Matéria Especial Hypeness

O som e a fúria de Nevermind, 25 anos depois

por: Vitor Paiva

Pouco importam os mais de 25 milhões de discos vendidos até hoje, as centenas de bandas que surgiram tentando emular aquele som, as camisetas, as homenagens, a idolatria, o suicídio, as datas comemorativas e os textos comentando datas comemorativas – como este. A década de 1980 se encerrou (e a de 1990 começou) 25 anos atrás, no dia 24 de setembro de 1991, e a única coisa que importa sobre isso é um garoto ou uma garota de pé em seu quarto, olhando a capa de um disco com um bebê nadando na direção de uma nota de dólar presa a um anzol como quem olha a um espelho, enquanto os quatro acordes que começam o disco Nevermind invadem esse quarto com uma furiosa certeza: algo se quebrou, está se quebrando – e enfim tudo mudou.

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E pouco importa se a cena descrita acima foi vivida em 1991, 2001, 2011 ou em 2021, pois o impacto de um disco como o segundo do Nirvana se dá para além do tempo cronológico que, para certas obras de arte, simplesmente passa de forma diferente, como se fossem sempre profecias ainda a se cumprirem. O exato instante em que a identificação profunda com um disco se sucede, especialmente quando se é um adolescente, um jovem, uma criança cheia de sede e dúvidas, derruba parâmetros e certezas, como se o coração tomasse o lugar do cérebro, e vice-versa.

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Da mesma forma que aconteceu para a geração nascida durante a segunda guerra com Elvis na TV americana ou João Gilberto nas rádios brasileiras (e para a geração seguinte, da década de 1960, com os Beatles ou os tropicalistas), para quem cresceu nos anos 1990 e desconfiava do rock como um possível lugar de identidade, descoberta e sentido, tudo começou com Nevermind. Nos 49 minutos de duração do disco estava o mapa para começarmos a entender – ou ao menos a sabermos perguntar – quem somos enquanto geração, o que temos a fazer, do que estamos falando, de onde viemos, para onde poderemos ir.

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O início dos anos 1990 era um momento de incertezas absolutas, em que a queda do muro de Berlim, o fim da União Soviética, o predomínio norte-americano e a vitória do capitalismo neoliberal pareciam ter enterrado de vez as utopias e a polaridade tão definidora do que fora o século XX (que, apesar dos horrores, servia como uma espécie de equilíbrio emocional coletivo). Em seu vácuo, porém, não nos restava a confiança de um novo tempo ou a justeza de uma época começando, mas sim uma coleção de dúvidas, uma sensação de mudança, uma melancolia aguda contra uma fúria prestes a explodir, como se caminhássemos sobre escombros quando haviam nos prometido casas.

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A banda, no lendário estúdio Sound City, durante as gravações do disco A banda, no lendário estúdio Sound City, durante as gravações do disco

Por isso, aquela sequência de acordes tocada com convicção e força que abre o disco em Smells Like Teen Spirit, ao ser invadida por uma entrada de bateria que mais parece alguém empurrando um piano ladeira abaixo, e uma distorção de guitarra muito mais alta, suja e barulhenta do que parecia necessário, fez mais sentido do que, naquele momento, qualquer outro som.

Era o som de tudo aquilo que havia se quebrado, do antigo espelho posto em cacos para formar um espelho novo – que trazia a ética e a estética da música independente e do punk para os holofotes da grande mídia, do grande mercado, do grande público. Faça você mesmo. O Nirvana se lançou ao establishment e ao sucesso como um trio de camicases punks, para explodirem a indústria e a mídia por dentro, e assim deixar entrar quem tinha de entrar, e botar pra fora quem precisava sair.

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Não se tratou de uma revolução programada, da mesma forma que o título da canção manifesto que abre o disco se deu por acaso, entre o aleatório e o engano. Kurt Cobain namorava Tobi Vail, baterista da banda Bikini Kill, e um dia a vocalista da banda, Kathleen Hanna, escreveu em sua parede: Kurt Smells Like Teen Spirit. O espírito adolescente a que Kurt cheirava, porém, não passava de um desodorante chamado justamente Teen Spirit, que Tobi usava. A frase era uma piada, pura chacota, mas para ele aquilo soou como uma poética convocação. O disco foi lançado com a expectativa de vender 250 mil cópias em um ano, mas em pouco tempo, principalmente depois do lançamento do clipe de Teen Spirit na MTV, o disco passou a vender 300 mil cópias por semana.

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Passados 25 anos, muita coisa já foi dita sobre a banda e sobre esse disco. A música independente se tornou naturalmente uma força dentro do mercado – e este sim, o mercado, perdeu força e se diluiu. É possível afirmar que o Nirvana foi a última banda do século XX, a carona derradeira no velho esquema centralizado em uma grande corporação, capaz de fazer decolar aos céus uma carreira musical e forjar um ídolo eterno através de pouco mais do que talento, uma boa banda e uma boa gravação – e Nevermind é uma espécie de canto do cisne desse esquema.

