Arte

O som e a fúria de Nevermind, 25 anos depois

Vitor Paiva - 26/09/2016 | Atualizada em - 06/02/2021

Pouco importam os mais de 25 milhões de discos vendidos até hoje, as centenas de bandas que surgiram tentando emular aquele som, as camisetas, as homenagens, a idolatria, o suicídio, as datas comemorativas e os textos comentando tais datas – como este. A década de 1980 se encerrou (e a de 1990 começou) 25 anos atrás, no dia 24 de setembro de 1991, e a única coisa que importa sobre isso é um garoto ou uma garota de pé em seu quarto, olhando a capa de um disco estampando um bebê nadando na direção de uma nota de dólar presa a um anzol como quem olha a um espelho, enquanto os quatro acordes que abrem Nevermind, segundo disco da banda Nirvana, invadem esse quarto com uma furiosa certeza: algo se quebrou, está se quebrando – e enfim tudo mudou: tudo perdeu o sentido e, por isso, finalmente ganhou.

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E pouco importa se a cena descrita acima foi vivida em 1991, 2001, 2011 ou em 2021, pois o impacto de um disco como Nevermind se dá para além do tempo cronológico – que, para certas obras de arte, simplesmente passa de forma diferente, como se fosse sempre uma profecia a se realizar. O exato instante em que a identificação profunda com um disco se sucede, especialmente quando se é um adolescente, um jovem, uma criança cheia de sede e dúvidas, derruba parâmetros e certezas, como se o coração tomasse o lugar do cérebro, e o cérebro do coração.

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Da mesma forma que aconteceu para a geração nascida durante a segunda guerra com Elvis na TV dos EUA ou João Gilberto nas rádios brasileiras (e para a geração seguinte, da década de 1960, com os Beatles ou os tropicalistas), para quem cresceu nos anos 1990 e desconfiava do rock como um possível caminho de identidade, descoberta e sentido, tudo começou com Nevermind. Nos 49 minutos de duração do disco se encontrava o mapa para se começar a entender – ou ao menos a saber perguntar – quem ou o que era aquela geração, o que tínhamos a fazer, do que se estava falando, de onde vinha, para onde poderia ir.

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O início dos anos 1990 era, afinal, um momento de incertezas absolutas, em que a queda do muro de Berlim, o fim da União Soviética, o predomínio estadunidense e a vitória do capitalismo neoliberal pareciam ter enterrado de vez as utopias e a polaridade tão definidora do que fora o século XX (que, apesar dos horrores, servia como uma espécie de equilíbrio emocional coletivo). Em seu vácuo, porém, não restava a confiança de um novo tempo ou a justeza de uma época começando, mas sim uma coleção de dúvidas, uma sensação de mudança, uma melancolia aguda contra uma fúria prestes a explodir – como se caminhássemos sobre escombros quando haviam nos prometido casas.

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A banda, no lendário estúdio Sound City, durante as gravações do disco

A banda, no lendário estúdio Sound City, durante as gravações do disco

Por isso aquela sequência de acordes tocada com convicção e força que abre o disco na canção Smells Like Teen Spirit, ao ser invadida por uma entrada de bateria que mais parece alguém empurrando um piano ladeira abaixo e uma distorção de guitarra muito mais alta, suja e barulhenta do que parecia necessário ou mesmo possível, fez mais sentido do que, naquele momento, qualquer outro som.

Era o som de tudo que havia se quebrado, do antigo espelho posto em cacos para formar um espelho novo – que trazia a ética e a estética da música independente e do punk para os holofotes da grande mídia, do grande mercado, do grande público. Faça-você-mesmo: o Nirvana se lançou ao establishment e ao sucesso como um trio de camicases punks para explodirem a indústria e a mídia por dentro, e assim deixarem entrar quem tinha de entrar, e botar pra fora quem precisava sair.

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Não se tratou de uma revolução programada, da mesma forma que o título da canção manifesto que abre o disco se deu por acaso, entre o aleatório e o engano. Foi vocalista da banda Bikini Kill, Kathleen Hanna, quem despretensiosamente escreveu na parede da casa onde o vocalista e guitarrista do Nirvana vivia: “Kurt Smells Like Teen Spirit”. O tal “espírito adolescente” a que Kurt cheirava, porém, não passava de um desodorante chamado justamente Teen Spirit. A frase era uma piada, pura chacota, mas para Cobain soou como uma poética convocação – um lema e uma inspiração. O disco foi lançado com a expectativa de vender 250 mil cópias em um ano, mas em pouco tempo, principalmente depois do lançamento do clipe de “Smells Like Teen Spirit” na MTV, o disco passou a vender 300 mil cópias por semana – até chegar ao topo das paradas de sucesso dos EUA e se tornar o disco mais vendido do mundo à época, um verdadeiro fenômeno, o mais importante disco da década.

