Matéria Especial Hypeness

Cia de balé para cegos em SP ensina sobre igualdade, autoestima, inclusão e dança

por: Brunella Nunes

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Um riso frouxo de vergonha por conta de um desequilíbrio aqui e outro lá. A coragem de querer girar para concluir um fouett com exatidão e o medo de não sair tudo perfeito. Essas foram algumas das impressões e sentimentos capturados por mim durante aula de balé para deficientes visuais na Associação de Ballet para cegos Fernanda Bianchini. Como é bonita a dança de quem sente a música… a gente fecha os olhos e abre o coração.

Localizada na Vila Mariana, em São Paulo, a associação é a primeira e única escola de balé para cegos no mundo. Comandada pela bailarina Fernanda Bianchini, este não é um lugar apenas para a dança. É um espaço de igualdade, de coragem, de inclusão. Em 1998, aos 15 anos, Fernanda foi convidada para dar aulas no Instituto de Cegos Padre Chico. As palavras de incentivo do pai foram o que a motivou a aceitar o convite: “Filha, nunca diga não para um desafio pois são sempre destes que partem os maiores ensinamentos das nossas vidas”.

Apesar de não saber como ensiná-las e, até então, nunca ter contato com deficientes visuais, desenvolveu um método próprio baseado no toque e na percepção corporal. Os cegos costumam olhar para o chão e o balé exige uma postura que mire o horizonte. Assim, a professora diz às alunas que elas devem olhar para as estrelas, mesmo que não as enxerguem. E assim, elas alcançam todo aquele brilho.

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Dar aulas tão jovem e para um público bem específico certamente trouxe muita responsabilidade e uma super maturidade que Fernanda carrega até hoje. Meu maior aprendizado foi a enxergar o mundo com os olhos do coração. Com certeza a partir disso eu aprendi a enxergar um mundo mais bonito, com mais significado e mais inclusivo”. Mas, para ela, a inclusão só acontecerá verdadeiramente quando um se colocar no lugar do outro, que é uma das premissas da entidade, fundada em 2003.

Com o preconceito e um monte de obstáculos pelo caminho, o local acaba sendo muito mais do que um lugar para se aprender balé. “Às vezes as crianças chegam aqui com muitos problemas de vida mesmo, problemas sociais. Acredito que a gente tem que ensinar o balé e também a dança da vida, sabe? É um acolhimento além”. As mães também são acolhidas como gostariam de ser, assim como os filhos e filhas, porque a sociedade não recebe uma pessoa com deficiência desta mesma forma.

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A dança envolve tanta coisa boa que não vai caber neste texto. Postura, equilíbrio, noção de espaço, sociabilização, autoconfiança, autoestima são só alguns dos benefícios. Ali se forma uma grande família que só soma, nunca subtrai. A música clássica embala as bailarinas de baixa ou nenhuma visão ao redor do salão que, sem elas, pouca luz tem.

De mãos dadas, elas ensaiam para a apresentação de final de ano e te garanto que acompanhar os movimentos é bem difícil. Para leigas como eu, o ensaio é extremamente confuso (por conta dos nomes em francês, que devem ser decorados), rígido, ágil e altamente disciplinar. A perdida aqui só observava as meninas, com aquela vontade básica de imitar seus movimentos.

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As aulas para as mais de 200 pessoas são gratuitas e misturadas, incluindo alunos com e sem deficiência que aprendem juntos. O que separa as turmas são apenas os níveis da dança, que vão evoluindo de acordo com a idade. Além do balé clássico também há exercícios de pilates, fisioterapia e cursos de teatro, sapateado, dança do ventre, dança de salão e danças para a terceira idade. A cada início de ano abrem vagas para novos integrantes.

Com muitos alunos novos chegando e pouco espaço na sede atual, transformando até mesmo parte da recepção numa sala de aula, a associação perdeu seus dois patrocínios, que expiraram no mês de setembro, e precisa de novos parceiros. O dinheiro para bancar a escola vem das rifas e dos espetáculos, que por vezes acaba não pagando todas as contas e o aluguel. “Meu sonho é ter mais patrocinadores e parceiros para não só aumentar o número de alunos, mas ter uma sede própria”, destacou a fundadora.