O êxito de uma canção ou de um disco é uma ciência imprevisível e inexata e, em meio ao modorrento cenário pop da época, recheado da pose das hair bands e de pops insípidos, e tendo em Michael Jackson seu nome forte (que, apesar do talento sobre-humano, já dominava as paradas haviam mais de dez anos), o som do Nirvana não parecia de forma alguma fadado a agradar a todas as classes e identidades da juventude de então.

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Acontece que há algo na tensão sugerida pelo disco, no talento melódico de Kurt (um verdadeiro artesão da canção americana, como ele próprio fez questão de deixar claro ao despir e exibir as canções nuas em seu inigualável Acústico MTV) e na energia com que o disco convida nossas fúrias, desejos, angústias e emoções a gritarem junto com o vocalista, que fez do disco uma passagem secreta, um atalho para se olhar a realidade pelas palavras de ordem, ora aleatórias, ora incompreensíveis, mas sempre diretamente sensíveis e provocativas das letras, que funcionou para todos – e ainda funciona. Era como se as melodias mais assoviáveis e inesquecíveis de Paul McCartney em um esbarrão se misturassem com a fúria e a contundência dos Sex Pistols – como se os Beatles fossem sequestrados pela inclemência do Punk.

Outra medida objetiva, porém, ainda é facilmente perceptível: em um mundo árido e sem utopias, em que tudo parecia falso e visando o lucro (novamente, basta olhar para as paradas de sucesso da época), o Nirvana soava e parecia enfim real. Pessoas de verdade, fazendo uma música igualmente verdadeira, imperfeita, tocada por seres humanos que, por mais célebres, ricos e famosos que tenham se tornado, jamais permitiram cumprir as exigências mercadológicas para tal, sempre visando sua própria ética e estética como nortes artísticos. Se as ideologias haviam falido e o mercado e o capital não supriam nossa fome de sonhos, ao menos a realidade árida e o som franco e bruto, sem excessos técnicos, malabarismos virtuoses, pose ou polidez que o Nirvana impôs pôde oferecer algo de tangível, com cheiro e sabor de sua época. Era, enfim, um som com o qual podíamos identificar nossas dúvidas, medos e sonhos.

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Porém, antes de todos esses conceitos, acima de qualquer rótulo ou sentido social, há uma coleção impecável e rara de canções beirando a perfeição, e um cantor impressionante defendendo essas letras e melodias, somente comparável a John Lennon no que diz respeito a rasgar as próprias vísceras e oferecer tudo de si para fazer de um disco o mais pungente e contundente possível. Canções simples, em arranjos simples, daquelas que todos são capazes de sentir, mas raros são os capazes de alcançar tanto com tão pouco – e isso é o ouro da música popular.

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Mesmo passadas duas décadas e meia, Nevermind continua fresco e intrigante, e suas canções soam melhores do que nunca. A doce melodia e a letra desafiadora, debochada e sombria de On a Plain, a energia contagiante e raivosa de Breed, com sua letra tão adolescente quanto possível – em oposição a igualmente enérgica Territorial Pissings, que possui uma das mais repetitivas e curtas porém brilhantes letras da década de 90; In Bloom e seu refrão tão inocente e pop, além de Come As You Are, um guia para as angústias de Kurt e para a própria ética da banda, um hino tão comovente quanto qualquer clássico dos Smiths – e assim sucessivamente, inequivocamente, sobre cada uma das 12 peças que formam o disco.

Todas as honrarias, tributos e títulos já foram oferecidos a Nevermind, e continuarão sendo enquanto a música e o rock forem relevantes, mas tudo isso também importa pouco.

MTV Unplugged: Nirvana

Possivelmente Nevermind sequer é o melhor trabalho do Nirvana – In Utero, o terceiro e último disco de estúdio da banda, é um trabalho mais arriscado, complexo e artístico, enquanto o Acústico MTV acabou se tornando a peça fundamental do imaginário heroico e trágico ao redor da genialidade de Kurt Cobain. Mas trata-se de um daqueles discos lançados na hora certa, da maneira certa, dizendo e soando a coisa certa, capazes de engolir o velho mundo e cuspir um mundo novo, e o fazem.

Feito um Ziggy Stardust, do Bowie, um Chega de Saudade, do João Gilberto, um Sgt. Pepper’s, dos Beatles, ou um Da Lama ao Caos, de Chico Science, Nevermind é ao mesmo tempo a despedida e o início de uma era, um disco capaz de mover geração após geração, que sempre parece revelar algo novo a cada audição – não só sobre ele próprio e a música da banda, mas sobre nós mesmos, e o mundo que ele ajudou a moldar.

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© fotos: divulgação/reprodução

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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