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Passados 25 anos, muita coisa já foi dita sobre a banda e sobre Nevermind: a música independente se tornou naturalmente uma força dentro do mercado – e este sim, o mercado, perdeu força e se diluiu. É possível afirmar que o Nirvana foi a última verdadeiramente grande banda do século XX, a carona derradeira no velho esquema centralizado em uma grande corporação capaz de fazer decolar aos céus uma carreira musical e forjar um ídolo eterno através de pouco mais do que talento, uma boa banda e uma grande gravação – Nevermind é uma espécie de canto do cisne desse esquema.

O êxito de uma canção ou de um disco é uma ciência imprevisível e inexata. Em meio ao modorrento cenário pop da época, embaralhado entre as hair bands e o pop de então (tendo em Michael Jackson seu nome mais forte que, apesar do talento sobre-humano, já dominava as paradas havia mais de dez anos), o som do Nirvana não parecia de forma alguma fadado a agradar todas as classes e identidades da juventude de então.

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Acontece que há algo na tensão sugerida pelo disco, no talento melódico de Kurt (um verdadeiro artesão da canção americana, como ficaria claro quando a banda decidiu despir e exibir as canções nuas em seu inigualável Acústico MTV, de 1993) e na energia com que o disco convida nossas fúrias, desejos, angústias e emoções mais profundas a gritarem junto com o vocalista, que fez de Nevermind uma passagem secreta, um atalho para se olhar a realidade pelas palavras de ordem, ora aleatórias, ora incompreensíveis, mas sempre diretamente sensíveis e provocativas das letras. Era como se as melodias mais assoviáveis e inesquecíveis de Paul McCartney em um esbarrão se misturassem com a fúria e a contundência dos Sex Pistols – como se os Beatles se tornassem uma banda punk.

Outra medida objetiva, porém, ainda é facilmente perceptível como mote de tal processo histórico: em um mundo árido e sem utopias, em que tudo parecia falso e visando o lucro, o Nirvana soava e parecia como algo enfim (ou ainda) real. Pessoas de verdade, fazendo uma música igualmente verdadeira, imperfeita, tocada por seres humanos que, por mais célebres, ricos e famosos que tenham se tornado, jamais permitiram cumprir as exigências mercadológicas para tal, sempre visando sua própria ética e estética como nortes artísticos. Se as ideologias haviam falido e o mercado e o capital não supriam nossa fome de sonhos, ao menos a realidade árida e o som franco e bruto, sem excessos técnicos, malabarismos virtuoses, pose ou polidez que o Nirvana impôs puderam oferecer algo de tangível, com cheiro e sabor de sua época, ao ávidos ouvidos de então – e até hoje. Era, enfim, um som com o qual podíamos identificar nossas dúvidas, medos e sonhos.

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Antes de todos esses conceitos, porém, acima de qualquer rótulo ou sentido social, há uma coleção impecável de grande canções, e um cantor impressionante defendendo essas letras e melodias com a própria vida, em força e gesto somente comparável a John Lennon no que diz respeito ao rasgar das próprias vísceras para oferecer tudo de si, e fazer de um disco o mais pungente e contundente possível. Canções simples, em arranjos simples, daquelas que todos são capazes de sentir, mas raros são os capazes de alcançar tanto com tão pouco –  é isso o ouro da música popular.

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Passadas duas décadas e meia, Nevermind continua fresco e intrigante, e suas canções soam melhores do que nunca. Na doce melodia e a letra desafiadora, debochada e sombria de On a Plain, a energia contagiante e raivosa de Breed, com sua letra tão adolescente quanto possível – em oposição a igualmente enérgica Territorial Pissings, e sua poética curta, repetitiva e desafiadora como uma metralhadora de angústias; In Bloom e seu refrão tão inocente e pop quanto sombrio, além de Come As You Are, um guia para as profundezas de Kurt e a própria ética da banda, hino tão comovente quanto, por exemplo, qualquer clássico dos Smiths – e assim sucessivamente, inequivocamente, sobre cada uma das 12 peças que formam o disco.

Todas as honrarias, tributos e títulos já foram oferecidos a Nevermind, e continuarão sendo enquanto a música e o rock forem relevantes, mas tudo isso também importa pouco.

MTV Unplugged: Nirvana

Possivelmente Nevermind sequer é o melhor trabalho em disco do Nirvana – In Utero, o terceiro e último álbum de estúdio da banda, é um trabalho mais arriscado, complexo e artístico, enquanto o Acústico MTV acabou se tornando a peça fundamental do imaginário heróico e trágico que orbita ao redor do sucesso de Kurt Cobain. Trata-se, no entanto, de um daqueles discos lançados na hora certa, da maneira certa, dizendo e soando a coisa certa, capazes de engolir o velho mundo e cuspir um mundo novo. Nevermind é ao mesmo tempo a despedida de uma era e o início de outra: um disco capaz de mover gerações, que sempre parece revelar algo novo a cada audição – não só sobre ele próprio e a música da banda, mas sobre nós mesmos enquanto o ouvimos, e sobre o mundo que ele ajudou a destruir e moldar novamente.

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© fotos: divulgação/reprodução

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Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publica artigos, ensaios e reportagens, é autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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