer de enlatados (sem tempo para comida de verdade), dormir no chão nos intervalos de cinco minutos (oito horas de sono por dia, está brincando?) e correr para a próxima gravação. As pessoas perguntam como conseguimos, e eu respondo: ‘aprenda a encontrar uma vaga para estacionar seu carro, não se atrase, tenha um lápis com você, não seja egoísta, e, é claro, saiba criar, ler música e tocar”.

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As gravações de Carol se destacam não só por seu estilo de tocar, sempre com uma palheta, mas também por saber oferecer uma função maior ao baixo, um tanto melódica e harmônica, do que simplesmente o sentido rítmico e de base que antes ele cumpria.

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Deslocando notas e tempos, Carol criava uma outra função do que o trato costumeiro para um baixo em uma canção – como fica claro em uma gravação como “Good Vibrations”. “Eu presto atenção em tudo que está acontecendo em uma música quando estou gravando”, ela diz, “e tento colocar o baixo como uma espécie de estrutura para a gravação como um todo”.

Ainda que não se considere uma pioneira da presença feminina, Carol sabe da importância de seu papel como mulher na indústria fonográfica – mas prefere ressaltar o significado de seu trabalho. Veja abaixo um trecho do documentário The Wrecking Crew sobre a gravação de Good Vibrations.

“Haviam mulheres tocando, todo mundo sabia. Eu sabia que tinha que responder tocando guitarra ou baixo. As notas não tem gênero, ou elas são boas ou não são. E tem gente que não consegue lidar com isso – especialmente alguns homens. Eles querem pensar que foi um homem que tocou o baixo. Mas quando você ouvir um baixo tocado como um homem por aí, provavelmente fui eu” – e nisso ela se equivocou. Trata-se, afinal, de baixos e guitarras tocados justamente como homem nenhum jamais tocou. Ou, como o gênio dos Beach Boys, Brian Wilson, a definiu: “Carol, você é simplesmente a melhor”.

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© fotos: divulgação

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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