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Para ajudar nos custos, haverá um bazar no dia 19 de novembro, além da programação anual contar com uma série de espetáculos, com datas que podem ser acompanhadas pela página do Facebook. Fernanda também ministra cursos para quem quer aprender seu método e propagar o ensino do balé para cegos. A renda é sempre revertida para a entidade. Você também pode colaborar doando a quantia que puder através deste link.

Sem apoio de órgãos públicos, também nunca receberam um convite para se apresentar no Theatro Municipal de São Paulo, um dos mais significativos da cidade, embora já tenham conquistado teatros mundo afora. Para se ter uma ideia do sucesso, a associação tem mais de 100 prêmios que coletou ao longo dos anos, além de ter se apresentado na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, e outros países como Alemanha, Polônia e Estados Unidos, sem contar as muitas cidades do Brasil.

Além disso, também são tema do documentário Looking at the Stars (Olhando para as Estrelas), do brasileiro Alexandre Peralta que, de olho neste talento e inovação, quis eternizar a história da escola, de Fernanda e de duas alunas no cinema. Viabilizado através de financiamento coletivo e apresentado em junho deste ano no Los Angeles Film Festival, é um retrato sensível e emocionante, com cenas lindas. A previsão de estreia em São Paulo é para o final do mês de outubro. 

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Alunos de uma vida toda

“Acho que o momento mais desesperador foi pedir pra minha mãe abrir a janela do quarto e não enxergar a luz. Foi tudo tão de repente”. Este foi o dia mais difícil da vida de Geyza Pereira, professora e bailarina profissional nascida em São José do Egito, sertão de Pernambuco, que aos 9 anos passou a ver o mundo literalmente com outros olhos. Ela perdeu a visão de uma só vez enquanto ainda estava no hospital tratando uma meningite que demorou a ser diagnosticada pelos médicos.

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A deficiência visual não apagou o sonho antigo de ser bailarina, ofício que cumpre com amor na companhia de Fernanda há 21 anos. Amigas, elas se conheceram no Instituto Padre Chico e seguem juntas até hoje.Depois que se envolveu na escola, foi avançando de nível até se tornar professora de balé, em 2004, além de ter desbravado muitas cidades do Brasil e do mundo por conta da dança. “Hoje, as alunas novas têm exemplos de bailarinas cegas. Quando a Fernanda começou a me ensinar, não tinha nenhuma no Brasil e só uma na Alemanha. Não havia estudo sobre isso. Então hoje essas meninas têm referências, acredito que seja mais fácil para elas.”

Aos 31 anos, está casada e tem um filho de 2 anos. “Durante a abertura das Paralimpíadas, ele via as danças, seguia o ritmo e levantava a perna, falando ‘mamãe dançando’”, ela conta, se divertindo. Os planos para o futuro incluem continuar carregando o nome da escola por onde quer que for. Eu sou uma semente dela e quero estar sempre junto com a Fê. Mesmo se eu mudar de cidade, penso em talvez ter uma filial da associação e não uma escola com meu nome”.

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Marina Alonso Guimarães é outra aluna que está há muito tempo com Fernanda. Com 20 anos de escola, ela iniciou o balé aos 10 e destaca que a dança rompe barreiras e fronteiras, já que ela também é viajada e chegou a se apresentar nas Paralimpíadas de Londres. Acho que o fato de você conseguir se superar a cada dia é a melhor coisa. É a superação da superação. O balé é muito difícil. Com machucados fica mais difícil ainda. É uma coisa que você tem que aprender a lidar com a dor”.

De fato, pés de bailarina sofrem e com as deficientes visuais isso não é diferente, mas se torna até um incentivo ainda maior. “Uma vez, numa apresentação, estava com o pé muito machucado e achava que não ia conseguir dançar direito. No final das contas, foi uma das melhores da minha vida, contou.

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Acompanhada do cão-guia Duque há oito meses, ela conta que a companhia do melhor amigo também trouxe mudanças muito significativas na sua rotina. “Minha vida mudou. Todo dia agradeço a Deus por ter conseguido ele. Você tem outra autonomia, no metrô não tem mais a necessidade de funcionários me ajudarem, por exemplo. Ninguém gosta de depender de ninguém. Então é maravilhoso contar com ele”.

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Quem também está na escola desde o início é Everton Ricardo Bispo, de 29 anos. Ele conheceu a dança aos 13 anos e também a Marina, que o avisou sobre a necessidade de bailarinos nas aulas da Fernanda, em meados de 2002. Formado em educação física, trabalha com reabilitação e também dá aulas de balé clássico. “Tinha a dança como um hobbie, gostava de dançar, e através da minha busca e conhecimento acabei me tornando professor”.

Atualmente ele dá aulas de dança em cadeira de rodas, balé básico para múltiplas deficiências para o público infantil e adulto. Trabalhar como dançarino e professor é sinônimo de ensinar e também aprender. Numa sala tem quatro meninas com Síndrome de Down e quando elas se encontram é uma festa. Recentemente até quebraram uma barra dentro da sala de tão eufóricas que ficam. Então eu preciso mantê-las focadas mas sem tirar o lúdico, porque se eu passar pra elas uma coisa muito rígida e quadrada, elas não vão absorver. Acrescentando todo esse lado na rotina delas se desenvolve valores para toda a vida”.

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As paredes da escola com arte das crianças

Apesar de não ser deficiente visual e de entender limitações – dentro de quaisquer ser humano – ele não vê diferenças ou barreiras em lidar com este público. Como desde cedo tive esse contato com deficientes, sempre achei tudo normal. A única coisa que era adaptada era a forma de comunicação. Quando eu tinha cerca de 8 anos tinha uma amiga com deficiência auditiva, então a gente se comunicava por papel”, relembra o bailarino, que estudou em escolas focadas na inclusão, o que fez toda a diferença. No momento em que eu passava por uma formação de caráter, formação como pessoa, isso passou a fazer parte da minha vida. Então não tinha essa distinção. Hoje isso é tão normal que minha esposa é deficiente visual”, revelou ele, que é casado com a bailarina Cintia Souza Domingues.

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Foto: divulgação/Fernanda Bianchini

Entre um plié e outro, o amor

Diagnosticada aos 11 anos com retinose pigmentar, doença gradativa que causa a perda da visão, Cintia já era uma apaixonada por dança, mas achava o balé meio chato, até ingressar na associação. Atualmente, com 20% da visão, é uma bailarina dedicada que agradece pelos estudos em enfermagem não serem levados adiante. “Criei um amor imensurável. Adoro todos os tipos de danças, mas o balé é especial”.  

A dança transformou a sua vida em vários aspectos e a fez realizar sonhos. O balé me trouxe oportunidades, porque a gente dançou fora, já conheci a Alemanha, a Polônia, e sempre sonhei em dançar em outro lugar, mas era um sonho que ficava assim…deixado de lado. Então eu sou muita grata ao balé e a Fernanda”.

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Além de tanta coisa boa na vida profissional e pessoal, a dança também trouxe o amor. A história de Cintia e Everton é bastante curiosa e tem um pouquinho de confusão. Antes do balé, Cintia havia estudado com a meia-irmã de Everton, com quem ele não tinha muito contato. Assim que a bailarina começou a dançar na escola, soube pela amiga que ela tinha um irmão estudando lá e se empolgou com a ideia de já ter alguém com quem se enturmar.

Acontece que Everton estava dando um tempo na dança por conta dos estudos de pós-graduação, entre 2010 e 2014. Eu saí da escola e ela entrou. Um dia fui no espetáculo das meninas e, como conhecia todo mundo, ia nos bastidores falar com elas. Quando a vi, achei estranho, notei que era uma pessoa nova na turma e fui puxar papo”, contou o bailarino.

Mas, coincidentemente, tem outro Everton na escola, que causou todo aquele desencontro de informação na hora da primeira conversa. “Até minha irmã chegou a pensar que eu estava renegando ela!”, disse, rindo. Depois de um desfecho da confusão toda, o casal começou a se falar e rolou uma aproximação que rendeu casamento há 9 meses atrás. Hoje eles seguem juntos no balé clássico e na dança da vida.

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Todas as fotos © Brunella Nunes

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Fotos: divulgação | © Angela Pereira

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Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.


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